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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A igreja de S. Antônio dos Pobres foi dentro em pouco deixada pelos capuchos italianos, dos quais se retiraram uns para a Europa e outros para as aldeias.

Existe ainda na Aldeia da Pedra, na província do Rio de Janeiro, o padre-mestre Frei Florido, que habitara na ermida de N. S. da Glória e na igreja de S. Antônio dos Pobres, e que, indo para a Pedra, começou a catequizar os índios selvagens, conseguiu fixá-los e dominar sobre eles, levantar uma igreja e dar à aldeia um certo grau de prosperidade.

Outros missionários italianos trabalharam no serviço de Deus na povoação hoje vila de S. Fidélis, e aí erigiram o templo consagrado a esse santo, templo que passa por ser um dos mais belos do Brasil.

Não disse ainda, mas convém saber que, embora tivessem chegado muito cedo ao Rio de Janeiro esses missionários somente no ano de 1738 formaram nesta cidade uma prefeitura.

Evidentemente os capuchinhos italianos não tinham sido muito felizes no Brasil. Mas não desanimaram por isso, e a prova é que, em 1840, acedendo a um convite do governo imperial que os chamava a formar uma nova prefeitura no Rio de Janeiro, donde deveriam sair os missionários destinados à catequese dos índios e às missões pelo interior do país, acudiram logo, chegando a esta corte na qualidade de prefeito frei Fidélis de Montuano, que trouxe consigo cinco outros religiosos, com os quais foi morar a princípio no mosteiro de S. Bento.

O governo imperial ofereceu à escolha dos barbadinhos recém-chegados diversas igrejas, mas frei Fidélis preferiu a todas a de S. Sebastião do Castelo; e a 18 de agosto de 1842, recebeu não somente essa igreja, mas ainda o terreno adjacente medido e demarcado, como consta de uma planta levantada pelo tenente-coronel de engenheiros o Sr. Domingos Monteiro.

Eu ponho aqui de parte todas as discussões que se têm debatido a respeito dos barbadinhos italianos, todas as censuras que eles têm sofrido, e de algumas das quais não hesitei em tornar-me eco consciencioso. Esses religiosos não me devem favor, e penso que não lhes agrada o meu juízo relativo a diversos atos que hão praticado, e especialmente às suas exagerações no púlpito e no modo por que exigem que se concorra aos ofícios divinos na igreja de S. Sebastião.

Ponho tudo isso de parte, e como não os tenho poupado nas minhas censuras, não lhes farei a injustiça de desconhecer que o país lhe deve alguns bons serviços, pois são serviços reais às igrejas, os cemitérios e os colégios que eles têm criado, e a catequese de algumas cabildas de índios, por esses religiosos arrancados à vida selvagem. É pena que não procedam sempre assim. Em uma palavra, os barbadinhos italianos não são diabos como querem os seus inimigos, nem santos como dizem os seus apaixonados. São pecadores como todos nós, e muitas vezes sicut et nos manquejant de um olho.

Mas tudo isso fica de parte.

Eu disse que frei Fidélis de Montuano tinha recebido a igreja de S. Sebastião do Castelo, e agora vou referir o estado em que ele a recebeu e o que têm feito por ela os barbadinhos italianos. Isto é, vou descrever a igreja de S. Sebastião do Castelo como era em 1842, e como é e vai ser, convindo saber desde já que os melhoramentos que introduziu e obras que fez nela o conde de Resende não alteraram nem as suas proporções, nem o seu caráter e disposições arquitetônicas, sendo, pois, certo que debaixo deste ponto de vista o templo se conservou tal qual era desde os seus primeiros tempos.

Simples em seu aspecto exterior, a igreja de S. Sebastião do Castelo apresentava na frente uma porta principal e duas laterais. Sobre a primeira uma janela e um óculo davam luz ao coro. Duas torres formavam os ângulos da frente da igreja. Das portas laterais uma olhava para o Castelo, a outra para a barra do Rio de Janeiro. Perto da porta principal e do lado do Castelo via-se erguido um frade de pedra, como o povo chama, tendo em uma de suas faces gravadas as cinco chagas e na outra uma cruz. Era tradição, mas tradição que me parece não ter fundamento, que debaixo dessa pedra fora sepultado o primeiro soldado que morrera nas pelejas do dia 20 de janeiro de 1567. No fundo ligava-se ao templo uma pequena casa que era a sacristia.

Em seu interior o templo pertencia em sua arquitetura à ordem toscana. Havia três naves, no meio elevavam-se cinco pilares octangulares, de cada lado com as suas bases forradas de madeira, as paredes laterais eram de trinta palmos e as do meio, que eram sustidas por arcos assentados sobre os pilares, tinham quarenta palmos. Corria em todo o corpo da igreja uma pequena cimalha de madeira.

Os altares eram cinco, dois de cada lado e o principal. Do lado do Evangelho, no primeiro havia um painel de N. S. de Belém, que representava a adoração dos Reis Magos. No segundo estava S. André Avelino, que, por muito estragado, frei Fidélis fez substituir por outro painel em que se viam S. Francisco de Assis, S. Antônio e S. Afonso de Liguori. Os altares do outro lado pertenciam a S. João Batista e a S. Januário. Os altares eram singelos e sem obra de talha.

(continua...)

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