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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Antes de considerar o assunto principal deste passeio, que é aquele com que o rematarei, quero deixar ainda alguns apontamentos relativos aos barbadinhos italianos.

O padre-mestre frei Fidélis mandou vir da Itália para a igreja de S. Sebastião duas imagens de santas, a de Santa Verônica Juliani capuchinha, e Santa Filomena, virgem e mártir. E vendo que muitos fiéis tomavam por elas grande devoção, lembrou-se de instituir duas irmandades que se ocupassem do culto destas santas. Bem depressa, porém, as irmandades e os religiosos barbadinhos acharam-se em desacordo, e de modo tão positivo e desagradável que o prefeito e comissário geral, frei Fabiano de Scandiano, pôs termo às desavenças, despedindo e mandando com Deus aquelas corporações.

Tenho por vezes repetido o título de comissário geral que teve o padre-mestre frei Fabiano, e tem o atual prefeito o padre-mestre frei Caetano de Messina. Parece-me, pois, conveniente explicar a origem dele e as obrigações que lhe pertencem.

O título de comissário geral é um caráter de superioridade que a sacra congregação e os superiores dos barbadinhos em Roma deram ao prefeito destes religiosos no Rio de Janeiro, a fim de que todos os prefeitos e vice-prefeitos do império do Brasil dependessem dele e a ele recorressem nas dificuldades e dúvidas em que porventura se achassem em suas administrações, e para que também essa autoridade tratasse os negócios das missões com o governo imperial e desse de tudo parte aos chefes em Roma. A princípio, os prefeitos recorriam a Roma ou ao núncio apostólico. Mas pareceu melhor ao governo imperial tratar com um comissário geral, e exigiu que uma tal autoridade fosse criada no Brasil, para que por meio dela negociasse as coisas da missão com os superiores dos barbadinhos na capital do mundo católico.

Os novos religiosos barbadinhos que entraram no Brasil e que administraram a igreja de S. Sebastião acham-se entre nós há vinte e um anos. Tem-se dito e escrito longamente a favor e contra ele. Mas eu já protestei que não entraria em questões desta ordem, e limito-me a declarar que estimaria vê-los sempre muito ocupados com a catequese do nosso gentio e um pouco menos com a direção das almas dos habitantes das nossas cidades e povoações.

Entretanto, é certo que alguns desses religiosos têm prestado bons serviços, e ainda mesmo aqui, na capital, mostram-se dedicados no cumprimento de seus deveres religiosos, especialmente quando nos vimos flagelados pela febre amarela e pelo cólera-mórbus.

Devo lembrar o nome de um desses capuchinhos italianos que deixou suaves recordações e desceu à sepultura, morrendo de morte súbita e inesperada nessa mesma igreja de S. Sebastião do Castelo.

Era o religioso a que me refiro de família abastada, e no século floresceu como sacerdote e vigário colado na Itália. Desprezou, porém, todos os bens do mundo pelo amor de Deus e pelo desejo de se agregar à congregação dos barbadinhos, professando a regra respectiva com o nome de padre frei Paulino de Limone. Sendo destinado às missões e mandado para o Brasil, desembarcou na Bahia, e nessa província se ocupou da catequese dos índios em Rodelas durante cinco anos. Chamado depois pela obediência a esta corte, distinguiu-se na pregação da palavra de Deus. Era de todos estimado.

Tinha frei Paulino por costume ir todas as tardes fazer oração em um quarto que havia no ângulo do hospício do lado do mar. No dia 6 de outubro de 1854, pelas duas horas da tarde, rompeu uma furiosa tempestade. Ribombavam os trovões com violência, quando frei Paulino, chegada a hora costumada de suas orações, dirigiu-se ao quarto mencionado. Apenas, porém, acabava de entrar nele, caiu morto, fulminado por um raio.

Agora, meus companheiros de passeio, chegamos ao último ponto com que me cumpre ocupar a vossa atenção. Não vos contarei novidade alguma, porque tenho apenas de referir fatos que se passaram recentemente aos olhos de todos na cidade do Rio de Janeiro, e que devem ficar registrados neste rápido estudo que vou fazendo.

Adiantando-se as novas obras da igreja de S. Sebastião do Castelo, e chegada a ocasião de se tocar no pavimento que devia ser melhorado e alteado, recebeu disso comunicação o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que, rendendo as devidas honras ao primeiro fundador da cidade do Rio de Janeiro, resolveu ir testemunhar e ainda presidir a exumação dos restos de Estácio de Sá, que conseqüentemente foram recolhidos e depois solenemente encerrados em uma urna, em sinal do respeito e gratidão que se devem à memória do ilustre varão.

(continua...)

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