Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
E por falar no passado, veio agora mesmo doer-me na consciência a idéia de uma omissão que me podem lançar em rosto. Descrevendo o palácio e falando do convento do Carmo, que passou a fazer parte dele, não disse uma única palavra sobre a história antiga desse convento.
Ainda bem que foi uma falta que pode ser facilmente corrigida. Vou tratar disso imediatamente.
VI
Sou agora obrigado a dar um salto enorme, um salto do ano de 1808 e da época do reino do Brasil, da que me ocupava estudando o palácio imperial, para dois séculos e mais alguns lustros antes. Assim é preciso fazer, visto que me comprometi a dar a história antiga da casa que foi convento dos carmelitas.
Irei referir de envolta com alguns fatos registrados nas crônicas do tempo uma ou duas tradições populares. Colhi os primeiros nos livros e memórias que consultei, e as segundas contou-mas um padre velho que morreu há dez anos. Daqueles não é lícito duvidar; a estas pode negar-se crédito sem receio de molestar o padre, que já não tem que ver com as cousas deste mundo.
Sem mais preâmbulos.
O famoso Mem de Sá acabava apenas de lançar os fundamentos da esperançosa Sebastianópolis: seu sobrinho Salvador Correia de Sá tecia ainda no alto do morro do Castelo os primeiros fios daquele ninho de águia que foi o berço da atual capital do Império. A cidade nascente, modesto grupo de palhoças e casinhas humildes, não tinha ainda desci do a banhar seus pés de princesa nas mansas ondas do formoso golfo que do seu trono da colina dominava; a povoação começava apenas, e já aqui e ali surgiam e se mostravam no vale algumas piedosas ermidas que a devoção erguera de improviso.
Cada uma delas era tão simples como a oração que sai da alma de um menino e sobe ao céu nas asas do anjo da inocência; e eram todas flores divinas abertas no seio daquele novo paraíso que se mostrara aos olhos dos portugueses.
Havia a ermida de Nossa Senhora da Conceição, a ermida de Nossa Senhora da Ajuda, a ermida de Nossa Senhora do Ó, três turíbulos em que se queimava o puro incenso da devoção aos pés da Mãe de Deus.
Creio que a mais antiga dessas ermidas, ou antes, a primeira que se levantou fora do morro do Castelo foi a de Nossa Senhora do Ó, e é exatamente dessa que me cumpre falar.
A ermida de Nossa Senhora do Ó estava situada na vargem, diz assim uma memória do tempo, ou mais positivamente à borda do mar, e no mesmo lugar em que depois se levantou o convento do Carmo.
A praia que ficava fronteira à ermida chamava-se praia da Senhora do Ó, nome que, como já ficou dito, perdeu logo que se foram ali edificando algumas casas.
A ermida estava em terras pertencentes a uma mulher cujo nome não chegou até nós. O piedoso devoto que ergueu naquela solidão essa igrejinha modesta e graciosa fora um ermitão que também não pode ser lembrado pelo seu nome.
Nos primeiros quatro lustros que correram depois da fundação da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, era a ordem religiosa dos jesuítas a única que tomara um posto e começara a lançar raízes na nova colônia. Essa primazia de direito competia aos irmãos de Nóbrega e de Anchieta, que também muito haviam contribuído para a expulsão dos franceses em 1567.
Mas o ermitão de Nossa Senhora do Ó contava que não tarde viriam igualmente os carmelitas estabelecer-se no Rio de Janeiro; por qualquer motivo ele os amava, e por eles esperando, pedira e obtivera a favor da ermida de Nossa Senhora do Ó a doação do monte que foi depois chamado de Santo Antônio, e que então se chamou o monte do Carmo, porque para os carmelitas o destinava o ermitão.
Até aqui a história. Falaram as crônicas do tempo. Agora começa a tradição e fala o padre velho.
Quem era aquele ermitão? Envolvia-se algum segredo na fundação da ermida? Por que, de preferência, e tanto se lembrava o ermitão dos carmelitas?
A tradição popular adivinhou ou improvisou o seguinte.
Um jovem português, cedendo aos votos de seus pais e aos impulsos do próprio coração, determinara trocar o mundo pelo claustro e acolhera-se ao convento do Carmo de Beja, em Portugal.
Passados alguns meses, em uma pomposa solenidade que teve lugar na igreja do convento, o jovem viu uma donzela de maravilhosa beleza e abrasou-se de amor por ela. Nem a oração, nem os jejuns, nem os cilícios puderam vencer e destruir essa paixão que subitamente lhe rebentara na alma.
O jovem reconheceu que uma mulher se levantava diante da sua vocação de outrora, e que a força o arrastava do claustro para o mundo.
Ainda era tempo: fugiu ao claustro.
O mais velho dos carmelitas do convento, ao vê-lo sair, disse-lhe em tom profético: “Trocas a mãe de Deus pela filha do homem:
não serás feliz! Um dia lembrar-te-ás do Monte Carmelo!”
Apesar disso, o mancebo saiu, mas seus pais o repeliram.
Um ano depois, a família inteira da formosa donzela teve de
passar ao Brasil para estabelecer-se na cidade de Salvador! O mancebo
apaixonado acompanhou na mesma caravela a dona do seu coração.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.