Por Franklin Távora (1879)
Torna de novo a ter casa.
Não irás para longe; por isso há de ter-nos sempre a teu lado para velarmos pela tua segurança e pelo teu sossego.
Se não me sentisse um pouco adoentada desde a noite dos meus anos, metia-me num carro e ia abraçar-te.
Adeus. Até breve.
Recebe afagos e saudades de
Tua irmã e amiga
Eugênia
Ainda bem Maurícia não tinha concluído a leitura destas linhas, quando um moleque lhe anunciava, por parte de Albuquerque a visita de Bezerra. Maurícia levantou-se quase louca.
— Dize-lhe que não lhe falo, que não lhe quero falar - disse pálida, trêmula, sentindo-se próxima do desespero.
E trancando-se por dentro, recomeçou a leitura mal concluída da carta que lhe dava tanto que sofrer.
Depois de algum tempo, um pensamento sinistro atravessou-lhe o espírito, já combatido por tantos sopros da tormenta que se desencadeara sobre a sua cabeça.
E Virgínia?! - exclamou sobressaltada, ligando este nome querido à ordem de idéias que lhe tumultuavam em confusão e tropel no entendimento. Se ele lembrar de roubar-me Virgínia, o que será de mim? Nem quero pensar nisso.
Incontinente correu à porta, abriu-a violentamente, e atirou-se à escada, que ia ter na sala de jantar. Ainda não tinha descido os primeiros degraus, quando ouviu soluçar uma pessoa que subia. Era Virgínia.
— Mamãe! Mamãe! - dizia por entre lágrimas a menina.
Diante deste inopinado espetáculo, aflição íntima da desventurada mãe teve tréguas. Maurícia esqueceu tudo o que se referia especialmente a si, para só inquirir a causa ainda ignorada do pranto da filha.
— Que te aconteceu, Virgínia, que te aconteceu? — repetiu uma, duas e mais vezes, como em delírio.
— Está tudo acabado, mamãe! Meu Deus, meu Deus, como poderei viver sem Paulo?
— Sem Paulo? perguntou Maurícia cada vez mais dolorosamente surpreendida. Mas o que foi? Aconteceu-lhe algum desastre? Morreu? Casaram-no com outra?
— Querem privar-me de Paulo?
— Quem? Quem? Oh, meu Deus, se alguém se atrevesse a tentar contra a tua felicidade, eu teria para quem o tentasse, fosse homem ou mulher, todas as armas que o meu esforço e condição podem forjar. Como foi isso, Virgínia! Contame tudo.
— Mamãe! Mamãe! Oh, como me custa dizer o que ouvi.
— E que foi que ouviste? Quero saber o que foi. Não sei o que se passou, mas quase adivinho. Não esteve aí um homem, que diz ser teu pai? Foi ele que te ameaçou com a desgraça, não é verdade? Cedo começa o monstro.
A menina soluçava e as lágrimas teimosas e abundantes embargavam-lhe a voz.
Todavia, pode, dominando a sua impressão, referir o que se passara na sala de visitas.
— Meu pai abraçou-me, e deu-me um beijo na face. Então, o Sr. Albuquerque lhe disse que ele voltasse em outro dia, que havia de ser mais feliz na sua visita. Tanto que meu pai saiu, o Sr. Albuquerque dirigiu-me estas palavras: “Virgínia, se sua mãe não voltar para a companhia de sua pai, Paulo não casará com você. Eu não tenho meu filho para a filha de uma mulher que teima em viver separada do marido e lhe dá as costas quando ele a procura. Suba, e diga à sua mãe que a sua felicidade, Virgínia, está dependendo dela. Sem o preenchimento desta condição - a de restabelecer a união conjugal, poderá ser ainda por algum tempo a mestra de minha filha, mas nunca há de ser a sogra do meu filho.” Ele entrou no gabinete, e eu subi, mamãe, para lhe pedir, pela alma dos meus avós, que não seja a causadora da minha desgraça.
Maurícia esteve um instante sem dizer palavra. Era cruel a colisão que se apresentava ao seu espírito - ou a felicidade de sua filha ou a sua felicidade.
— Não tenho ninguém por mim, disse com amargura. Todos conspiram contra o meu sossego. Meu cunhado, meu protetor, minha própria irmã, minha própria filha, parecem dizer-me nas palavras que me dirigem: “exigimos o teu sacrifício!” Oh, como são cruéis os grilhões que impõem o casamento! Fatal sociedade, em que um há de ser inevitavelmente a vítima do outro!
Ouvindo estas acerbas palavras, que Maurícia proferia entre lágrimas, Virgínia, abraçando-se com ela, disse-lhe ternamente:
— Perdoe-me mamãe. Não chore por meu respeito.
Maurícia soluçava com o rosto entre as mãos.
CAPÍTULO IX
Passados alguns momentos, Maurícia enxugou as lágrimas, ergueu a cabeça e volveu à roda de si um olhar a modo de desvairada; era simplesmente perscrutador. Meiga e triste como sempre, tinha Virgínia agora os olhos postos em sua mãe. Esta compreendeu imediatamente o pensamento daquela. Era uma súplica que ela lhe fazia mudamente, mas do íntimo da alma. A tímida menina não se animava a repetir com os lábios as palavras de há pouco, que tinham suscitada à aflita mãe as acerbas expressões indicativas de sua grande pena.
Mas Maurícia, contra o seu costume, teve bastante ânimo para lhe não deferir a súplica.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.