Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Afonsina – É a coragem, meu tio.
Prudêncio – Ora, fico-lhe muito obrigado! Sou um grandíssimo poltrão, porque não entro em revoluções nem em bernardas, e guardo a minha espada de tenente de ordenanças para as grandes crises e os momentos supremos?
Afonsina – Então é bem para recear que a sua espada fique eternamente na bainha.
Prudêncio – Pode fazer o favor de dizer por quê?
Afonsina – É bem simples: é porque vossa mercê nem considera momento supremo aquele em que se trata da regeneração e da independência da pátria. Prudêncio – E eu creio que era mais próprio da senhora ocupar-se com bilros e agulhas, do que com independências e regenerações políticas: uma mulher metida em negócios do Estado, é capaz de transformar a nação em casa de Orates.
Afonsina – Porém, meu tio, olhe que nem por isso o momento deixa de ser supremo, e é preciso que nos dê provas do seu valor.
Prudêncio – Provavelmente quer que eu deite a correr pelas ruas, dando vivas ao que não entendo e morras a quem nunca me fez mal, e que me exponha a ter a sorte do Tiradentes, como está fazendo o seu querido Luciano, que é um doido de pedras.
Leonídia – Mano Prudêncio, atenda ao que diz!
Plácido – Luciano cumpre o seu dever: a causa que adotou é a de sua pátria, e se morrer por ela será um mártir, um herói; nunca, porém, um louco. Prudêncio – Pode-se bem servir à pátria sem fazer traquinadas.
Afonsina – É verdade; meu tio tem razão: Luciano é um louco, e ele um homem de muito juízo, de uma bravura e de um patriotismo como nunca vi!
Prudêncio – A senhora parece que quer divertir-se comigo?
Afonsina – Eu quero somente recordar agora alguns fatos. A nove de janeiro deste ano, o senado da câmara foi, em nome do povo, representar ao príncipe contra a sua retirada do Brasil; não houve um só patriota que não corresse ao largo do Paço; meu tio, o momento era supremo e quando se ouviu repetir o glorioso – Fico – do Príncipe, o primeiro que o saudou com um viva entusiástico foi Luciano, e entre aqueles que responderam a esse brado patriótico, ouvi dizer que não se achava meu tio.
Prudêncio – Estava retido em casa com um ataque de maleitas.
Plácido (A Leonídia) – Afonsina esqueceu-se da sala e da caixa.
Leonídia (A Plácido) – Pois se foram ofender o seu Luciano!
Afonsina – Dois dias depois, a onze de janeiro, Avilez e as tropas lusitanas ocuparam o morro do Castelo; a luta parecia dever começar; os brasileiros correram para o campo de Santana e Luciano foi o chefe de uma companhia de voluntários. Meu tio, o momento era outra vez supremo, e ouvi dizer que vossa mercê não apareceu durante três dias.
Prudêncio – Estava de erisipela, senão veriam!
Plácido (A Leonídia) – Olha a cara com que está o mano Prudêncio.
Leonídia (A Plácido) – Bem feito: é para não ser bazófio.
Afonsina – Mas Avilez retirou-se com os seus para a Praia Grande; o perigo não tinha ainda passado, e no campo do Barreto reuniram-se as milícias brasileiras e as falanges dos patriotas: Luciano, à frente dos seus bravos companheiros, lá se achou pronto para o combate e fiel à causa da pátria. Ah! Meu tio, o momento era de novo ou continuava a ser supremo, e eu ouvi dizer que não houve quem pudesse descobrir onde vossa mercê se escondia.
Prudêncio – Achava-me atacado de reumatismo nas pernas.
Afonsina – Ah! É que vossa mercê é um compêndio de todas as moléstias, e eu tenho reparado que sempre adoece a propósito!
Prudêncio – Eu sou o que diz o meu nome: Prudêncio! O homem da prudência; não hei de nunca desonrar a minha espada de tenente de ordenanças em bernardas de pouco mais ou menos; chegue, porém, o dia de uma grande e verdadeira batalha, em que haja cargas de cavalaria, descargas de infantaria, trovoada de artilharia, e verão como brilho no meu elemento!
Afonsina – Com vossa mercê na batalha há de haver por força uma carnagem horrorosa!
Plácido, Leonídia e Afonsina, juntamente.
Se os tambores rufassem deveras,
À peleja os guerreiros chamando,
O tenente Prudêncio, chorando, Fugiria medroso e poltrão.
Prudêncio – Não!não! não!
Se os tambores rufassem deveras,
À peleja os guerreiros chamando, Meu ginete veloz cavalgando,
Eu voara com a espada na mão.
Façam de conta
Que negra afronta Sem mais tardar Corro a vingar.
A uns degolo,
Outros esfolo,
Outros imolo, Sem trepidar.
Zás! Cutilada!
Zás! Estocada! Zás! Pistolada!
Sem descansar:
E derribando,
E cutilando,
E decepando
Sem respirar,
Só me detenho
No fero empenho,
Quando não tenho Mais quem matar.
(Ouve-se o rufar de tambores)
(Assusta-se) Misericórdia! Que é isto?
Plácido, Leonídia e Afonsina – Avante! Avante! Prossiga! Chama o tambor os guerreiros!
Prudêncio – Estou com dor de barriga.
Leonídia – Que tremor é esse, mano Prudêncio? dir-se-ia que tem medo!
Prudêncio – Não é medo, não; mas vocês sabem que eu sou muito nervoso, e assim...um rufar de repente...
Afonsina (Que tem ido à janela) – Sossegue, meu tio: é apenas a guarda do paço que se vai render.
Prudêncio – E quem foi que se assustou aqui?
O rufo dos tambores
Exalta
o meu valor
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Amor e Pátria. [S.l.]: [s.n.], s.d.. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16668 . Acesso em: 29 dez. 2025.