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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Os dois apaixonados, absorvidos consigo, não a escutavam. Para eles não havia nem passado, nem futuro. A vida resumia-se no presente; e o presente era aquela íntima efusão em que se isolavam dos outros, em um canto da sala.

Uma vez, porém, D. Felícia interrompeu a confidência de todas as noites para interpelar diretamente a filha.

— Amália, teu pai amanhã vai escolher os camarotes. Não queres ir com ele?

— Tão cedo! observou o Borges. Ainda faltam dois meses.

— O Sr. Veiga quer prevenir-se com antecedência para obter os melhores lugares.

— Mamãe não vai? perguntou Amália.

— Eu não; só de falar em vapor já estou enjoada.

— Irei com papai. A que horas?

— Depois do almoço.

— Às dez horas, disse a moça enviando a Hermano em um olhar essa indicação.

Ele compreendeu.

— Então sempre se resolve a deixar o seu Rio de Janeiro?

— Mamãe vai.

— Mas a senhora podia ficar.

— Com quem? perguntou ela surpresa.

— Com seu marido.

Amália enrubesceu.

— Posso falar a seu pai?

A moça ergueu-se perturbada e aproximou-se da mãe para dizer-lhe ao ouvido:

— O Sr. Hermano pergunta se pode falar a papai?

D. Felícia voltou-se para o seu hóspede, e disse-lhe com um sorriso:

— Pode; ele está no gabinete.

Capítulo 12

Guiado pelo aceno de D. Felícia, Hermano dirigira-se ao gabinete do Sr. Veiga, que tinha por costume fazer diariamente a sua caixa particular antes do chá.

Ninguém ouvira na sala o breve diálogo dos dois namorados; e menos a pergunta que Amália transmitira à mãe, calando aliás a verdadeira intenção que Hermano lhe havia dado. Mas as pessoas presentes suspeitavam que se tratava do pedido formal de um casamento, que todas já previam.

Quanto a D. Felícia, tinha certeza do fato. A confusão da filha e o alvoroço que se traía na voz e nas palpitações do seio revelavam bem o sentido da pergunta de Hermano e a significação do seu ato.

Amália, para esquivar-se à curiosidade geral que lhe interrogava a atitude e a expressão da fisionomia, fora sentar-se ao piano; e tocava com um brio nervoso, para dissimular na agitação do exercício musical e na excitação da fadiga os sobressaltos involuntários bem como os rubores que lhe abrasavam as faces e o colo.

Pelo seu gosto se teria retirado da sala; mas Hermano devia ressentir-se dessa ausência, e ela mesma não podia privar-se da sua presença pelo resto da noite. Sair para voltar depois da decisão era expor-se ainda mais ao reparo.

Durou meia hora a expectativa

Ouviu-se abrir a porta do gabinete e todos os olhos volveram-se para o corredor, com exceção dos de Amália que se abaixaram a pretexto de decifrar uma frase.

Ela não viu nada, nem ali, nem no papel, nem em torno; tinha uma névoa nos olhos. Ouviu, porém, uma voz comovida pronunciar seu nome e sentiu que lhe apertavam a mão.

Quando recobrou-se desse soçobro e ergueu-se correndo a sala com o olhar, Hermano partia.

Voltara ele do gabinete grave e sombrio; despedira-se de Amália e da dona da casa com um aperto de mão, cortejara as outras pessoas e retirou-se sem uma explicação daquele procedimento estranho.

Fora tal a surpresa, que ninguém, nem D. Felícia, tivera a presença de espírito necessária para fazer a menor observação. Não havia para este fato senão uma interpretação; e foi a que todos lhe deram imediatamente, apesar de a considerarem inadmissível. Hermano tinha sofrido uma repulsa do Sr. Veiga.

Mas como era isso possível, sabia-se do desejo que tinha o capitalista de casar a filha; e dos avanços que a família fazia ao pretendente, e tão a contento da moça?

D. Felícia foi ao encontro do marido que entrava na sala e perguntou-lhe a meia voz, com sofreguidão, o que se havia passado com Hermano.

— Nada, respondeu o Sr. Veiga mais admirado do tom do que da pergunta. Ofereceu-me recomendações para a Europa e prometeu dar-me algumas informações úteis para a viagem.

— Só? perguntou a senhora.

— Só.

O pasmo foi geral. D. Felícia não se pôde conter.

— Não se precisa das suas informações; ele que as guarde e nos livre de sua presença.

O Borges encartou a sua mofina:

— Eu sempre o tive por maluco.

O Sr. Veiga dissera a verdade. Quando Hermano estava no gabinete, o capitalista estava no meio de uma adição.

Para não perder o trabalho começado, e usando já da liberdade de futuro sogro, pediu ao hóspede o favor de esperar um instante, dois minutos, enquanto fechava a conta.

Mal sabia ele que estes dois minutos iam decidir da felicidade da filha.

Hermano esperou, com a emoção que assalta todo homem de caráter ao tomar tão grande responsabilidade. Não era a primeira vez que tinha essa emoção. Lembrou-se do momento em que pedira a mão de Julieta. O passado, que parecia morto, ressurgiu e apoderou-se dele.

Ficou estupefato, vendo-se ali naquela casa e encontrando-se nessa última fase de sua existência, que ele se espantava de ter vivido. Parecia-lhe sonho esse período. Não compreendia como ele, o marido de Julieta, acreditara que pudesse nunca substituí-la por outra mulher.

O capitalista concluiu a sua conta e voltou-se para a visita. Trocaram algumas palavras sobre o calor que tinha feito durante o dia, e calaram-se.

— Está próxima a sua viagem à Europa? disse Hermano depois de uma pausa.

— É verdade! Daqui a dois meses.

(continua...)

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