Por José de Alencar (1857)
PEDRO - Sem isto não se namora. Quando nhonhô tiver luneta, prende no canto do olho, e deita para a moça. Ela começa logo a se remexer e a ficar cor de pimentinha malagueta. Então rapaz fino volta as costas, assim como quem não faz caso; e moça só espiando ele. Dai a pouco, fogo, luneta segunda vez; ela volta a cara para o outro lado, mas está vendo tudo! Nhonhô deixa passar um momento, fogo, luneta terceira vez; ai moça não resiste mais, cai por força, com o olho requebrado só, namoro está ferrado. Rapaz torce o bigodinho... Mas V. Mce. não tem bigode!...
JORGE - Olha! Não tarda nascer!
PEDRO - Qual! Está liso como um frasco!
JORGE (ouvindo entrar) - Quem é?
PEDRO - Velho tabaquista!
JORGE - Que vai casar com mamãe.
PEDRO - Psiu! Não diga nada, não!
CENA IX
PEDRO, VASCONCELOS, JORGE
VASCONCELOS - Onde está esta gente! Henriqueta fica para jantar?
PEDRO - Sim, senhor; nhanhã Carlotinha não quer deixar ela ir.
JORGE (saindo) - Eu vou chamá-la!
VASCONCELOS - Não precisa. (A PEDRO) Dize-lhe que à tarde virei buscá-la.
PEDRO - V.Mce. vai para casa?
VASCONCELOS - Não; por que perguntas?
PEDRO - Porque Sr. Azevedo saiu daqui agora mesmo para ir falar a V.Mce.
VASCONCELOS - Sobre quê? Alguma coisa de novo?
PEDRO - Negócio importante. Pedro não sabe; mas ele parecia zangado.
VASCONCELOS - Ora, que me importam as suas zangas.
PEDRO - Senhor não deve mesmo se importar; esse Sr. Azevedo tem uma língua... Sabe o que ele disse?
VASCONCELOS - Não quero saber.
PEDRO - Disse a Sr. moço Eduardo, a casa estava cheia de gente, disse que Sr. Vasconcelos é um... nome muito ruim!
VASCONCELOS - Um que, moleque?
PEDRO - Um pinga!
VASCONCELOS - Hein!... Não é possível!
PEDRO - Ora! Aquele moço não tem respeito a senhor velho. (Faz uma careta.)
VASCONCELOS - Pois hei de ensinar-lhe a ter.
PEDRO - Precisa mesmo, para não andar enchendo a boca de que comprou filha de senhor com seu dinheiro dele.
VASCONCELOS - Comprou minha filha! Ah, miserável! (Batem palmas.)
PEDRO - Pode entrar.
CENA X
Os mesmos e ALFREDO
PEDRO (a ALFREDO) - V.Mce. espere, vou chamar Sr. moço Eduardo.
ALFREDO - Sim, dize-lhe que desejo falar-lhe com instância.
VASCONCELOS (a PEDRO) - Há muito tempo que ele saiu?
PEDRO - Sr. Azevedo?... Agora mesmo.
VASCONCELOS - Vou à sua procura. Preciso de uma explicação.
CENA XI
PEDRO, ALFREDO
PEDRO - O velho vai deitando azeite às canadas! Noivo da filha virou de rumo e agora só quer casar com nhanhã Carlotinha.
ALFREDO - Oh! Ele pode desejar todas as mulheres, é rico!
PEDRO - Não sei também; essas moças... têm cabecinha de vento; um dia gostam de um, outro dia gostam de outro. Nhanhã, que esperava todo o dia para ver Sr. Alfredo passar, nem se lembra mais; escreveu aquela carta a Sr. Azevedo!
ALFREDO - Se não fosse essa carta, eu ainda duvidava!...
PEDRO - V.Mce. bem viu, no domingo, ela me dar à sua vista, e eu entregar na rua a ele, a Sr. Azevedo.
ALFREDO - Sim; e foi preciso ver seu nome escrito!... Quem diria que tanta inocência e tanta timidez eram o disfarce de uma alma pervertida! Meu Deus! Onde se encontrará nestes tempos a inocência, se no seio de uma família honesta ela murcha e não vinga!
PEDRO - Ora, Sr. Alfredo, tem tanta moça bonita! Pode escolher!
ALFREDO - Vai prevenir a Eduardo!
CENA XII
Os mesmos, CARLOTINHA, HENRIQUETA
CARLOTINHA - Ah! Ele está aí!...
HENRIQUETA - Não te disse? Já volto.
CARLOTINHA - Queres deixar-me só com ele! Não, eu te peço.
PEDRO (a ALFREDO) - Nhanhã! Como ela está alegre!
ALFREDO - É por ele! (Cumprimenta.)
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Nem me fala! Que ar sério!
HENRIQUETA - É, talvez, por minha causa.
CARLOTINHA - Não, fica.
PEDRO (a CARLOTINHA) - Agora é que nhanhã deve ensiná-lo; e não fazer caso dele! (Sai.)
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Nem me olha!
HENRIQUETA - Com efeito, ele tem alguma coisa que o mortifica.
CARLOTINHA - Se eu lhe falasse!...
HENRIQUETA - É verdade, dize-lhe uma palavra.
CARLOTINHA - Oh! Não tenho ânimo!
HENRIQUETA (a CARLOTINHA) - Espera, com ele eu sou mais animosa do que tu. Vou falarlhe.
CARLOTINHA - Mas não lhe digas nada a meu respeito.
HENRIQUETA - Não. Então, Sr. Alfredo, tem ido estas noites ao teatro?
ALFREDO - É verdade, minha senhora, para distrair-me.
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Distrair-se... De pensar em mim!
HENRIQUETA - O teatro é mais divertido do que as nossas noites, aqui em casa de Carlotinha ou na minha. Não é verdade?
ALFREDO - Não, minha senhora, mas no teatro se está no meio de indiferentes, e, portanto, não há receio de que se incomode com a sua presença àquelas pessoas que se estima.
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Com que ar diz ele isto! Tu compreendes?
HENRIQUETA - Mas, Sr. Alfredo, me parece que isto não se refere a nós, que nunca demos demonstrações...
ALFREDO - A senhora, não, D. Henriqueta.
CARLOTINHA - É a mim, então... (Silêncio de ALFREDO.)
HENRIQUETA - Mas explique-se, Sr. Alfredo; eu creio que há nisto algum equívoco.
ALFREDO - Há certas coisas que se sentem, D. Henriqueta, mas que não se dizem. Quando nos habituamos a venerar um objeto por muito tempo podemos odiá-lo um dia, porém o respeitamos sempre!
CARLOTINHA - Mas ninguém tem direito de condenar sem ouvir aqueles a quem acusa.
HENRIQUETA - Decerto; muitas vezes uma palavra mal interpretada...
EDUARDO - Tem certeza disso?
ALFREDO - Tenho convicção profunda.
EDUARDO - Pode ser uma convicção falsa.
ALFREDO - Não me obrigue a apresentar-lhe as provas.
EDUARDO - São essas provas que eu peço! Tenho direito a elas...
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.