Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Diz o povo da nossa capital que o fogo é um elemento de progresso no Rio de Janeiro, porque à medida que alguns incêndios devoram casebres que afeiam a cidade, levantam-se logo depois e no mesmo lugar casas menos mesquinhas.
Para a igreja de S. Sebastião do Castelo, ou para a antiga Sé, o elemento de progresso não foi o fogo. Foi uma tempestade, que esteve a ponto de derribá-la.
Todavia, cumpre confessar que não é das coisas mais bonitas que se esteja esperando por grandes desastres para se tomar providências, aliás reclamadas por urgente necessidade.
Reparo agora que os meus companheiros de passeio estão arfando de fadiga.
Por conseqüência... adiamento no caso.
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Passeio suplementar II
NO meu último passeio descrevi a igreja de S. Sebastião como ela era em 1842 e se conservou até o fim do ano de 1861. Agora vou descrevê-la como hoje se acha, e como deve mostrar-se em breve prazo, quando se terminarem todas as suas obras.
O templo não mudou em relação à ordem arquitetônica. Sofreu, porém, modificação em algumas de suas disposições.
A igreja antiga era muito baixa e escura, e, encontrando-se nela paredes rachadas e desaprumadas, que tiveram de se levantar de novo, houve ocasião de se corrigir esses defeitos.
A paredes laterais tinham trinta palmos, e têm agora quarenta de altura. As do meio tinham quarenta, e se elevam hoje a mais de cinqüenta. As da capela-mor eram de trinta palmos e passaram a ter quarenta e oito. A da frente da igreja não excedia a quarenta e cinco e excede agora a sessenta.
O templo era, como disse, escuro. O coro recebia luz por uma janela e um óculo, e as naves dos altares laterais por cinco clarabóias colocadas no telhado, uma sobre cada arco. A maior altura que as novas obras deram às paredes permitiu que se rasgassem quatro janelas de cada lado do corpo da igreja, duas de cada lado da capela-mor, e mais duas aos lados do camarim. Ao todo, quatorze janelas, e todas de cantaria.
A torre do lado direito estava rachada desde cima até os alicerces. Foi consertada, ficando sem obelisco, para não agravar mais os alicerces; e ajuntando-se-lhe um gigante do lado do mar, para dar-lhe mais segurança, sobre o gigante construiu-se uma escada, por onde se sobe ao coro e à mesma torre. A outra, do lado esquerdo, também consertada e caiada, perdeu um galo que pousava sobre ela, e que teve de ceder o poleiro a um S. Miguel de cobre. Ignoro se o galo, por ter descido do poleiro, declarou-se em oposição a S. Miguel. É este um problema que deve ser resolvido pelos nossos políticos.
Na frente da igreja corre uma cimalha, e por cima do telhado, entre as duas torres, levantou-se uma cruz de cantaria que tem nove palmos de altura. Por baixo dessa mesma cimalha há um óculo de dezesseis palmos de circunferência, e conservou-se metade da janela do coro.
No interior da igreja levantou-se o coro à altura de trinta palmos, pôs-se-lhe uma grade de balaústres, deram-se-lhe uma forma mais graciosa e alguns ornamentos de obra de talha.
A igreja tem, como dantes, três naves. Mas os pilares, que em duas ordens se erguiam e que eram octangulares, são agora redondos, fingindo colunas de mármore.
Os altares elevaram-se ao número de nove, três de cada lado, mais dois em duas capelas aos lados do altar-mor e este. Cada um dos primeiros tem um arco singelo, as capelas os seus zimbórios.
Na altura de trinta palmos corre uma cimalha de madeira de ambos os lados da capela-mor e chega até o fundo da igreja. Por baixo da cimalha daquela, a parede é forrada até o chão com tábuas de cedro, tendo colunas que descem até o soalho e correspondem ao risco do forro. Entre estas devem mostrar-se quatro painéis cercados de obra de talha. Os painéis serão de N. S. de Belém, de S. João Batista, de S. Januário e de S. André Avelino, que conservaram a memória dos antigos que estavam nos altares.
O arco-cruzeiro recebeu ornamentos de obra de talha, e por cima dele vê-se a arca santa, na parte superior da qual se mostra N. Senhora, sendo este grupo cercado de nuvens, no meio das quais aparecem cabeças de querubins e os dois anjos da antiga igreja, ajoelhados aos lados da arca.
As portas laterais e os dois portões da principal são novos e aquelas mais altas que as antigas.
A igreja será dividida por grades com balaústres, que fecharão os altares, a capela-mor e as capelas laterais.
Oportunamente a igreja terá um pátio cercado de grades de ferro e com dois portões também de ferro.
Terminando aqui as informações que posso dar a respeito das
obras feitas e por fazer na antiga igreja de S. Sebastião é de justiça dizer
que o adiantamento que elas têm tido abonam muito o zelo e a dedicação que
nesse empenho há mostrado o reverendíssimo prefeito dos barbadinhos, o
padre-mestre frei Caetano de Messina, aliás já recomendável por outros
trabalhos da mesma natureza realizados em Pernambuco, e sobretudo, pelo
importante colégio de Papacaça, por ele fundado nessa província, e onde se
educam muitas dezenas de meninas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.