Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

As duas cerimônias de que acabo de falar acham-se perfeitamente descritas em um artigo da redação do Jornal do Comércio, a 22 de janeiro de 1863, porque, além da descrição da solenidade do dia 20 do mesmo mês e ano, vem nesse artigo transcrito o ato da exumação a que se procedera no dia 16 de novembro de 1862. Sendo assim e achando eu trabalho feito, aproveito-me do labor alheio, e sem mais cerimônia, copio ipsis verbis tudo quanto a respeito escreveu o Jornal do Comércio.

Aí vai a história.

“Estácio de Sá – Publicamos em seguida a notícia circunstanciada do que se passou no dia 20 do corrente, por ocasião da nova exumação dos restos mortais deste homem ilustre.

“Efetuou-se com toda a solenidade a inumação dos restos de Estácio de Sá, primeiro governador e fundador desta cidade que há 296 anos desbaratara os tamoios, que se haviam aliado aos franceses e se achavam entrincheirados nas aldeias de Urucumirim e Paranapuca.

“Comprou Estácio de Sá a vitória à custa de sua própria vida, e, mártir, regou com sangue os alicerces da cidade que fundava, e que, mal sabia ele, tinha de ser a capital de um grande império.

“O Instituto Histórico Brasileiro associou-se a este ato de homenagem de S. M. o Imperador, que, para lhe dar maior realce, ordenou que a festa de S. Sebastião, o santo mártir padroeiro da nossa cidade, que até aqui se celebrava na capela imperial, se fizesse este ano na primitiva Sé do Rio de Janeiro, na igreja do Castelo.

“Às 11 3/4 horas chegou S. M. o Imperador, acompanhado de seus semanários.

“Os Srs. Ministros dos Negócios Estrangeiros e das Obras Públicas, o presidente da Câmara Municipal, o cabido e mais empregados da Sé catedral da imperial capela, o prefeito dos capuchinhos e seus missionários e os membros do Instituto Histórico saíram ao encontro de Sua Majestade, que foi recebido ao som do hino nacional, tocado pela banda de música da guarda de honra postada ao lado da igreja.

“O templo, erguido do meio de suas ruínas, não está ainda completo. Viam-se ainda algumas construções incompletas através de suas singelas galas. No teto abobadado do presbitério e por cima da campa do grande capitão sobressai um painel análogo à reconstrução da igreja. É um monge amparando um templo que se desmorona. Do céu como do seio de uma aurora boreal, saem estas palavras:

Vai, Francisco, Repara a minha casa,

Que está caindo em ruínas.

“A igreja continha um numeroso concurso de pessoas de todas as classes e sexos. Começou para logo a cerimônia religiosa, e a música suave e melancólica, com toda a pompa da natureza brasileira, e digna por certo de José Maurício Nunes Garcia, ecoou nas restauradas naves do templo. Fez o panegírico de S. Sebastião, e recordou as tradições históricas de Estácio de Sá, o rev. cônego José Luís Gomes de Meneses. Finda a festividade, seguiu-se a cerimônia fúnebre. Ergueu-se no corpo da igreja uma eça, onde foi depositada, sobre uma padiola, a urna que contém os restos do grande capitão. É um cofre fabricado de pau-brasil, fechado a tornos, encerrando outro de chumbo com 16 polegadas de comprido, 10 de largo e 10 de altura, no qual foram postas as cinzas em 30 de novembro do ano passado, e depois soldado. Desse ato se lavraram dois termos de um só teor, assinados pelo presidente do Instituto, o Sr. visconde de Sapucaí e seus secretários, os Srs. Drs. José Ribeiro de Sousa Fontes e Carlos Honório de Figueiredo, e o rev. prefeito frei Caetano de Messina.

“Entoou-se, ao som melancólico e religioso do órgão, um memento.

“Então. S M. o Imperador, deixando o dossel, veio em pessoa prestar augusta homenagem a tão venerandos restos.

“Pegaram nas argolas da padiola S. M. o Imperador e o Sr.

conselheiro Sinimbu à direita os Srs. marquês de Abrantes e visconde de Sapucaí à esquerda, e conduziram a urna para junto da campa. A fim de receber a urna, entrou o Sr. dr. Sousa Fontes no carneiro, construído de pedra de alvenaria e dividido em duas partes. Na parte de cima estava um caixão de cedro contendo os ossos duvidosos encontrados na campa. Na parte de baixo havia um vão, forrado de cantaria lavrada, destinado à urna de pau-brasil.

“S. M. o Imperador ordenou que se lesse o auto da exumação de cuja redação fora incumbido o Sr. J. Norberto de Sousa e Silva. O Sr. cônego Dr. J. C. Fernandes Pinheiro procedeu à sua leitura, que foi ouvida com religiosa atenção, como 1º secretário do Instituto.

“Depositou-se depois o auto no vão formado pelas pedras de cantaria. O Sr. A. A. Pereira Coruja apresentou as gazetas publicadas no dia e as seguintes moedas, que foram colocadas no mesmo lugar: 1 de 20$ e 1 de l0$ do ano de 1861, e 1 de 5$, de 1855, todas de ouro; 1 de 2$, de 1857, 1 de 1$, 1 de 500 rs. e 1 de 200 rs., de 1862, todas de prata. Frei Caetano de Messina ofereceu uma medalha de ouro sobre o dogma da imaculada Conceição da Santa Viagem com a efígie de Pio IX e outra de prata com as imagens de N. S. da Conceição e S. Francisco de Assis, as quais tiveram o mesmo destino e foram postas sobre o auto.

“Metida a urna no vão de cantaria, foi este hermeticamente fechado com uma lápide de mármore, tomada com cimento, contendo em letras indeléveis e douradas a seguinte inscrição:

Restos mortais de Estácio de Sá, exumados desta sepultura

em 16 de novembro de 1862, a ela restituídos em 20 de janeiro de 1863.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...193194195196197...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →