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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

No dia aprazado, antes do menino entrar na casa do padre para receber a primeira lição, já Marcelina tinha levado pessoalmente umas macaxeiras, uma galinha gorda e duas dúzias de ovos para almoço do ilustre vizinho, e jurado, com a eloquência dos sorrisos e das lagrimas simultaneamente, gratidão eterna e infinita àquele que se mostrava tão bom e generoso para a obscura criatura.

- Para que isto, Marcelina? Inquiriu o padre, quando ela lhe fez entrega do presente. Eu ensino de graça e não por paga. Fica sabendo que ainda sem os teus mimos, hei de fazer este serviço ao pequeno. É obra de misericórdia ensinar os ignorantes. Além disso, pelo meu sagrado ministério, tenho obrigação rigorosa de lançar nas trevas do espirito infantil a pouca luz que tiver a meu alcance. Olha. Diz-me o coração que Lourenço ainda há de ser almotacê em Goiana.

- Deus o queira, seu padre, Deus o queira.

E porque não há de querer? Lourenço já está bom. Hoje já é merecedor das bençãos do céu, e da proteção dos homens de bem.

O que Lourenço poz por obra na manhã supramencionada, vem desmentir este conceito e palavras de seu mestre.

Tendo vagado durante algum tempo em busca de sambaquis, por dentro da mata, foi ele dar em uma trilha que lhe era ainda desconhecida. Tomou por ela, e, quando menos pensava, deu consigo em um cajueiral que se perdia de vista. De um lado aparecia uma casa de palha, e por entre o arvoredo, em parte bastantemente destruído pelos machados dos lenheiros, foi descobrindo imensos socavões, de alguns dos quais saiam ainda novelões de fumo negro. O rapaz reconheceu que se achava nas carvoeiras onde tempos atrás lhe tinham ido tão mal as coisas.

De propósito, e por incessantes recomendações de Marcelina, ele tinha, desde essa fatal noite, evitado digressões por aquele lugar, tão rico de belas paisagens e frescos e aprazíveis ermos. Agora, porém, inesperada e involuntariamente achava-se de novo ali. Lembrou-lhe incontinente o que ai passara; pareceu-lhe ouvir a matinada dos cães, e sentir nas carnes os dentes deles e o jagunço dos negros.

Eles levaram a sua avante – disse instintivamente consigo mesmo – porque eu estava desarmado. Se nos encontrássemos agora, a coisa havia de ser outra muito diferente. Já sou homem, e trago o meu facão, que está bem amolado. Eu havia de tirar a minha desforra.

Pincel fatal ou fatídico avivava em sua imaginação a cada passo, que dava o rapaz, as cenas do sanguinolento episódio, que parecia de todo apagado de sua memória. Imediatamente os ferozes instintos de outr’ora ressurgiram violentamente como línguas de serpente ou de fogo em seu cérebro, exigindo pronta vingança.

Sem mais refletir, Lourenço botou-se para a palhoça. Achou-a sem gente. Mas havia criação pelo terreiro, e debaixo do pequeno alpendre viu ele vasilhas de serviço diário, sinal de que os negros ainda ali residiam.

Quando estava a olhar para uma banda e para outra, a ver se dava com algum dos antigos conhecidos, descobriu ao longe um vulto acocorado á beira de uma das covas que apareciam no vasto tabuleiro de areia.

Encaminhou-se para ai, saboreando com antecipada sofreguidão o prazer da projetada vingança.

VIII

O vulto era o moleque, já então quase negro feito, que lhe tinha posto os cachorros em cima àquela fatal noite. Lourenço reconheceu-o logo: nem foi preciso para isto esforço, visto que uma vez por outra o estava vendo, ora entrar, ora sair do sitio.

- Que está você fazendo ai? perguntou ele, com voz de senhor arrogante e provocadora.

Benedicto voltou-se espantado, e por única resposta, vendo quem a ele se dirigia, proferiu estas palavras:

- Que quer saber? É da sua conta?

E com gestos e meneios de quem fazia pouco caso do visitante, deixou-se ficar na mesma posição em que se achava, a saber, de cócoras á beira da cova, e de costas voltadas para o seu interlocutor.

Veja lá como fala – retorquiu Lourenço, aproximando-se. Não foi você quem me botou aqui há tempos os cachorros em cima como se eu fosse alguma raposa au maracajá? Foi você mesmo, que nunca mais sua cara me saiu da lembrança.

- Fui eu mesmo – respondeu Benedicto. E que tem que fosse? É você meu senhor, ou meu pai para vir falar-me assim? Ora vá fazer seus balaios e suas gaiolas, e deixe-me sossegado, que eu não faço conta de você.

- Este negro está enganado comigo, retorquiu Lourenço, como se dirigisse a terceiro. Então você acha que eu havia de esquecer aquele desaforo? Eu não sou de Goiana, sou do Pasmado; e se faço gaiolas e cestos, é para não fazer facas de ponta. Agora, quanto a dizeres, negro, que não me levas em conta, isto é coisa que é mais fácil de dizer do que mostrar.

A esse tempo Lourenço achava-se já pertinho de Benedicto, e este estava de pé. As vistas de um cruzavam-se com as do outro como floretes manejados por dois inimigos, peritos no jogo, e curtidos no rancor.

De repente o olhar de Benedicto se perturba, e ele, de negro, que era, faz-se fulo. Palidez mortal cobriu-lhe a face, há pouco retinta como carvão. Tinha descoberto o facão, que Lourenço trazia e em cuja larga folha se refletia a claridade do dia.

Lourenço aproximou-se mais do seu antagonista.

(continua...)

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