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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

— Pobre mancebo! meus irmãos foram bem cruéis em maltratá-lo assim! É bem triste ver um guerreiro assim na flor da vida, tão belo e tão valente, prostrado e morto a golpes de tacape, como se fora um jaguar! E por que havia ele de ser tão louco e temerário! Se não resistisse, acharia talvez entre nós agasalho amigo e franco. Como é gentil, e diferente dos meus companheiros da floresta! seus cabelos negros e luzentes como as penas do anu enroscam-se como serpentes em redor do pescoço, seu porte é como o dos heróis; em sua larga frente ressumbra como que alguma coisa de superior e de celeste. Entretanto, ai de mim! esse belo estrangeiro é a vítima destinada a ser sacrificada a Tupá no dia em que eu for entregue como esposa entre as mãos de Inimá para tornar os manitós propícios à nossa união! Se assim é, ó meu pai, ó Inimá, possa nunca mais raiar esse dia de tão nefasto e abominável sacrifício!

Ao som deste suave monólogo o espírito de Gonçalo começava a desnevoar-se pouco a pouco como aos acordes de uma música celestial. Recorda-se então confusamente do medonho combate da véspera, e pasma de se achar ainda no número dos vivos. Entretanto essa voz suave, que com tanta ternura o lastima, anuncia-lhe também que ele é prisioneiro, e que sua vida não é poupada senão para que seja solenemente sacrificada em um dia de festins nupciais. Mas as palavras desse ser desconhecido repassadas de piedosa doçura lhe ressoavam aos ouvidos como um hino de esperança, e posto que nada pudesse ver, seu coração como que adivinhava a presença de um anjo salvador, que velava junto ao seu leito. Gonçalo faz um esforço e consegue fazer um movimento e exala um fraco gemido. Guaraciaba cala-se e suspende a respiração, como a rola assustada, que interrompe o arrulho ao ouvir passos na floresta; retira-se um pouco, espera um momento e de novo chega-se ao leito e interroga com os olhos o rosto do ferido. Este sente-lhe os passos, enfim pode abrir os olhos e com voz débil e sumida pronuncia em língua indígena estas palavras:

— Virgem da floresta, ou anjo do céu, como me pareces, que tanta compaixão mostras pelo infeliz prisioneiro, dize-me, quem és tu, onde me acho eu, e o que se pretende fazer de mim?

— A filha de Oriçanga, maravilhada de ouvir nos lábios do estrangeiro a língua de seus pais, lhe responde comovida:

— Tu te achas na taba de Oriçanga, meu pai e cacique dos Chavantes, em cujo poder caíste prisioneiro. Aqui ficarás até que sarem tuas feridas e recobres a saúde e as forças.

— Para depois ser conduzido ao sacrifício, não é assim, filha de Oriçanga?

— Oh! quem to disse! atalhou ela vivamente, e pensou consigo aterrada: acaso me teria ele ouvido?

— Oh! sim! bem o sei; continua Gonçalo animando-se; sei que me conservam a vida para depois festejarem com a minha morte e consagrarem com meu sangue cobardemente derramado tuas bodas com... mas não o conseguirão... com estes dentes ainda posso arrancar as ataduras destas feridas e fazer correr por elas todo o meu sangue, para que o não derrameis em vossas festas abomináveis.

— Ah! não! não faças tal; exclama aflita. Acalma-te; nenhum perigo te ameaça... mas é lástima que sejas, como pareces, um filho dos imboabas, desses cruéis inimigos e perseguidores da raça dos adoradores de Tupá.

— Não o creias, filha de Oriçanga: eu sou como vós outros filho das selvas livres; sei encurvar o arco e despedir a flecha de meus antepassados, falo, como vês, a tua língua, e só conheço o imboaba para odiar-lhe e beber-lhe o sangue.

Gonçalo por uma prudente astúcia entendeu que devia nesta conjuntura ocultar a verdade, e nem ele mentia totalmente, pois que voluntariamente se havia seqüestrado da sociedade para viver entre os selvagens. Ao ouvir estas palavras Guaraciaba não pôde conter um grito de surpresa e satisfação.

— É verdade o que acabas de dizer, estrangeiro? quê! tu não és imboaba!... tu és dos nossos! nesse caso tranqüiliza-te; nada tens a temer aqui, é a filha de Oriçanga quem responde pela tua vida.

— Anjo, exclama Gonçalo com voz sumida e angustiada, para que queres poupar-me a vida?... Ah! tu não sabes quanto ela me é odiosa e pesada... Mas tu não és por certo uma mulher... tu és um manitó celeste enviado por Tupá para proteger-me e consolar-me... ah! deixa-me beijar essa mão generosa...

— Cala-te, interrompeu ela levando-lhe os dedos à boca; o pajé não quer que fales, pois isso te fará muito mal. Ah! imprudente que eu fui em te fazer assim falar por tanto tempo.

(continua...)

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