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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Pelo nome e pelos predicados o leitor já terá atinado que a noiva não era mais nem menos senão a namorada, a senhora dos pensamentos do jovem muladeiro Eduardo, que vimos quase papado por uma onça na fazenda de Joaquim Ribeiro, querendo salvar-lhe a filha. Adivinhou e sem dúvida terá também adivinhado que o noivo era o próprio Eduardo, e nada mais natural; eram dois amantes firmes, que há muito tempo se queriam, e dignos um do outro; dois belos e interessantes jovens, para os quais de há multo o himeneu entretecia sorrindo os laços de seda e ouro, com que devia uni-los para sempre.

No momento, em que os dois guapos e jovens noivos com as mãos enlaçadas recebiam em face do altar-mor a bênção nupcial, um viandante cavalgando uma linda e possante mula coberta de poeira e suor, envolto em uma pala de linho branco, e calçando botas de mateiro guarnecidas de largas chilenas de prata, entrava pela vila e passando pelo largo da matriz, ao ver aquela influência de povo e alvoroto festival, picado de curiosidade apeou-se para ver que santo se festejava, e ao mesmo tempo rezar uma oração e dar graças ao céu por ter-lhe dado até ali próspera viagem. Deixando o animal entregue ao camarada que o acompanhava, entrou pela porta principal, atravessando a custo a multidão. A cerimônia. estava concluída, e os noivos entonados e radiantes vinham descendo da nave para a porta do frontispício, atravessando a multidão que se abria para dar-lhes passagem, como dois soberbos cisnes cortando as ondas encrespadas de um lago agitado pelos ventos. Vendo o grande préstito que vinha pelo meio da igreja, o viandante arredou-se para um lado para vê-lo passar. Os noivos, que vinham na frente, foi como era natural o primeiro objeto de sua atenção. Mal deu com os olhos neles – Lucinda! – bradou ele com voz que ressoou por toda a igreja.

Ao som daquela voz Lucinda empalideceu e cambaleou. Todos voltaram-se para o lado donde ele rompera, mas o viandante, agachando-se, encolhendo-se, rompeu sereno e rápido como uma seta por entre a turba, que se agitava, e enquanto todos atônitos indagavam com os olhos donde partira aquele grito, saiu rapidamente por uma porta travessa, montou de um salto a cavalo, e desapareceu no primeiro beco que encontrou. Foi direito apear-se em casa de sua mãe, em cuja companhia morava sempre que estava na Franca.

– Meu filho! enfim... sempre chegaste! exclamou a velha, apenas o viu, estendendo-lhe os braços.

– Ah! minha mãe! minha mãe! exclamou o mancebo, e lançou-se nos braços dela soluçando, mas com os olhos secos e chamejantes.

– Que tens, filho, que estás assim amarelo e a tremer...

– Que golpe, minha mãe! que golpe acabo de receber!

– Golpe, meu filho?... agora?... dizia a mãe assustada reparando por todo o corpo.

– Neste instante.

– Mas... não vejo sangue... onde foi o golpe? fala, meu filho; não me assustes assim.

– Não é isso, minha mãe; Lucinda... quem o diria!...

– Ah! já sei; já sei. Já se casou... Graças a Deus, respiro sossegada; pensei que te havia sucedido alguma desgraça.

– Pois quer maior desgraça, minha mãe?...

– Qual desgraça, menino! não perdes nada com isso...

– Ah! minha mãe, só Deus sabe quanto perco. Perco o sossego e a alegria do coração e para sempre...

– Qual para sempre! estás ainda muito tolo, meu filho. Não há mágoa, que o tempo não console. Tu és ainda muito criança. Não faltam por esse mundo moças mais bonitas que a Lucinda, e – aqui entre nós – mais bem-educadas, que te queiram. És um rapaz bem parecido e de muito boas maneiras; o ponto é que sejas comportado e saibas trabalhar, como até aqui tens feito, que noivas ricas e formosas te sairão aos centos.

– Nem falar nisso, minha mãe! eu acreditar mais em moças!?... não quero sujeitar-me a levar outra vez uma desfeita destas.

– Sossega, meu filho; há males que vêm para bem. Bem sabes, que nunca aprovei muito essa tua inclinação para semelhante rapariga. Achava nela um não sei quê de leviana e de estouvada que nada me agradava, e nunca tive fé com esta gente de Ferreiras; são todos falsos, e sem palavra.

As provas estás vendo. Queres que te diga uma coisa?... se não te visse tão agoniado, era este um dos dias mais felizes de toda a minha vida.

– Mas, minha mãe, ela mostrava querer-me tanto, e os pais pareciam fazer tanto gosto em nosso casamento. Quem sabe se não houve por aí algum embuste, alguma patranha... aquele Hipólito é um infame capaz de tudo.

– Meu filho, se eu disser que aí não houve de todo sua tal ou qual velhacaria da parte do moço, minto. Mas histórias! aquilo é mesmo gente sem cruz nem cunho.

– Ah!... logo vi. Então sempre houve patranha.

– Um enredo que de nada valeria, se eles fossem pessoas de palavra.

– Mas enfim, minha mãe, qual foi esse enredo?... estou ardendo por sabê-lo.

– Tu pensas, que não se soube logo por aqui de uma célebre caçada de onça, em que andaste lá pela Uberaba?... Correu por aqui que com risco de vida tinhas livrado das goelas de uma onça uma mocinha, filha de um fazendeiro muito rico, e que dizem ser linda como um sol.

– Até aí tudo é pura verdade; mas que tem isso com...

– Vai escutando. Disseram mais que ficaste por tal forma embelezado pela tal mocinha, que te invernaste na dita fazenda a ponto de parecer que de lá nunca mais sairias, que eras lá todo de dentro, e já parecias um filho da casa; que já nem cuidavas de teus negócios, e mil outras coisas, que não me lembro.

Eduardo suspirou. Este suspiro era um pensamento vago, que queria dizer: – Pobre Paulina!... antes assim tivesse acontecido!

(continua...)

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