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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

“E para que conste a todo o tempo se lavrou o presente auto, que é assinado por S. M. o Imperador e por todas as pessoas acima designadas – D. Pedro II, Imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil, Augusto Duque-Estrada Meyer, Dr. Antônio Dias Coelho Neto dos Reis, Frei Caetano de Messina, Visconde de Sapucaí, Dr. Joaquim Manuel de Macedo, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, Dr. José Ribeiro de Sousa Fontes, Carlos Honório de Figueiredo, Antônio Alves Pereira Coruja, Antônio Manuel de Melo, Manuel Ferreira Lagos, Felizardo Pinheiro de Campos, A. D. de Pascoal.”

No fim desta transcrição veio-me à lembrança que um homem sério, um desses altivos e carrancudos senhores que torcem o nariz a tudo quanto lhe cheira a poesia, achou poesia, id est, extravagância e falta de juízo na exumação dos restos de Estácio de Sá, e nas subseqüentes honras que foram prestadas à memória do assinalado varão, e olhando-me um pouco de revés, teve a complacência de dirigir-me a palavra perguntando:

– Para que serve isso?

Isso é um adjetivo que, pronunciado com certa contração dos lábios, exprime o profundo desprezo que sente quem o pronuncia.

Confesso a minha vergonha. Não pude responder ao homem sério, porque receei perder o restinho de confiança que lhe merecia. Mas, pensando comigo mesmo nos tributos de gratidão que se devem pagar aos varões prestantes que floresceram no passado; pensando que as honras prestadas aos beneméritos que já não vivem são incentivos que excitam à prática de virtudes; pensando que a história do passado é um tesouro que só os brutos desprezam, pus-me a avivar na memória os feitos de Estácio de Sá. E, idéia desperta idéia, lembrança chama lembrança, recordei-me de um fato do tempo desse distinto capitão, fato que bem pudera ser aproveitado para a instituição de uma festa muito popular e muito útil, e que, sem a menor dúvida, teria o seu encanto pelas recordações que despertaria.

As regatas de Veneza, sem dúvida muito famosas pelo número, riqueza e velocidade das gôndolas que tomavam nelas parte, e pela pompa com que se celebrava essa festa nacional, não eram menos pela sua origem romanesca. Ninguém ignora que os venezianos comemoravam com as regatas a libertação das noivas venezianas que atrevidos piratas haviam raptado.

Pois bem. Nós temos igualmente uma origem histórica e romanesca para a instituição de regatas no Rio de Janeiro, e nesse ponto não nos levará vantagem a antiga rainha do Adriático. Mais ainda. Nos tempos primitivos da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, celebrava-se anual e regularmente uma solenidade que então tinha o nome de Festa das Canoas.

Para que algum incrédulo não pense e diga que estou improvisando, declaro alto e bom som que tenho por mim os valiosos testemunhos de dois veneráveis escritores, um que é o bom Santa Maria no seu Ano Histórico, tomo II, § 3º, pág. 397, e outro que é o maçantíssimo Simão de Vasconcelos na sua Crônica da Companhia de Jesus, livro III, § 96, págs. 352 e seguintes.

Em resumo, a história foi esta. Em dias de julho de 1566, quando Estácio de Sá tinha já lançado os fundamentos da cidade de S. Sebastião, perto do Pão de Açúcar, e se mantinha ali diante dos franceses e dos tamoios seus aliados, vieram alguns desses selvagens em vinte canoas simular um ataque, e realmente provocar os portugueses, que, deixando-se iludir saíram em quatro canoas a combatê-los. Fingiram-se os tamoios amedrontados e foram-se retirando. Com o que, ainda mais animados os portugueses, lançaram-se em seguida em perseguição do inimigo. Mas, de súbito, ao dobrar um cabo, viram-se no meio de duzentas canoas que cercaram as suas quatro. O combate era desigual e o êxito não podia ser duvidoso, tanto mais que alguns franceses animavam e dirigiam os índios. Sucedendo, porém, atear-se o fogo na pólvora de uma das canoas, e logo a mulher do principal ou Guaixará, que assim se chamava, ao ver o incêndio, começou, tomada de pavor, a bradar que era ardil dos portugueses para queimar a todos os tamoios, e logo deita a fugir, assim como o Guaixará e todos os seus companheiros de combate. Os portugueses atribuíram a milagre de S. Sebastião o terem escapado a tão grande perigo. O padre Simão de Vasconcelos diz que foi visto um soldado, muito gentil homem, aparecer de canoa em canoa, combatendo contra os selvagens, e referindo-se ao padre José de Anchieta, pretende que esse soldado fosse S. Sebastião. Certo é que voltaram à cidade nascente aqueles bravos de Estácio de Sá e os seus valorosos aliados, os índios do intrépido Ararigbóia; e em ação de graças por vitória tão assinalada. começaram a celebrar no dia 20 de janeiro, dedicado àquele santo mártir, a solenidade que por muito tempo ficou conhecida por Festa das Canoas.

Creio que os meus companheiros de passeio devem-me estar muito agradecidos pelo resumo que fiz de não sei quantas colunas no livro aterrador do padre Simão de Vasconcelos. Mas, em vez dos louvores que mereço por serviço tão relevante, eu peço em prêmio – a instituição de regatas – no Rio de Janeiro.

(continua...)

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