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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Suzana Acabo de voltar da igreja com a alma cheia de consolação, e, entrando em casa, acho logo um desgosto!... Por que não procuram a igreja, como eu?...

Teodora Minha tia...

Suzana Vocês viveram bem até hoje. Deus nosso Senhor estava nesta casa; que tentação maligna os expõe à perder a celeste graça?...

Teodora Nós nos amamos, como antes, minha tia. Tivemos apenas arrufos sem conseqüência.

Suzana Não, eu sei o que é. Desde algum tempo vocês disputam a miúdo, e nem sabem guardar a disputa para a hora e o lugar em que o sacrário dos esposos se fecha aos olhos e aos ouvidos da família. Essa indiscrição é o castigo da ira, como essa luta cruel em que estão, é o castigo de ambiciosa avareza.

Firmino (a Teodora) E esta? É bem feito: aturamo-la agora.

Suzana Tenho-os ouvido por vezes... custara-me a confundi-los com a verdade... hoje não posso mais... o dever da consciência o manda: é por amor de vocês que vou falar...

Teodora (a Firmino) Tem paciência, ouçamos o sermão da santa velha.

Suzana Meus filhos, uma órfã é criatura sagrada. Por isso mesmo que na terra perdeu seus pais, por isso mesmo que é raro o tutor que sabe servir de pai, ela é a filha mimosa do Pai do céu: das lágrimas da cruz, uma lágrima é a sagração da paternidade divina da órfã. Quem atormenta a órfã, flagela a Jesus.

Teodora Que quer dizer, minha tia?...

Suzana Corina é órfã e está marcada para vítima da ambição do ouro: sua vida se resume em duas palavras: — sofrer por ter.

Firmino Tia Suzana!

Suzana É a verdade que devo fazer-lhes ouvir. Corina é rica, e só porque é rica o tutor a quer para seu filho, a esposa do tutor a exige para o seu e discordes nesse antagonismo de ambições, conspiram de acordo contra a liberdade da órfã, premeditando o seu sacrifício...

Firmino Senhora!...

Teodora (a Firmino) Deixe-a falar; é inofensiva.

Suzana A órfã vive enclausurada: Júlia vai ao teatro, aos bailes, aos passeios, e Corina fica sempre com a velha Suzana. Júlia canta, dança e toca na sociedade para atrair admiradores, e Corina não tem direito de ostentar as mesmas prendas que, aliás, possui; Júlia se mostra em toda a parte para ser desejada e amada, e Corina só por acaso chega à janela, mas sempre ao lado do seu tutor que lhe encadeia os olhos: vem-lhe do mal o bem, porque a órfã vive ao menos na ignorância das perversões do mundo, e em vez de ser mártir, se conserva anjo.

Firmino Conservava pois o meu zelo e os meus escrúpulos de tutor?...

Suzana Desconfio de quem é mais escrupuloso como tutor, do que como pai. Bastava a Corina metade dos inocentes gozos de Júlia.

Firmino É portanto uma acusação?...

Suzana Não acuso, apenas por amor de nós mesmos mostro o vosso pecado, e peço o arrependimento do tutor ambicioso. Corina é sonegada ao mundo para que não seja senão Peregrino e Carlos: o tutor e mulher do tutor enclausuram a órfã para obrigá-la a aceitar, a receber um de seus cativeiros como simulacro de liberdade. Meus filhos, eu juro pelos Santos Evangelhos, que vós ofendeis assim a lei da terra, e a santa religião daquele que morreu na cruz do Calvário...

Teodora Minha tia, que idéias são essas?...

Suzana Se estou em erro, peço humildemente perdão, mas eu tenho ouvido mais de uma vez a disputa do marido e da mulher, não sobre o merecimento, porém sobre o dote da órfã desejada para enriquecer os filhos... vejo na clausura da órfã a premeditação do sacrifício.... depois da clausura pressinto a violência.... tudo quanto a ambição inspira... talvez o crime.

Firmino Senhora!...

Suzana A violência.... o crime.... meus filhos: eu não hei de ver a violência e o crime sem protestar contra eles. Era isto o que eu tinha a dizer... custou-me muito: perdoem-me, porque vos amo; mas arrependam-se, porque estão em pecado mortal.

Firmino Vá rezar o seu rosário, tia Suzana; vá...

Suzana Vou: o meu rosário é a minha fortaleza, e com a inspiração do meu rosário hei de cumprir sempre o meu dever diante de Deus. Fiquem, se podem, na paz do Senhor. (vai-se)

Cena 3ª

Firmino e Tereza

Firmino

Quem esperaria por semelhante sermão de quaresma?... Tu és a culpada, Teodora, pois que nos comprometes ambos com imprudentes e importunas contestações.

Teodora Acabemos de uma vez com elas: enquanto minha tia ralhava, eu refletia pois que nenhum de nós cede ao outro, deixemos a Carlos e a Peregrino o empenho de conquistar o coração de Corina e a esta o direito de escolher entre os dois.

Firmino Acho muito razoável esse alvitre.

Teodora Ambos nos conservaremos absolutamente alheios à luta rival: nem tu apoiarás as pretensões de teu filho, nem eu as do meu.

Firmino Convenho; já deveríamos ter assim resolvido a questão.

Teodora Em oito dias obrigaremos Corina a decidir-se por Carlos ou por Peregrino.

Firmino Perfeitamente.

(continua...)

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