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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Antigamente, e ainda no século atual, o povo do Rio de Janeiro era muito devoto de S. Januário, a quem se festejava com pompa todos os anos, e igualmente de N. S. de Belém, que era honrada com especialidade em todo o oitavário do Natal.

O arco cruzeiro da igreja era de extrema singeleza, tendo apenas algum trabalho de talha. No altar-mor, o retábulo era em parte dourado e em parte pintado de amarelo. Pouco trabalho de talha nele havia, e apenas se notavam dois anjos de seis palmos de altura. Sobre o trono do altar-mor estava um nicho onde se via o padroeiro S. Sebastião, tendo a imagem quatro palmos de altura.

No meio do arco cruzeiro da capela-mor viam-se a coroa de Portugal e as armas e o escudo do Brasil.

No prebistério da capela-mor, ao pé dos degraus, que são três e eram de pedra do país, estava (e estará) a sepultura de Estácio de Sá, da qual já em outro passeio dei conta, e por conseqüência julgo-me dispensado de tornar a fazê-lo neste.

Fora da grade do altar-mor havia algumas pedras sepulcrais, umas tendo inscrição e outras não. Uma daquelas estava ao lado da Epístola e rezava deste modo:

Francisco d’Alvarenga deitado jaz aqui neste crucifixo e seja ressuscitado daqui donde está sepultado em o dia derradeiro.

Outra, que era de pedra de Lisboa e estava ao lado do Evan-

gelho, rezava:

A

S

De Francisco de Caldas

e de sua mulher Helena de

Sousa e seus Herdeiros.

Outra pedra sepulcral estava na capela-mor do lado do Evangelho, e tinha inscrição. Esta, porém, tão consumida pelo tempo que não foi possível entendê-la ou decifrá-la bem.

Limita-se ao que deixo escrito tudo quanto posso dizer a respeito da antiga igreja de S. Sebastião do Castelo.

Em 1842, achava-se esta igreja em verdadeiro estado de quase abandono e de evidente ruína. O capim e as ervas cresciam em torno do templo e ameaçavam conquistá-lo. O madeiramento do teto, as cimalhas, os altares da santa casa de S. Sebastião, a casa toda, enfim, achavam-se podres, e expostos a cair ao impulso das tempestades. O cruel esquecimento em que se deixava uma igreja histórica, a mais antiga do Rio de Janeiro, o teto sagrado que se dedicara ao padroeiro da cidade e que encerrava em seu seio os restos do primeiro fundador da Sebastianópolis, dava testemunho público da nossa incúria por tudo quanto não é positivo e material.

Muito longe teria eu de ir, se quisesse descrever esse estado de ruína a que chegara a igreja de S. Sebastião do Castelo. Basta dizer que os consertos necessários eram tais, que exigiam uma completa reparação do templo.

E foi assim que os capuchinhos italianos receberam essa igreja, que, aliás, fora a da sua própria escolha. E enquanto esperavam recursos para, se lhes fosse possível, tratarem de realizar obras importantes, ocuparam-se logo de apanhar as goteiras por onde a chuva inundava todo o templo e de remendar um pouco o arruinado teto; e logo depois, auxiliados pelos meios pecuniários que lhes subministrou o governo imperial e pelas esmolas do povo, construíram um modesto hospício, onde se asilaram, mudando-se, enfim de duas pequenas casas vizinhas da igreja e que pertenciam e pertencem a S. Sebastião.

Entretanto, o sucessor de frei Fidélis de Montuano, o padre-mestre trei Fabiano de Scandiano, prefeito e primeiro comissário geral dos missionários barbadinhos em todo o Brasil, oficiava por vezes ao governo, mostrando a urgente necessidade da restauração da igreja, e perdia o seu papel e a sua prosa como se pregasse no deserto, porque o governo ou não lhe dava resposta, ou lhe respondia com a mais desesperadora concisão: “Não há dinheiro.”

Frei Fabiano de Scandiano foi chamado a Roma, sendo substituído na prefeitura e comissariado geral pelo padre-mestre frei Caetano de Messina, que ainda mais apertou o governo com pedidos e reclamações de meios pecuniários para restaurar a igreja. Creio, porém, que teria sido tão infeliz como o seu antecessor, apesar das promessas que lhe fizeram alguns ministros, se não viesse apadrinhá-lo uma violenta tempestade.

Com efeito, no dia 21 de novembro de 1861, desenfreou-se uma tremenda borrasca, ao ímpeto da qual sentiu-se abalar a velha igreja, que estremeceu em suas cansadas paredes. S. Sebastião susteve ainda nesse dia a sua casa, mas força foi reconhecer que ela não tardaria muito tempo a cair.

A imprensa periódica da capital registrou este fato. O padre-mestre frei Caetano insistiu em seus pedidos, que o governo dessa vez atendeu; e pondo-se logo mãos à obra que devia restaurar o templo, trasladaram-se nos primeiros dias de dezembro desse mesmo ano as sagradas imagens, com toda a solenidade, fazendo-se uma procissão, na qual levou o Santíssimo Sacramento o Ex.mo Sr. Bispo de Goiás, então recentemente sagrado, e, desmanchando-se a igreja arruinada, continuaram, entretanto, os capuchinhos a oficiar em uma capela provisória preparada na sacristia.

Deus escreve direito por linhas tortas.

(continua...)

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