Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
“Quando eu saí da sala, ouvi as maldições de meus maiores; quando eu me apartei da casa, vi que as portas se fecharam para mim. Delirante e exasperado corri para o mar; ia vingarme, suicidando-me, quando uma fiel escrava me veio entregar uma bolsa e um anel dos cabelos de minha mãe. Então eu me lembrei das suas palavras: — Vai-te, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar tua inocência.
“Eu tornei à vida!... guardei o precioso anel, guardei a bolsa, oh!... era a bolsa de minha mãe, que podia receber sem corar!... eu tornei à vida, um anjo me tinha arrancado do suicídio: isto não é um sacrilégio; uma mãe é o segundo anjo da guarda do filho.
“Agora, meu tio, Vossa Mercê consentirá que eu conte, em poucas palavras, quanto me tem sucedido de então para cá.
“Sem plano algum de vida, sem destino e sem meios, vi-me só no mundo e na idade das loucuras; era preciso seguir um caminho, tomei o primeiro que se me apresentou. A cidade da Bahia se achava em braços com o gênio da revolta; o governo chamava soldados; eu me ofereci, como voluntário, vesti uma farda, tomei uma espingarda, e parti.
“Lá, no empenho do jogo dos combates, em que tantas mil vezes um homem defronte de outro pára a vida contra a vida, eu estive cem vezes a ponto de perder a partida; mas fosse porque o anel de cabelos de minha mãe seja um talismã sagrado, ou porque a morte fuja daquele que a não teme, e antes a procura, eu ouvi assobiar por cima da minha cabeça e em volta de mim mil balas inimigas, sem que uma só me tacasse. O corpo a que pertencia foi um dos primeiros que entrou na cidade.
“Houve cenas horríveis, que é necessário esquecer.
“Uma, porém, dentre todas preciso eu lembrar, porque teve ela benéfica influência sobre a minha vida.
“Sabe-se que o desespero e o delírio dos vencidos ateou o archote do incêndio. Em certa ocasião uma força, na qual eu me contava, era empregada a apagar as chamas que estavam terrivelmente devorando algumas casas. Defronte de uma dessas vi um homem velho, respeitável, com os vestidos queimados e caído por terra; ouvi as suas vozes... eram gritos de dor indizível... — minha filha!... — dizia ele... depois uma mulher, também velha, também respeitável, que uma, duas e três vezes se tinha atirado às chamas, e outras três caído para trás sufocada, avançou para nós, e com lamentos que repassavam o coração dos que a ouviam, com acento de aflição tão profunda, como o amor de uma mãe, ela, apontando para uma janela, exclamou: — minha filha!... minha filha!...
“Eu olhei, e vi através das chamas aparecer uma moça, que recuou pela força do fumo... ela tinha estendido os braços, implorando compaixão... pedindo que a salvassem... e a morte, a morte com cem línguas de fogo ia prestes devorá-la...
“Era uma cena horrível!... e na minha alma brilhou o pensamento de salvar essa moça...
“Outra vez olhei... as chamas tinham conquistado toda a casa... fantasmas de fumo defendiam as portas... o instinto da conservação me empurrava para longe daquele inferno... o generoso pensamento de salvar a moça ia apagar-se...
“A mãe da desditosa chorava... pedia... mandava... bradava convulsa e delirante...
“O seu grito era um... único... cruel e despedaçador... sempre o mesmo, mil vezes repetido... ela bradava:
“— Minha filha!
“Oh!... mas aquela dor de mãe caiu no meu coração e se espalhou na minha alma... lembrei-me de minha mãe! e, beijando o anel de seus cabelos, gritei — eu a salvo! — e desapareci nas chamas.
“Ouvi o sussurro da multidão, que se espantava da minha temeridade... quase sufocado... subi o primeiro andar... a pobre moça tinha caído desmaiada... levantei aquele precioso fardo, e desci...
“No entanto, o que eu sofria era inexplicável: uma nuvem de fumo densa e ardente me sufocava e abrasava as entranhas... aqui a escada cedia debaixo dos meus pés, e eu tombava com o meu pobre fardo... ali havia um caminho de brasas a atravessar com os meus pés nus... acolá uma tábua caía sobre mim... uma parede estava prestes a esmagar-nos... oh! era horrível!... e só a bondade de um Deus, e a lembrança de minha mãe me deram forças... chegávamos à porta... eu ia outra vez passar por um mar de chamas; mas... um monstro de fumo, imenso... abrasador... insuperável me empurrou para longe!... oh!... eu senti um desespero horrível no coração... a cabeça pesava-me... a boca se abria-se-me as narinas se me dilatavam... e o fumo, o fumo entrava por elas para queimar-me! um não sei quê brilhou diante de meus olhos... um amor da vida, um desejo de salvar-me, forte e irresistível, se apossou de mim... abracei-me com a infeliz moça... fechei os olhos, atirei-me às chamas e não vi mais nada.
“Quando abri os olhos, achei-me num quarto decentemente mobiliado; eu estava deitado, e uma jovem senhora velava junto do meu leito.
“A essa moça tinha eu salvado das chamas com a minha temeridade, e ela por sua vez me salvava então com os seus cuidados e dedicação. Ela chamava-se Emília.
“Graças a mil obsequiosos desvelos eu me restabeleci prontamente; o pai de Emília alcançou a minha baixa e me empregou em sua casa, pois ele é um rico negociante da Bahia.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.