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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Ela derrubava grossas árvores a machado, abria roçados por empreitada, cortava na mata virgem lenha que vendia na povoação, e até tarrafava nas lagoas como um hábil pescador. Não se distinguia só nos serviços do campo, mas também em fazer excelentes tapiocas e ótimo arroz-doce, que eram as delícias dos matutos e sertanejos nas feiras.

Era curiboca, reforçada, não feia e de boa estatura. Acreditava na existência do diabo, no inferno e nas penas eternas como ainda hoje acredita a gente do campo e uma grande parte dos habitantes das cidades; mas em compensação tinha uma fé viva e fervorosa em Deus, e era de costumes irrepreensíveis, fé e costumes que desgraçadamente faltam a muitos dos que têm hoje aquela primeira crença.

Tendo ficado viúva, sem filhos, na flor dos anos, não se quis casar segunda vez, e nunca ninguém achou motivo de por em dúvida a sua honestidade. A Luisinha, a quem pouco depois de ter casado, tomou sob sua proteção, como já referimos, consagrava ela todos os seus afetos, e nela fazia consistir o seu orgulho, o seu prazer e a sua felicidade.

Não sendo de meias medidas quando se julgava ofendida, Florinda botou-se com todo o ímpeto, que trazia, ao desconhecido, o qual, sem soltar Luisinha, que se torcia ao aperto da mão de ferro que a segurava, rebateu o golpe do facão de Florinda com o cano do bacamarte. Com o choque o facão partiu-se, e a folha inteira foi cair dentro do poço, ficando na mão da curiboca o cabo imprestável da infame arma.

Florinda era prudente. Tanto que se viu desarmada, sobresteve, dominou a sua justa indignação, e, com voz masculina que lhe dera a natureza, assim falou ao malfeitor:

— Que quer vosmecê fazer com minha filha ?

— Quero levá-la comigo para meu divertimento. Se tens força para impedires o meu intento, é agora a ocasião.

Ouvindo estas acerbas expressões, Florinda, que com a vista medira de cima a baixo o seu adversário, meteu-lhe o cacete com todo o animo que lhe dava sua vida sem mancha, e a justa defesa da filha, seu único tesouro, de todos acatado e querido. No mesmo instante o ar sibilou, e ouviu-se o som de uma pancada contra um corpo sonoro. Um grito, antes urro medonho, ecoou pela vasta solidão, e uma massa, que se parecia, na forma e no peso, com um tronco de angico anoso, tombou sobre a areia. O desconhecido acabava de obrar uma ação vil. Com a coronha do bacamarte tirara os sentidos àquela digna mulher, que o encarara sem medo.

Vendo sua mãe cair desfalecida, Luisinha quis correr em seu amparo, mas não lho permitiu a mão do malfeitor que a puxou para trás com força hercúlea.

— Ah ! não conheceste o Cabeleira, cascavel ? — acrescentou ele com os olhos fitos em Florinda. — Vêm meter-se na boca da onça, e depois dizem que a onça é cruel.

Aos ouvidos de Luisinha aquele nome passou como uma chama elétrica, que lhe deu forças para volver à vida.

— Cabeleira ! — repetiu ela.

Só então viu os longos cabelos que caíam em ondas por debaixo das abas do chapéu de palha sobre os ombros do assassino.

— De que te admiras ? Não sabes que o Cabeleira está em toda parte onde não o esperam ? Vem comigo.

E sem mais contemplação, o matador arrastou a menina contra a vontade, a resistência, os sobre-humanos esforços que esta lhe opunha, por junto do corpo de Florinda, e seguiu em busca da margem fronteira, onde a noite era já fechada, e o aspecto do sítio pavoroso.

— Agora te conheço, José malvado — disse a moça. — Mata-me também, já me mataste minha mãe que nunca te ofendeu.

— Ah, conheceste afinal o Cabeleira ?

— Tanto me conheceste tu, desgraçado!

— Que queres dizer com estas palavras ? — perguntou o bandido.

— Olha-me bem. Até de Luísa te esqueceste ! Assassino, eu te perdôo a morte: mata-me.

Tinham chegado à beira do capão de mato. O Cabeleira estacou. O que acabava de ouvir tê-lo-ia prostrado mais depressa do que um golpe igual ao que descarregara, havia pouco, sobre uma das fontes de Florinda, se no mesmo instante não lhe houvesse chegado aos ouvidos um assobio agudo, sinal de extrema aflição no couto próximo.

— Ah ! era você ? Perdoe-me, Luisinha. Eu não a esqueci. Perdoe-me. Eu não sabia que era você — disse então, com brandura, soltando a moça sem mais demora.

— Só Deus te poderá perdoar, assassino de minha mãe, — respondeu, abafada em lágrimas e soluços, aquela que se considerava órfã e desvalida pela segunda vez.

— Perdoe-me, Luisinha. Nem eu a posso levar comigo, nem posso demorar-me por mais tempo. O meu rancho está em perigo, e os camaradas chamam-me em socorro deles. Mas espere por mim um pouco debaixo deste juazeiro, que eu quero que você me ouça. Eu volto já.

E, sem perder mais um momento, desapareceu dos olhos de Luísa como uma vã sombra.

CAPÍTULO VI

Não se pode escrever o abalo que experimentou Cabeleira ao reconhecer Luísa, menina até aquele momento em sua imaginação, moça de então por diante aos seus olhos deslumbrados do esplendor daquela beleza correta, natural, irritada e crente.

Pela primeira vez depois de tantos anos, o músculo endurecido que ele trazia no peito dobrou

se a uma impressão profunda, a uma força irresistível e fatal, como a cera se dobra ao calor do lume.

(continua...)

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