Por Visconde de Taunay (1872)
E como não a visse despertar logo, sacudiu-a com brandura ate que ela abrisse uns olhos espantados.
—Apre! Que sono! disse o bondoso velho. Num instante que fui lá dentro?!... Vamos, são horas de tomar a mezinha.
Deitara Cirino sulfato de quinina no café e diluía-o vagarosamente.
—Olhe, dona, aconselhou ele, beba de um só trago e chupe, logo depois, uns gomos de limão-doce.
—Então é muito mau? choramingou a doente.
—É amargo; mas num gole mecê toma isto.
—Papai, recalcitrou a moça, não quero... eu não quero.
—Ora, filhinha do meu coração, não se canhe; e preciso... Amanhã há de você sentir-se boa; não é doutor?
—Com certeza, se tomar esta poção, assegurou Cirino.
—Depois, quando eu u lá à vila, hei de trazer para você uma coisa bonita...
uns lavrados, Ouviu?
—Nhor-sim.
—Ande, Tico, acrescentou o mineiro voltando-se para o anão, vai depressa buscar limão-doce; na cozinha há um meio cascado.
—Tome, dona, implorou por seu turno Cirino, aproximando o pires da boca da formosa medicanda.
Levantou uns olhos súplices e, agarrando resolutamerte o remédio, bebeu-o todo de um jacto.
Depois deu um suspiro de enjôo e ficou com os lábios entreabertos, à espera que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do medicamento.
—Então, exclamou Pereira, era maior o medo que a coisa em si! Você tomou a dose numa relancina.
—Amanhã de manhã, ou melhor, hoje de madrugada, temos que engolir outra dose,. declarou Cirino. Depois, a dona, poderá levantar-se.
—Ainda outra? protestou Inocência com gesto de amuo.
—Nhã-sim; é de toda a percisão, replicou o amoroso médico, modificando pela suavidade da voz a dureza das prescrições.
—Decerto, corroborou também Pereira.
—Depois deve mecê deixar de comer carne fresca, ervas, ovos ou farinha de milho por um mês inteiro, e de provar leite por muito tempo. Há de sustentar-se só de carne-de-sol bem seca, com arroz quase sem sal e por cima tomará café com muito pouco doce.
—Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar para o rejume .
—Agora, durma bem e não se assuste de lhe aparecer zoeira nos ouvidos e ate de se sentir mouca. Isto é da mezinha; pelo contrário, é muito bom sinal.
—Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira, dando ligeiro estalo com a língua.
Não se descuidou Cirino, antes de se retirar, de novamente tomar o pulso e, à conta de procurar a artéria, assentou toda a mão no punho da donzela, envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.
Saiu-se mal de tudo isso; porque, se tratava da cura de alguém, para si arranjava enfermidade e bem grave.
Com efeito, de volta à sala dos hóspedes, não pode mais conciliar o sono e, sem que houvesse conseguido fruir um só momento de descanso, viu ralar a aurora. Parecia-lhe que o peito ardia todo em chamas a subirem-lhe às faces, abrasando-lhe o pensamento.
Aquele venusto rosto que contemplara a sós; aqueles formosos olhos, cujo brilho a furto percebera, aquele colo alabastrino que a medo se descobrira, aquelas indecisas curvas de um corpo adorável, todo aquele conjunto harmonioso e encantador que vira à luz de frouxa vela, fatalmente o lançavam nesse pélago semeado de tormentos que se chama paixão!
Efeitos de tão temível mal já ia o mísero sentindo. Inquieto se revolvia (fato virgem!) no duro leito, ao passo que a respiração isocrônica e ruidosa do companheiro de hospedagem, o alemão Meyer, respondia ao sonoro ressonar do gárrulo José Pinho.
CAPÍTULO X
A CARTA DE RECOMENDAÇÃO
Aquele bom velho, cuja benévola hospitalidade não tinha limites, Julgara do seu dever tratar do melhor modo possível a Waverley, tosse ele o último camponês saxônio... Mas o título de amigo de Fergus fê-lo considerar como precioso depósito, merecedor de toda a sua solicitude e da mal" atenta obsequiosidade.
(Walter Scott, Waverley)
Quando Meyer abriu os olhos, já achou Cirino de pé, arranjando uma canastrinha.
—Oh! exclamou ele em tom de louvor, o Senhor madruga muito.
—É verdade, replicou o outro, um tanto melancólico.
—E Juque ainda dorme!... Este Juque parece mais um tatu do que um homem... Todo o dia o estou acordando...
E juntando o feito ao dito, foi o pachorrento amo sacudir o criado. Depois de se espreguiçar à vontade, sentou-se este no couro em que dormira, e pôs-se a esfregar com todo o vagar os olhos papudos ainda cheios de sono.
—Deus esteja com vossuncês, disse ele entre dois bocejos. Ora, Mochu, o Senhor acordou-me no melhor do sono. Estava sonhando que voltara para o Rio de Janeiro e ia acompanhando uma música pelo Largo do Rocio afora. Conhece o Largo do Rocio? perguntou a Cirino.
—Não, respondeu-lhe este.
—Xi! Que largo! Hem, Mochu?
E novo bocejo cortou-lhes a descrição da louvada praça.
—Juque, exclamou Meyer coçando a barba com ar alegre, o dia hoje está claro e bonito. Havemos de apanhar pelo menos umas doze borboletas novas.
—E quanto me dá Mochu, se eu agarro vinte e cinco?
—Vinte e cinco? repetiu o alemão com alguma dúvida.
—Sim, vinte e cinco... e até mais, vinte e seis. Diga, quanto me dá?
—Oh! eu dou a você dois mil-réis.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.