Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Era essa casa assobradada e sobremontada por um sótão, ou, se quiserem, por um meio sobrado com três janelas de peitoril, tendo o andar inferior cinco, todas porém igualmente de peitoril: do lado esquerdo dava entrada para ela um humilde alpendre, que levava, os que por ele praticavam, a uma escadinha de quatro degraus, pelos quais se subia ao primeiro andar: pela parte direita, e na extensão de três braças, erguia-se um muro, que ocultava aos olhos dos curiosos pequeno e gracioso jardim, e breve se terminava confinando com uma velha casinha. Nada portanto mais simples, nada menos romanesco do que o aspecto dessa casa; mas porque sua frontaria fosse toda pintada de uma bela cor-de-rosa, excetuando-se a cimalha e os caixilhos das vidraças, que eram brancos, os habitantes e freqüentadores do bairro da Lapa do Desterro deram-lhe o nome e teimavam em chamá-la com o título muitíssimo poético de “Céu cor-de-rosa.”
Seria, porém, a cor da frontaria da casa, de que tratamos, a verdadeira causa de sua denominação quase sacrílega?... certo que não. O instinto do coração de um homem adivinha, para logo, que aí deve habitar uma mulher, provavelmente muito bela; porque esse nome de “Céu cor-de-rosa” tem em si alguma coisa de poético; e neste mundo tão por demais enganador e falso, e nesta vida tão por demais estéril e trabalhosa, o homem só encontra poesia e encanto onde respira a mulher. Por conseqüência, a cor da frontaria era o meio; a existência de uma mulher nessa casa, era a causa única de seu belo nome.
Com efeito uma moça, que a ser julgada pelo que dela apregoava a fama, era tão linda como nova, tão rica de encantos como pobre de anos, embelecia, tornava cheia de interesse a modesta habitação: centro para onde convergiam mil simpatias, tinha ela seu nome abençoado, sua vida mergulhada em uma atmosfera toda poética, seus hábitos e costumes, suas ações, sua casa, e quanto com ela estava em relação gozando honras romanescas, graças à imaginação fervorosa de um público idólatra.
Assim, já vimos com que nome tão altivo era conhecida a morada da feliz moça, e fez o povo mais ainda: para com uma antítese tornar dobradamente notável a conta em que tinha o “Céu cor-de-rosa”, aproveitou-se da existência da pobre casa, que junto do muro do jardim da primeira se via; e em castigo de sua miséria, pois que muito baixa, só havia nela de mais um sótão, que nem mesmo lançava janelas para a rua, e toda se mostrava já meio arruinada pela força dos anos, e bastante intrigueirada pelas desfeitas do tempo, deu-lhe o epíteto afrontoso de – “Purgatóriotrigueiro”.
Tendo por essa maneira feito notar a casa da moça querida com um nome sagrado, e a que lhe ficava contígua com uma alcunha de maldição, os entusiastas foram por diante com a sua antítese. Entenderam que o nome batismal da moça, não exprimindo nenhum dos sentimentos que por ela nutriam, não lhes podia servir para fazê-la designar; e então acertaram de chamá-la – “Bela Órfã”; – porque assim a tornavam por dois modos interessante: interessante aos olhos pela beleza e ao coração pelo estado; e enfim, chegou a vez da antítese cruel, e a uma pobre mulher setuagenária, que morava no “Purgatório-trigueiro”, foi lançado o insultuoso apelido de – “Velha bruxa”.
Depois, como para dar os últimos toques à apoteose da feliz senhora, eles estudaram os hábitos, observaram as ações e os passos da “Bela Órfã”, e interpretações e explicações tão poéticas como esse nome vieram completar o romance que a imaginação popular criava. Por exemplo: a moça tinha desde os mais tenros anos contraído o hábito de despertar com a aurora para passar a primeira hora da manhã no pequeno jardim do “Céu cor-de-rosa”; a explicação não tardou. “Há, diziam-se sorrindo uns aos outros os entusiastas, há uma paixão, e a mais decidida correspondência amorosa entre a “Bela Órfã”, e o sol; de ajuste despertam ambos à mesma hora para, livres de testemunhas, se irem namorar de manhã cedo, ele do alto dos céus, e ela do meio das flores”.
Pensamos haver dito bastante para que se compreenda, com que excesso era amada essa moça: e como não pretendemos fazer coro com a multidão, que a incensava com lisonjas tão exageradas, e pouca importância damos a esses exaltamentos populares, que, tantas vezes, basta um leve sopro para de todo apagar, ou mesmo dar-lhe direção absolutamente oposta: vamos dizer o que era ela em realidade, e do que com justiça se lhe devia; e se, no correr desta história, usarmos repetidamente de alguns desses epítetos mencionados, será porque o povo à força de repetir os nomes de sua escolha acabou por generalizá-los, de tal modo, que só por eles eram bem conhecidos os objetos que nomeavam.
Deus legou aos homens pensamentos grandes, importantes e sagrados, em sua passagem, de padecimentos para ele e de salvação para nós; em sua passagem por este mundo, dizemos, cada passo que deu, cada ação que fez, cada palavra que pronunciou, foi uma lição de virtude angélica, uma amostra do caminho do céu, um pensamento de santidade; e o cumprimento de cada um desses pensamentos é o emblema, o mote de cada classe da sociedade; entre eles, se fosse possível dar-se mais beleza a uma do que a outras idéias do Espírito Divino, seria um dos mais sublimes e difíceis – a caridade. – E os missionários dessa virtude angélica, são especialmente os médicos. A medicina é o sacerdócio da caridade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.