Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— V. Ex. deve ser um anjo dansando... e eu julgar-me-hei no paraiso, se tiver a gloria de ser o seu cavalheiro.
— Está fallando seriamente ?
— Eu juro pelos seus encantos, minha senhora...
— Pois bem... dansaremos a quinta quadrilha.
Era a quadrilha ajustada com Clemência.
— A quinta... balbuciou o doutor ; se pudesse ser outra...
— Ah! eu logo vi que era victima de uma zombaria...
— De modo nenhum... mas é que eu estava engajado para a quinta quadrilha com...
— Como lhe parecer ; mas já agora, ou ha de ser a quinta ou nenhuma.
— Pois seja a quinta, minha bella senhora, exclamou promptamente o doutor.
Entravão n'esse momento na sala Claudiano e Clemência.
O Dr. Ambrosio levantou-se para deixar livre a cadeira de Clemência.
A velha lançou os olhos Claudiano, e vio-lhe no peito um ramosinho do violetas.
Ora, Clemência tinha na mão um bouquet de violetas : a origem do raminho era pois evidente.
— Feliz de quem passeia n'um baile ! disse a velha quando Clemência sentou-se.
— A felicidade será de quem puder passear com V. Ex., observou Claudiano.
— Pois façamo-nos mutuamente felizes, respondeu Violante, levantando-se e tomando o braço de Claudiano, que estremeceu ao con-tacto da mão da velha.
Os dous sahírão da sala.
O passeio durou cerca de vinte minutos : no fim d'elle Violante veio sentar-se ao lado da sobrinha, e agradaceu com a mais refinada amabilidade a Claudiano, que se retirou enthusiasmado, depois de beijar a mão da velha.
Passarão alguns instantes de silencio :
Clemência não ria mais.
De súbito D. Violante tocou-lhe no braço e perguntou-lhe :
— Gostas muito das violetas, menina ?...
Clemência voltou-se e corou até a raiz dos cabellos, vendo no mão de sua velha tia o raminho de violetas que estivera no peito de Claudiano.
Era a segunda victoria que Violante alcançava n'aquella noite: era a segunda derrota que Clemência experimentava n'aquelle baile.
Mas a musica soou...
— Ao menos agora trata-se de um homem de lettras, disse comsigo a bella moça ; e por tanto o triumpho será meu... Pobre D. Clemência! esquecia-se de que as lettras se descontão !... O Dr. Ambrosio approximava-se...
Clemência ia já levantando-se para aceitar o braço do cavalheiro, quando vio que sem a menor ceremonia elle offerecia a mão a Vilante.
A moça deixou-se cahir sentada na cadeira como fulminada por um raio.
— Não dansas esta quadrilha ? perguntou-lhe a velha terrivel.
— Oh!... ainda bem que a não danso! exclamou Clemência; reconheço que me rebaixaria muito se a dansasse !...
— Minha Senhora, disse o doutor Ambrosio a Violante, a musica nos chama... a gloria me espera...
— Não, não, tornou a velha: minha sobrinha está incommodada, e vai de certo retirar-se : não posso deixar de acompanhal-a.
E também por sua vez o Dr. Ambrosio retirouse desapontado.
Era a terceira victoria da velha, e a terceira derrota da moça.
Tres vezes o ouro triumphára da belleza n'aquella noite.
IV.
É facil a qualquer imaginar que noite amargurada e dolorosa passou a pobre Clemência, depois da tríplice derrota que soffrêra no baile.
A sua vaidade de moça formosa tinha sido profundamente ferida, porque nem lhe era dado rir-se e zombar dos triumphos da velha.
Violante, mais habilmente do que se devia esperar, tinha collocado a questão no seu verdadeiro pé, dizendo: « Clemência, a tua rival não sou eu, é a minha fortuna » ou por outra: « a lucta é entre a formosura e a riqueza. »
E a riqueza estava arrancando todos os louros á formosura.
Apenas chegada á casa, Clemência correu a fechar-se no seu quarto, e indo buscar um retrato que tinha de sua tia, e em que o daguerreotypo com a sua reconhecida fidelidade reproduzira a velha com todos os traços feissi-mos do seu semblante, e ainda com a touca e os oculos de que usava, a moça fixou-se defronte do toucador, e ora olhando para a sua propria e encantadora imagem, ora para o retrato de Violante, exclamava de instante a instante :
__ E poude vencer-me!... e poude vencer me!
E uma vez que apertou convulsivamente o retrato em suas mãos, sentio maguados os finos e delicados dedos... Olhou, e vio que essa impressão incommoda era devida a uma preciosa cercadura de brilhantes que ornava o retrato.
— Os brilhantes !... disse ella; é isso mesmo ! são os brilhantes que me ferem e que me fazem gemer ; são estas pedras que brilhão mais do que os meus encantos e do que as minhas virtudes !...
Oh ! minha tia tinha razão !
O pranto não pôde correr sempre, a colera e o despeito abrandão-se pouco a pouco, principalmente no coração de uma moça, que nunca deixa de sorrir á esperança.
As dez horas da manhã do dia seguinte, Clemência levantou-se menos afílicta e mais resignada.
— Agora o que cumpre, disse ella gracejando comsigo mesma, é não perder a aposta para não entrar para o convento d'Ajuda : sim, cumpre que minha tia não ganhe a aposta : porém como ? Ora... sempre hei de achar um meio...
E desatando os seus formosos cabellos, começou a pentear-se
e a meditar.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.