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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Mas, meu Deus, ninguém a ofendeu aqui; eu falei somente no respeito que se deve às leis da natureza.

– Uma vida pura, senhor; um comportamento ilibado, merece alguma consideração. É uma mulher encantadora, convenho; ninguém contudo ousa lançarlhe em rosto a mais passageira leviandade, nem a menor tendência para o galanteio.

Se tem algum crime, é o de ser bela.

– Devia ter mais uma virtude.

– E qual?...

– A de se deixar amar.

– Senhor, vejo que cumpre retirar-me. Defronte um do outro por mais tempo, poderíamos perturbar o prazer e harmonia desta assembléia; porque eu respeito a amizade, e o senhor insulta uma mulher, por saber que as mulheres não se vingam.

Dizendo assim, o mancebo travou do braço de um amigo, e retirou-se para o fundo de outra sala.

– Henrique! disse-lhe o amigo, tu estás pálido como a morte.

– É porque tenho uma morte no pensamento, Carlos.

– Como?... que queres dizer?

– Quero dizer que amanhã hei de bater-me com aquele insolente, a menos que ele sobre ser insolente, não seja também covarde.

– Estás louco, Henrique?

– É possível... e desde muito.

Os dois moços ficaram em silêncio alguns instantes. Finalmente, Carlos, com

voz grave e solene, disse:

– Não te assiste o direito de vingar aquela senhora.

– Como?... não sou amigo de seu marido?...

– Sim; porém o tens ofendido dez vezes mais que o estouvado mancebo que falava há pouco.

– Ofendido?... eu?... de que modo?...

– Henrique, tu amas a mulher do teu amigo.

Henrique estremeceu vivamente, e depois respondeu em voz baixa, apertando a mão de Carlos:

– É verdade; mas sei amá-la em segredo.

No entretanto continuavam a gracejar no círculo que pelos dois jovens havia sido deixado.

– Pois bem, disse o leviano, vou vingar-me nobremente daquele assomado mocinho, que daqui saiu há pouco.

– E por que meio?...

– Trabalhando por tornar a nossa rainha um pouco menos merecedora de sua dedicação e entusiasmo.

– É uma empresa um pouco difícil.

– Eu a reputo bem simples.

– E então?...

– Vou requestá-la.

– Quando começa?...

– Boa pergunta... já!

– Para ser repelido.

– É provável que não; e para o mostrar... eis-me em campo. Adeus... rezem por mim...

– Uma palavra ainda...

– O que temos?...

– Uma concordata: se alcançar vitória, trar-nos-á uma violeta do buquê que ela cheira neste momento.

– Não; uma violeta é bem pouca coisa: trarei no meu peito aquele cravo, cujo pé deve estar fazendo cócegas terríveis na axila da nossa bela.

– Está dito.

– Adeus, pois... e outra vez rezem por mim.

O presumido mancebo foi direito até a cadeira em que se achava sentada a senhora morena.

– Minha senhora, disse ele, eu vinha declarar a V. Exa. que sou um consumado traidor.

– Sinto, senhor, não poder louvá-lo por isso.

– Estava ali com aqueles senhores falando mesmo a respeito de V. Exa.

– É possível.

– Julguei que V. Exa. estimaria saber o que dizíamos.

– Enganou-se; sou bem pouco curiosa. Se eram elogios, não sabendo deles, poupo-me a agradecimentos que às vezes me custam muito; se me desabonavam, furto-me ao desgosto de ouvir censuras que realmente, ainda quando justas, não agradam nunca.

– E se acaso se houvessem dito coisas que muito conviesse que V. Exa. as soubesse?...

– Pediria que as fossem referir a meu marido.

– E se o marido de V. Exa. não as devesse saber?... se mesmo cumprisse que ele as ignorasse sempre? replicou o mancebo.

– Não compreendo... mistérios tão assombrosos, mas que se tratam em uma sala de baile, ao compasso das contradanças, e em um círculo de moços, alguns dos quais devem ser bem levianos, são em verdade coisas muito incompreensíveis!

– Se todavia V. Exa. quisesse arrasar esses segredos, achar o fio desse labirinto ou decifrar essa charada...

– Senhor... sou tão pouco inteligente!...

– Eu me obrigaria a aclarar-lhe tudo, desempenharia meu papel de consumado traidor, com a condição de V. Exa. aceitar o meu braço e dar comigo um passeio.

– Ah!... que tempo e que eloqüência que V. Sa. gastou para pedir-me um passeio!...

– E então?... V. Exa. será tão benigna que me não rejeite?...

– Mas eu estou tão cansada!

– Vejo que é ser importuno insistir, mas insisto.

– Sinto que é ser incivil teimar, mas eu teimo.

– Teima em quê?...

– Em ficar sentada.

– Minha senhora, compreendo que para quem não tem a honra de ser de V. Exa. conhecido, eu já pretendo muito; mas pode V. Exa. estar certa que eu não seria capaz de ofendê-la.

– Oh! não é isso, creia que sou pouco medrosa.

– Há pouco eu juraria o contrário.

– Pois passeemos.

Um raio de alegria terrível brilhou nos olhos do mancebo. Guardou silêncio por alguns momentos, e quando se achou fora da sala da dança, começou dizendo:

– Quer V. Exa. que eu comece a ser traidor?...

– Ah! pois deveras temos uma história?...

– E no fim um verdadeiro mistério.

– Eu lhe escuto.

– Verá que vou trair a mim mesmo.

– Diga... diga.

– Sustentava-se, no círculo em que eu me achava, que V. Exa. era encantadora; todos concordaram e eu também.

– Só isso?...

– Engraçada; convieram todos, e eu também.

– Mais nada?...

– Espirituosa; todos apoiaram, e também eu.

– E que mais?...

(continua...)

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