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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Percebendo o movimento do gaúcho, foi a égua arrancada ao jubilo materno pela lembrança do que devia ao benfeitor. Correu para ele; e afastando meio agastada a rosilha, cingiu com o pescoço a espádua do amigo. 

Manuel abraçou-a entre sorriso e mágoa. 

— Pensavas tu, Morena, que me iria sem abraçar-te?... Adeus!... Levo de ti muitas saudades. A corrida que demos juntos, nunca, nunca hei de esquecê-la!... Duvido que já alguém sentisse prazer igual a esse. Falam outros das delícias de abraçar uma bonita rapariga; se eles te apertassem como eu a cintura esbelta, voando por estes ares!... Adeus! Lembranças ao alazãozinho. 

Arrebatando-se à emoção da despedida, pulou o Manuel no costado da rosilha, e apartouse daquele sítio. No momento em que virava o rosto, que tinha voltado para ver a baia, esfregou as costas da mão pela face esquerda.  

Seria uma lágrima que brotava ali? 

Ficou-se imóvel a égua, com a grande pupila negra fita no cavaleiro que afastava-se rapidamente. Seu peito arfava com ornejo profundo, que parecia um soluço humano. 

 

XII 

VOLTA 

 

Ao cabo de algumas quadras, ouviu Manuel estrupir longe, pela campina aquém, outra corrida, mais veloz que a sua. 

Pensou que fosse a repercussão do galope de seu cavalo, mas conheceu que se enganava. Voltando o rosto viu a Morena, que breve se perfilou com a rosilha. 

Algum tempo seguiu assim unida, como em parelha. Sensível àquela demonstração de carinho, o gaúcho se derreou para recostar sobre as espáduas da amiga. 

Mas o poldrinho chamou a mãe, que estremeceu; mordendo irada a rosilha, correu à disparada para o filho, e logo tornou ainda mais rápida ao cavaleiro, a quem breve alcançou. Ganhando a dianteira á rosilha, fê-la esbarrar um instante. De novo a reclama a voz do sangue; mas não lhe cede de todo a gratidão. 

Ainda trôpego e débil, o poldrinho mal ensaiava os passos sobre a encosta. A Morena ora o instigava à corrida, ora se arremessava em seguimento do cavaleiro, soltando o hênito plangente da saudade; já volve, já avança, quando não hesita, partida entre dois impulsos e cativa de duas vontades em um só corpo. 

Compreendeu então o gaúcho os extremos da gratidão do animal. A mãe não queria mais separar-se do amigo que lhe salvara o filho. Para bem certificar-se, o gaúcho perscrutou o desejo da baia na grande pupila negra e límpida, que ela fitava em seu rosto. 

Esses dois seres trocaram longo e profundo olhar; nesse contato de duas almas soldou-se o vínculo de uma amizade que devia durar até à morte. 

Sem apear-se, suspendeu Manuel o poldrinho que travessou na cernelha, amparando-o com o braço, como uma criança. Conheceu-se a alegria da Morena pelo riso harmonioso e vibrante, e pelas gambetas que deu a travessa. 

Partiram todos, desta vez, sem estorvo. Passadas as primeiras horas, a Morena, que em princípio se mostrara prazenteira e contente, começou a dar sinais de impaciência; de vez em quando mordia o pescoço da rosilha; se esta se desviava do rumo em que iam ambas desfiladas, obrigando assim o gaúcho a afastar-se dela, imediatamente arrojava-se contra, repelindo a companheira, como se quisesse disputar-lhe o cavaleiro. 

Bem a entendia Manuel: eram ciúmes. O amor que toma o homem à cavalgadura, sabia o gaúcho que é retribuído sinceramente. O ginete tem orgulho do cavaleiro que o sabe montar; como tem o soldado de seu general. 

Não consente, porém, o amansador que se fatigasse a Morena, por causa do filho que tinha de amamentar, e por isso recusa o lombo que lhe ela oferecia. Debalde a faceira para o tentar alonga-se como uma flecha, e excede na corrida à rosilha. Debalde colhendo os flancos, se lança aos arremessos, como a corça, prometendo naqueles surtos as delícias da equitação; Manuel resiste a tudo, por amor do alazãozinho. 

Dormiu o gaúcho numa restinga de mato. 

Por madrugada ouviu Manuel longe uns ornejos de zanga, e não vendo a Morena, seguiulhe a pista. Acabava ela de despedir a rosilha, e vinha aos saltos, contente e folgando, oferecer o costado ao cavaleiro. Seria ingratidão recusar; depois de amamentado o alazãozinho, partiu aquela família selvagem, que se tinha formado no deserto, em face da natureza. 

Ao pino do sol, encostou-se Manuel com uma tropilha, à frente da qual reconheceu D. Romero.  

— Bons-dias, amigo, já vem de volta? Então foi buscar o poldrinho também? Dessa não me tinha eu lembrado. 

— Viva, senhor, respondera o gaúcho secamente. 

— Quer o amigo por ela com poldrinho duzentos patacões? Tenho que fazer um mimo a certa moçoila... É pegar da palavra, enquanto não me arrependo. 

Nada mais natural do que oferecer preço por um cavalo, objeto de comércio. Alguns donos até se desvanecem com as boas propostas que lhes fazem. Cada preço alto é um brasão de fidalguia para o animal. 

(continua...)

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