Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
BENJAMIM – Meu pai é pobre, e o capitão-mor tentou debalde seduzir minha irmã... uma noite, por sinal que eu saía do convento, o capitão-mor vem a mim, e me oferece três moedas de ouro para que eu lhe entregasse minha irmã...
PERES—E que fez?...
BENJAMIM – Confessar, confesso: eu dei uma bofetada no capitão-mor.
PERES – Depois?
BENJAMIM – No outro dia ordem de me prenderem para soldado e eu duas semanas no mato como negro fugido! depois minha mãe foi lá vestir-me assim, meu pai deu-me a carta para vossa mercê, meteram-me num barco e eis o aspirante a frade metido em saias de mulher.
PERES – Quero abraçá-lo pela bofetada que deu. (Abraça-o.)
CENA III
Peres, Benjamim, Joana, Inês, Brites e Mendes.
JOANA (À parte) – E esta?... o meu homem manda-nos acompanhar os convidados, deixa-se ficar aqui, e venho encontrá-lo abraçando a Antonica da Silva!...
PERES (A Mendes) – Espera, compadre (A Benjamim) Escute. (A um lado) Minha mulher e minhas filhas devem absolutamente ignorar o seu verdadeiro sexo. Não posso responder por línguas de mulheres: o vice-rei é cruel e nós ambos estamos expostos a grandes castigos.
BENJAMIM (A Peres) – Juro pelos frades franciscanos que nenhuma das três senhoras terá conhecimento do meu disfarce sexual.
JOANA (À parte) – Agora segredinhos... mesmo na minha cara!...
PERES – Joana, o lugar está bonito: vai com as meninas e com a senhora Antonica dar duas voltas pelo jardim: tenho um particular com o compadre... (Fala a este).
BENJAMIM (À parte) – Que encanto e que precipício! caso de heroicidade original em que um homem deve mostrar que não é homem! com a velha não há perigo; mas as meninas!... é mais fácil estar escondido no mato!
PERES – Vai, Joana!
JOANA (À parte) – Ele a quer bem fresquinha com o sereno da noite... e eu criada da Dulcinéia!...(Alto.) Vamos, meninas.
CENA IV
Peres e Mendes.
PERES – Pedi que ficasses para te consultar. Compadre, começa a preocupar-me a inconveniência de guardar em minha casa este rapaz vestido de mulher.
MENDES— Quê!... o vice-rei já te faz medo?...
PERES – Tenho duas filhas moças e solteiras: entendes agora?...
MENDES – Mãos à palmatória!... tens razão: mas sem ofensa da amizade não podes livrar-te do hóspede...
PERES – Posso: ele tem asilo seguro no convento dos franciscanos... não te lembra a carta do guardião ao provincial?...
MENDES – E verdade; ótimo recurso: amanhã já...
PERES – E que pensará Jerônimo? pobre, mas meu amigo de quase meio século!
ele podia ter mandado o filho diretamente para o convento da cidade; teve, porém, confiança em mim!...
MENDES – Não conheço o grau da amizade que tens com esse Jerônimo: o caso é melindroso: dá cá tabaco. (Tomam)
PERES – Olha: eu deixo a Antonica em casa oito dias...
MENDES – Oito dias a mecha ao pé do paiol da pólvora!...
PERES – É isso! toma tabaco (Tomam) reduzo os oito dias a cinco.
MENDES – Em cinco noites uma gambá acaba com um galinheiro.
PERES – Pois bem: ao menos três dias...
MENDES – Dá-me mais tabaco...
PERES – Não dou: Jerônimo merece algum sacrifício, O pior é que não me animo a confiar o segredo...
MENDES – À comadre?.,, é santa criatura; mas logo contaria tudo às filhas... e estas.
PERES – Tal e ....... e então a sua afilhada? apesar da educação severa que lhe dou, é cabeça de fogo, toda exaltada... por tua culpa! ensinaste-lhe ler contra a minha vontade... trazes-lhe novelas...
MENDES – E hei de trazer-lhas,,, não te dou satisfações. (À janela) Venha, comadre! o sereno pode fazer-lhe mal.
CENA V
Peres, Mendes, Joana, Inês, Brites e Benjamim.
PERES – Joana, o compadre não volta a estas horas do Saco do Alferes para a cidade; dormiremos no meu quarto cá do andar de baixo... temos aí duas camas: não te ocupes com ele. É verdade!... a senhora Antonica talvez tenha fome: jantou?
BENJAMIM – Não, senhor; mas gosto de jejuar (À parte) Rebentando de fome!... seria capaz de comer o próprio capitão-mor, se mo dessem reduzido a bifes!...
PERES – Brites, manda pôr à mesa alguns assados, doces e vinho... (Brites sai).
JOANA (À parte) – Que cuidados!... como está cheio de ternuras o diabo do velho!... E mesmo na minha cara.3
PERES (A Joana) – Manda preparar nesta mesma sala um leito para a senhora Antonica... amanhã lhe daremos melhor cômodo... (Fala a Mendes).
JOANA (À parte.) – É demais!... quer que eu lhe faça a cama e aqui!... perto do quarto, onde vai dormir!...
PERES – Escuta, mulher! (A Joana) deixa em completa liberdade esta menina... em toda liberdade aqui!...
JOANA (À parte.) —Claríssimo!... em completa liberdade!... e ele cá embaixo! mas eu não passo a noite lá em cima.
BENJAMIM (À parte) – A velha está me olhando raivosa! seria engraçado se tem ciúmes de mim com o marido!... não pode ser outra coisa; mas eu protesto!...
JOANA – Sr. Peres, e ouça também, compadre! a menina, coitada, pode ter medo de dormir aqui sozinha; acho melhor levá-la para o sobrado; dormiria perto de nós...
MENDES (A Peres) – Dá cá tabaco, compadre!... (Toma ele só).
PERES – Não: ela prefere dormir aqui... em liberdade... ela
já mo disse.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.