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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Começavam estes religiosos as suas missões e trabalhos de conversão de índios, entrando pelos sertões, quando, mais cedo do que pensavam, mudou o vento da fortuna e tornou-se para eles de favorável em contrário.

O Rei D. Pedro II não pensou como os seus antecessores. Persuadiu-se de que não podiam convir a Portugal missões francesas no Brasil, e além de proibir o ingresso de religiosos estrangeiros nas conquistas ultramarinas e na Índia, determinou que os existentes nessas províncias se retirassem para a Europa.

E assim desapareceram do Brasil os capuchos franceses.

Seguindo os capuchinhos franceses, tinham chegado também alguns italianos ao Rio de Janeiro, e, sem dúvida, já aqui estavam antes de 1681, pois que uma ordem de 9 de dezembro desse ano lhes mandou dar pela fazenda real 80$000 anualmente para aumento das aldeações dos índios de Campos dos Goitacazes; e parece que não foram compreendidos na proibição que fechou a porta aos religiosos franceses, porque continuaram a exercer o seu ministério em domínios de Portugal.

O Rei D. Pedro II sabia bem quais eram os hóspedes que podiam ser incômodos e até perigosos.

Em 1720, os capuchinhos italianos Frei Antônio de Perúsia e Frei Jerônimo de Monte Real, saídos da Itália para a missão de S. Tomé, arribaram ao Rio de Janeiro, onde o Governador Aires de Saldanha de Albuquerque os deteve em benefício das missões dos índios; e para sua residência lhes deu a mesma capela da Senhora da Conceição, que pertencia já ao bispo, mas que podia ser por eles ocupada, visto como se achava então vaga pelo falecimento do Bispo D. Francisco de S. Jerônimo.

Aconteceu, porém, aos capuchinhos italianos o que acontecera aos capuchos franciscanos que andaram por algum tempo sem aquentar lugar, e mudando de casa como os pássaros de ninho.

Em 1721, foram os capuchinhos italianos hospedados na Conceição. Mas, em 1725, chegando o sucessor do bispado, viram-se na rua, e tiveram de acomodar-se em outra ermida do mesmo título, fundada por Francisco de Seixas da França. Essa ermida, porém, que é a igreja do Hospício, foi comprada pelos chismáticos terceiros franciscanos, e nela se instituiu uma irmandade de homens pardos, tendo os capuchinhos de procurar novo abrigo no fim de poucos meses.

O bispo acudiu aos religiosos italianos e abriu-lhes as portas da ermida de N. S. do Desterro (depois convento de Santa Teresa). Mas, ou por que estivesse a casa muito arruinada, ou por outro qualquer motivo, apenas se demoraram nela os capuchinhos até o ano de 1739.

Ofereceu-se a esses religiosos a igreja e casa do recolhimento da Ajuda, havendo para isso determinação explícita na resolução régia de 9 de abril de 1738. Ignoro qual o destino que pretendiam dar às freiras. Estou, porém, seguro de que respeitariam os seus votos, e de que não data dessa época aquela cantiga popular e um pouco livre, que diz assim em uma de suas coplas:

Se as freiras d’Ajuda

Se vissem na rua, Era um Deus nos acuda Na venda.

Não sei, repito. Sei, porém, que o povo não gostou do oferecimento, e murmurou, reprovando a resolução régia, e que os capuchinhos italianos, mais prudentes que o rei, renunciaram judiciosamente o benefício.

Por ordem de 23 de outubro de 1739, mandaram-se então tomar e pagar três moradas de casas térreas no sítio vizinho e fronteiro do hospício de Jerusalém e N. S. da Oliveira, para residência dos religiosos barbadinhos italianos, sob a condição de em tempo algum se formar convento, isto é, de poderem os missionários capuchos apropriar-se daquele hospício e sua competente cerca, que também se fez.

Em 1710, efetuou-se a mudança dos barbadinhos para essa nova casa e a rua onde ela se erigira tomou dos religiosos o nome dos Barbonos, que ainda hoje conserva.

Sessenta e oito anos ficaram os religiosos italianos habitando aquele hospício. Mas no ano de 1808, tendo-se tomado para aumento do palácio do largo do Paço o convento do Carmo, destinou-se aos carmelitas a casa ocupada pelos barbadinhos e foram estes asilados nas casas dos romeiros de N. S. da Glória, donde também saíram mais tarde, porque, não estimados pela irmandade da ermida de N. S. da Glória, tiveram de mudar de habitação, e se recolheram à igreja de S. Antônio dos Pobres, que o Imperador D. Pedro I mandou reparar à custa do tesouro nacional.

O hospício da rua dos Barbonos, depois de desocupado pelos carmelitas, foi habitado pelos frades de Jesus da Terceira Ordem da Penitência, passou em seguida a quartel de soldados e o é atualmente do corpo de municipais permanentes.

Passou esse hospício de uma milícia sagrada a uma milícia profana. Trocou pelas fardas os hábitos dos frades. Esqueceu as barbas dos capuchos italianos pelos bigodes dos militares, os cantos religiosos pelo rufar dos tambores e já perdeu quase todos os vestígios do seu primitivo destino.

Naquele hospício foi enterrado o autor do Hissope, o célebre poeta desembargador Antônio Diniz da Cruz e Silva, que viera de Portugal e fizera parte da alçada que condenou, em 1792, o Tiradentes e os patriotas comprometidos na famosa conjuração de Minas.

(continua...)

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