Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Foi Silvia, a criada de Corina, que me está dedicada.
Firmino Ah! Silvia... contanto que ela não venda também a outro essa dedicação, que sem dúvida lhe compraste: bem vês que devo desconfiar de todos... o nosso empenho vai mal, Peregrino...
Peregr.
Sim, meu pai, o dia é sinistro para mim. Simão de Souza fechou-me a bolsa, e deixei por isso de arrematar hoje dez escravos.
Firmino Fechou-te a bolsa?... E por quê? Peregr. Anteontem à noite Corina repeliu, como eu esperava, as suas pretensões... e... o que foi pior, e ninguém o suspeitaria, minha madrasta provavelmente com o fim de poupar a seu filho um rival a mais, confessou a Simão de Souza um segredo revoltante...
Firmino Qual?...
Peregr.
O de minhas relações de amor com a pupila de meu pai...
Firmino É falso! é impossível!... A desonra de Corina!...
Peregr.
Uma dose de veneno, que só a mim pode aproveitar: sem o querer minha madrasta me auxilia...
Firmino Peregrino! Teodora é incapaz dessa infâmia! Simão de Souza mentiu...
Peregr.
E se além dele mais alguém tivesse recebido a mesma confidência?...
Firmino Peregrino... isto é demais... é horrível... minha mulher é vítima de um aleive perverso...
Peregr.
Tranqüilize-se, meu pai... creio também que caluniam minha madrasta, cuja inocência há de brilhar a toda a luz; mas o ardil de Teófilo, a conivência de Júlia, a intervenção da tia Suzana, esse mesmo aleive perverso que ofende em sua esposa anunciam que a minha causa está perdida se não a salvarmos com o extremo recurso.
Firmino Sempre a idéia do rapto...
Peregr.
É o meio vulgar, mas infalível. (aparece Teodora)
Firmino E as conseqüências?
Peregr.
Realizado o rapto, o casamento com o raptor satisfaz a lei, e a sociedade o sanciona depois de murmurar alguns dias.
Firmino E eu?... Nunca pensas no tutor!...
Peregr.
Delineei plano seguro, no qual meu pai fica livre de toda a responsabilidade...
Cena 8ª
Firmino: Peregrino: e Teodora que tem parado à porta e vai logo entrar no gabinete.
Firmino Com efeito... as circunstâncias urgem, mas eu não quisera recorrer a esse crime...
Peregr.
Quem recorre sou eu. Meu pai é vítima da minha traição...
Firmino Se fosse exeqüível...
Peregr.
O meu plano?... Seguríssimo: eu lho exponho (vai fechar a porta de entrada depois de observar a do interior)
Firmino Não tranques a porta: vamos fechar-nos no meu gabinete.
Peregr.
Tem razão: é mais prudente. (vai-se: aparece Teodora à porta)
Firmino Teodora!
Peregrino (ao mesmo tempo e recuando) Oh!...
Teod.
Um rapto!!
Firmino Silêncio!... A senhora vai escutar-nos?... Teod. Eu vinha dizer-te que desisto de todos os meus intentos relativamente a Carlos e a tua pupila.
Firmino Melhor: está simplificada a questão. Teod. Vinha dizer-te que por amor de nossa filha a cujo casamento não devemos criar embaraços, te cumpre ir já tratar do consórcio de Corina com o amigo de Teófilo.
Firmino Ah!... Pois que Carlos se revolta, e te desobedece...
Teod.
Vinha dizer-te... mas ouvi a palavra rapto e quis saber tudo: escutei... sim... e o que fiquei sabendo é ignóbil.
Firmino Teodora!...
Teod.
A madrasta era indigna, talvez malvada, porque desejava casar o filho com uma jovem rica, e o enteado, (para Peregrino) e o senhor... é a alma cândida, santo mártir, quando prepara o plano do rapto da pupila de seu pai!...
Firmino Basta... basta...
Teod.
É um homem honesto, tipo de virtudes, exemplo de pureza, quando premedita a vergonha da própria família, a difamação da casa paterna...
Firmino Peregrino... retira-te! (Peregr. imóvel)
Teod.
É um filho modelo que atira às garras da maledicência; — o nome de teu pai, que faz da desonra de teu pai o fundamento da tua fortuna!
Firmino Ponhamos termo a esta cena... Teodora!...
Teod.
É um irmão sublime, que, comprometendo o casamento de sua irmã, quer pela infâmia do rapto arrebatar a riqueza de uma órfã que o despreza!...
Firmino Senhora!...
Peregr.
Perdão, minha madrasta! Ao menos cuido em pagar a dívida mais sagrada: ouça-me bem! Testemunhas Simão de Souza e d. Estefânia: quero regenerar com o casamento, a vítima de minha sedução, a amante que a senhora me deu na casa de meu pai!
Teodora (confundida) Oh!
Firmino Desgraçada!... Que calúnia atroz!!!
Fim do 4º
Ato Ato 5º
a mesma cena do 4º ato
Cena 1ª
Firmino: Peregrino: e Silvia que logo se retira
Firmino Que demora!
Silvia Eu estava no 2º andar.
Firmino E Corina?
Silvia Recolheu-se ao quarto da srª. d. Suzana.
Firmino Ainda! Peregr. Procurou a melhor companhia que pode ter na ausência de minha madrasta.
Firmino Em todo caso não te afastes do lugar onde ela se acha, e cumpre as ordens que tens recebido. (entra no gabinete)
Peregr.
Silvia, põe-te a janela, e se minha madrasta chegar antes que eu tenha
saído, corre logo a prevenir-me. Basta que te mostres à porta desta sala.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.