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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

A música soa festiva e alegre! As luzes brilham! Admira-se em toda parte o luxo, a riqueza, o fausto e a magnificência do baile...tudo isto partiu de mim, e eu sou mais pobre do que o último mendigo!...hoje a festa...e amanhã ao meio-dia a miséria e o opróbrio!...oh! e medroso do infortúnio que eu preparei por minhas mãos; aterrado pela idéia do mais justo castigo; eu, no meio das músicas estridentes, do ruído da alegria, do movimento jubiloso de todos, eu, pai desnaturado e mau, consinto que vão arrojar minha filha no abismo que cavei debaixo de meus pés!...minha filha!...Leonina!...misericórdia, meu Deus! Sou vil, sou infame, reneguei, desprezei meus parentes...reneguei a honra e a virtude, e ainda vou renegar minha filha!...sinto as ânsias do seu coração, vejo as lágrimas dos seus olhos, e ainda assim com as minhas mãos arrasto-a para o altar do sacrifício...oh! não!...não! este crime, esta abominação, este sacrilégio não há de realizar...não quero...não! não! (Partindo).

CENA VII

Maurício, que logo se retira, e Anastácio.

Anastácio — É tarde: Leonina deixou-se vencer por sua mãe.

Maurício — Não! Não...não é tarde nunca para correr um pai e salvar sua filha!...(Vai-se).

Anastácio — Vai, desgraçado, vai: a obra é tua, não tens portanto que maldizê-la: vai! Enxuga e esconde as tuas lágrimas, esmaga o teu coração e ri, e ri mil vezes aos olhos dessa sociedade mentirosa, em que quase todos são vítimas, e quase todos querem parecer triunfadores!...Oh! que sociedade! Ali dentro daquelas salas há homens que soltam gargalhadas e que têm no seio o fogo do inferno; há mulheres que se festejam e desejariam poder dilacerar-se; há moças que se estão beijando e que têm vontade de morder-se; ali dentro a inveja derrama veneno, a traição forja ciladas, a calúnia despedaça reputações, a corrupção se propaga, a hipocrisia triunfa, e melhor, e mais sublime que tudo isso, a miséria contradança e o calotismo dança a polca! Oh que mundo do diabo! (Sente passos) Quem vem lá?...é ela. (Vai-se)

CENA VIII

Leonina (Só)

Está lavrada a minha sentença...meu Deus! Não há mais riso para meus lábios, nem felicidade para o meu coração. Máscara! Máscara! Não me deixes mais: agora tu és o meu único recurso. A desgraça feriu meus pais, um crime vergonhoso está a ponto de desonrá-los...oh!...não há que hesitar..é preciso que eu me sacrifique para salvá-los. Coragem! Há por aí tantas como eu vou ser...ânimo! mas, meu Deus, é muito!...uma vida inteira é muito!...Oh! meu Deus, manda-me um anjo que me salve!

CENA IX

Leonina e Henrique — Ambos têm as máscaras nas mãos.

Henrique — Leonina!

Leonina — Eu te pedia um anjo, meu Deus!...

Henrique — Oh! o amor às vezes é quase um anjo, porque o amor puro e santo é todo cheio de influxo divino!...Leonina, eu amo!

Leonina — Não mo diga, não...agora é muito tarde, para quem a tempo não quis ouvi-lo! Não é um anjo, não, meu primo! Para mim o senhor é um remorso! Ah! Eu estou no caso dos moribundos, que uma hora antes de expirar pedem perdão àqueles a quem ofenderam; perdão, Henrique!...

Henrique — Leonina, coragem!...nós seremos ainda felizes...

Leonina — Impossível!...

Henrique — A idéia do impossível é quase um sacrilégio: a esperança somente apaga na alma do ateu.

Leonina — Mas quando o próprio dever e o mesmo Deus ordenam o sacrifício de uma vida inteira...quando para salvar seus pais o único recurso que tem uma pobre filha é aceitar a mão de um homem que detesta...quando...

Henrique — Não diga mais...eu sei...eu adivinho tudo...o rubor de suas faces revela o que lhe parece um segredo, e o que ninguém ignora...Leonina...vão condená-la a uma desventura eterna...e eu lhe oferecia no meu coração um altar de amor...Leonina!...

Leonina — E para sentar-me nesse altar, Henrique, já que o sabe, lembre que eu precisaria fazer um degrau da honra de meus pais!...um homem se apresenta para salvá-los...atiro-me nos seus braços...não! não! Eu abraço-me somente com a salvação de meus pais!...

Henrique — Tem razão, é assim mesmo. O santo amor de filha que lhe aconselha tanta abnegação, a engrandece ainda a meus olhos. Tem razão; procede, como deve. Oh! vã filosofia que zombas do poder do ouro! reconhece um tal poder e curva-te diante dele!...ei-lo!...aqui está o ouro comprando uma mulher, e uma mulher vendendo-se nobremente ao ouro por amor da virtude!

Leonina — Meu primo!...

Henrique — Miserável orgulho de artista!...artista!...de que te vale essa palheta, que amas com um cetro, essa glória, com que sonhas incessantemente? De que te vale o gênio, artista?...Oh!...quem me dá um cofre de ouro por essa palheta, que me custou tantos anos de fadiga? Quem me dás um cofre de ouro pela glória de meus sonhos, pelo talento que me inflama?...Oh! vãs quimeras!...a glória é uma ilusão! O talento é nada! O gênio é a túnica de Nesso, o merecimento, a probidade, a sabedoria são mentiras: há só uma grande verdade, é o ouro!

CENA X

Leonina, Henrique e Anastácio.

Anastácio — Blasfêmias!... há só uma grande verdade, é Deus; e por Deus são verdades o gênio, o merecimento, a probidade e a sabedoria. Leonina — Meu tio!

(continua...)

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