Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
“A pesada lápide da antiga campa rolou então sobre o pavimento e ajustou-se sobre o carneiro. Eram 2¼ horas da tarde.
“S. M. o Imperador deu a cerimônia por concluída e retirou-se, descendo a ladeira da Ajuda, acompanhado de quase todas as pessoas que assistiram a este ato de tão grande acatamento e respeito pago ao fundador da capital do império.
“Aqui transcrevemos o auto da exumação dos ossos de que acima falamos.
“Aos 16 dias do mês de novembro do ano de 1862, nesta cidade do Rio de Janeiro, e na igreja de S. Sebastião do morro do Castelo, antiga Sé da cidade velha, achando-se presentes S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro II, acompanhado de seus semanários gentil-homem da imperial câmara, Augusto Duque-Estrada Meyer e guarda-roupa Dr. Antônio Dias Coelho Neto dos Reis, o prefeito dos missionários capuchinhos que ao presente ocupam a mesma igreja, frei Caetano de Messina, e mais missionários e os membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, visconde de Sapucaí, presidente Dr. Joaquim Manuel de Macedo, 2º vice-presidente, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, 3º dito, Dr. José Ribeiro de Sousa Fontes, 2º secretário, bacharel Carlos Honório de Figueiredo, secretário adjunto, Antônio Álvares Pereira Coruja, tesoureiro, e os sócios conselheiros Antônio Manuel de Melo, comendador Manuel Ferreira Lagos, bacharel Felizardo Pinheiro de Campos e A. D. de Pascoal, e grande número de pessoas gradas, se dirigiram ao meio-dia ao presbitério da capela-mor da mesma igreja, onde junto aos degraus do altar se achavam sepultados os ossos de Estácio de Sá, primeiro governador e povoador do Rio de Janeiro, para proceder à sua exumação, visto ter entrado a igreja em conserto e ser necessário elevar o pavimento da mesma, a fim de que a todo o tempo conste o respeito e veneração que mereceu a conservação dos restos do fundador da capital do império, que na sua conquista adquiriu a glória do martírio pela coragem e afouteza com que barateou a vida nas batalhas de Uruçumirim e Paranapuca, que foram ganhas aos tamoios e aos franceses seus aliados.
“E, sendo ordenada a exumação por S. M. o Imperador, procedeu-se à remoção de uma lápide de granito do país, lavrada, mas não polida, de nove palmos de comprido, quatro de largo e um de espessura, que se achava rente com o solo e tinha gravado na face exterior o seguinte epitáfio, em letras capitais de caráter latino, sendo o algarismo em caracteres arábicos:
Aqui jaz Estácio de Sá, primeiro capitão e conquistador desta terra e cidade, e a campa mandou fazer Salvador Correia de Sá, seu primo, segundo capitão e governador, com as suas armas. E esta capela acabou no ano de 1583.
“Por baixo desta inscrição viam-se as armas de sua casa.
“E removida a lápide, com facilidade conheceu-se então que não havia depósito algum, como era de presumir, por isso que, sendo o corpo de Estácio de Sá sepultado em Vila Velha, povoação e fortaleza por ele fundadas nas imediações do Pão de Açúcar, só dezesseis anos depois é que seus ossos foram removidos para a nova povoação do morro do Castelo, traçada por Salvador Correia de Sá, que a firmou com o marco da conquista, que ainda existe à porta principal do templo, e que daí a um século se ficou chamando Cidade Velha, para distinção da novíssima povoação que se estendeu pelos vales de S. Bento, da Misericórdia e Ajuda, e ainda da primitiva, conhecida por Vila Velha. Assim pois, era uma sepultura rasa sobre o solo artificial da igreja, o qual foi cavado cuidadosamente na extensão de dez palmos sobre cinco de largo e cinco de profundidade.
“E, começadas as escavações, apareceram nas primeiras camadas de argila alguns ossos de criança, e depois ossos de adulto, e finalmente, onde terminava o aterro e começava o solo primitivo da montanha, encontraram-se ossos que por sua antiguidade mereceram ser recolhidos separadamente dos outros. E, tendo-se concluído a exumação, e levados os restos mortais para a capela provisória de S. Sebastião, estabelecida na sacristia da mesma igreja, entoou frei Caetano de Messina com os demais sacerdotes de sua missão um memento, a que assistiram S. M. o Imperador, as pessoas aqui declaradas e grande número de indivíduos de todas as classes; e finda a cerimônia religiosa recomendou S. M. Imperial que se lavrasse o presente auto, sendo os ossos previamente sujeitos a exame científico, de que foram encarregados pelo mesmo augusto senhor os Srs. José Ribeiro de Sousa Fontes e Francisco Ferreira de Abreu, para serem quanto antes encerrados convenientemente em urna duradoura e depositados no mesmo lugar, sob a lápide que os cobre há 279 anos.
“E, feito o exame ordenado por S. M. o Imperador, apresentaram os mencionados doutores as 12 seguintes conclusões:
“1ª Que foram evidentemente reconhecidos e com precisão
determinados durante a exumação (pelo 1º perito) e pelos exames ulteriores
feitos em comum, apreciada a disposição e natureza do solo, os limites da
sepultura indicada como devendo conter os ossos de Estácio de Sá.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.