Por Bernardo Guimarães (1872)
O anjo da inocência, que desatando-lhes de manso a venda dos olhos já lhes ia dizendo adeus, deixava-lhes em compensação o diáfano e misterioso véu do pudor, esse encantador privilégio da puberdade, que envolve a alma virginal, e não deixa exalar-se do coração que o contém o suave aroma das emoções do amor, que apenas se revelam no rubor das faces e na meiga timidez do olhar, como os fulgores e as purpúreas faixas do oriente anunciam a presença do sol ainda escondido atrás dos horizontes.
Mas Eugênio já era um guapo mocetão de dezesseis a dezessete anos, e Margarida, com os seus quatorze, já era uma moça feita em toda a plenitude e esplendor de seu rápido desenvolvimento. Umbelina bem via que já não ficava bem deixar a sós por muito tempo e entregues a si mesmos como no tempo da meninice aquelas duas criaturas que se queriam tanto, e portanto não lhes permitia mais que vagassem sozinhos pelos campos como outrora, longe de suas vistas. Fazia muito bem; mas, não obstante, a tia Umbelina, toda atarefada como sempre andava, não podia deixar de proporcionar-lhes muitas ocasiões de se acharem a sós em ocasiões de que sabiam aproveitar-se muito bem para se afagarem. Esses afagos porém não passavam de uns prolongados apertos de mão, de algum abraço dado assim em ar de brinquedo e sem intenção amorosa, ou de um desses olhares mudos, longos e repassados de ternura, que em si resumem todo um poema de amor. Bem vontade tinham eles de se beijarem, mas tolhia-os um acanhamento virginal, esse pudor nativo, que é como o orvalho, que só na aurora esmalta o cálix das flores, e os desejos morreram-lhes dentro da alma, e os beijos apenas lhes estremeciam na ponta dos lábios, como tenros passarinhos batendo as asas implumes à beira do ninho, ansiando, mas nunca ousando desprender o vôo pelo espaço.
Quanto mais viva se tornava a afeição de Eugênio por Margarida, maior era a repugnância, que ia tomando pelo estado eclesiástico.
Não se pode imaginar com que desgosto todos os domingos envergava a roupeta colegial e a sobrepeliz para ir ajudar na vila a missa conventual ao vigário. Mas esse era o gosto, essa era a ordem de seus pais, que sentiam indizível prazer em apresentar ao público o seu lindo padrezinho em botão, e não cabiam na pele de contentes, quando o viam funcionando no altar com aquela sisudez e gravidade de um verdadeiro sacerdote.
Quando, ao fazer algumas das evoluções do seu mister, Eugênio voltava-se para o público, e encontrava entre a turba das mulheres os grandes e luzentes olhos de Margarida fitos sobre ele, perturbava-se, ficava enfiado e corava como uma papoula; vinha-lhe à idéia a história da mula-sem-cabeça, e esta lembrança lhe causava a mais desagradável e horripilante impressão.
A assídua freqüência de Eugênio em casa de Margarida já ia dando muito nos olhos, e tornando-se por demais comprometedora não deixava de causar desgostos e inquietação a seus pais.
— Menino — dizia a senhora Antunes a seu filho, talvez já pela trigésima vez -, isto não vai bem. Não paras um momento perto de tua mãe e de teu pai, e não sais da casa da comadre Umbelina!... olha que tens de ser padre e um padre, que não quer senão estar perto das moças... não sei o que lhe diga... isso não te fica bem.
— Ora, mamãe!... pois que tem lá isso?... desde criança que estou acostumado a brincar com a Margarida! pois se eu tivesse uma irmã mais moça, não podia brincar com ela?...
— Ora faça-se de tolo!... como está inocente o meu filho!... então porque brincaste com ela em criança, podes brincar agora, e mesmo depois de padre poderás brincar ainda, como no tempo em que andavas em fraldas de camisa; não e assim?...
— Ah! minha mãe?... também eu... a falar a verdade...
Eugênio suspirou e não teve ânimo de prosseguir.
— Também eu o quê, meu filho?... acaba. — Não tenho vontade nenhuma...
Eugênio empacou outra vez.
— Vontade nenhuma de quê?... desemperra essa língua; fala; não tenhas susto.
— Minha mãe não fica zangada?
— Eu, não, meu filho; fala o que tens no coração; se for alguma asneira, me entrará por um ouvido e sairá pelo outro. De que é que não tem vontade nenhuma?...
— De ser padre, minha mãe...
Há muito tempo que Eugênio desejava, mas não tinha ânimo de fazer aquela confissão, que lhe dava um nó na garganta, e lhe pesava como um rochedo sobre o coração, sentiu-se aliviado alijando-o sobre sua mãe.
— Deveras, meu filho?... exclamou a mãe com surpresa — que me dizes?
isso é de agora, pois sempre te percebi muita inclinação para padre... Que, te dizia eu?... a tal minha afilhada está te virando a cabecinha... logo vi... não são senão elas, que te andam metendo essas caraminholas na cabeça...
— Elas nunca me disseram nada, minha mãe, por Deus!... elas até gostam tanto de me ver de batina ajudando à missa na vila!... a tia Umbelina até já me prometeu uma sobrepeliz e uma volta bordada para quando eu disser missa nova.
Eu mesmo é que não tenho inclinação nenhuma...
— Não digas tal, menino!... interrompeu a mãe com azedume. Seja como for, é preciso que não vás mais tão a miúdo àquela casa. Isso não te fica bem. A Margarida está ficando moça, e tu não és nenhum criançola; as tuas repetidas visitas podem dar que falar da pobre da menina.
— Mas, mamãe; nós nunca saímos de perto da tia Umbelina.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.