Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)
Todos em seus combates são determinados, e pelejam mui animosamente sem nenhumas defensivas; e assim parece cousa estranha ver dous, tres mil homens nus de parte a parte frechar uns aos outros com grandes sovius e grita, maneando-se todos com grande ligeireza de uma parte para outra, para que não possam os inimigos apontar nem fazer tiro em pessoa certa. Porem pelejam desordenadamente e desmandam-se muito uns e outros em semelhantes brigas, porque não têm Capitão que os governe, nem outros oficiais de guerra a quem hajam de obedecer nos tais tempos; mas ainda que desta ordenança careçam, todavia por outra parte dão-se a grande manha em seus cometimentos, e são mui cautos no escolher do tempo em que hão de fazer seus assaltos ás aldeias dos inimigos, sobre os quais costumam dar de noite a hora em que os acém mais descuidosos. E quando acontece não poderem logo entra-los por alguma cerca de madeira lhes ser impedimento que eles têm ao redor da aldêa para sua defensão, fazem outra semelhante algum tanto separada da mesma aldêa e assim a vão chegando cada noite dez, doze passos, até que um dia amanhece pegada com a dos contrários, onde muitas vezes se acham tão vizinhos que vêm a quebrar as cabeças com paus que arremessam uns aos outros.
Mas pela maior parte os que estão na aldêa ficam melhorados da peleja, e as mais das vezes se tornam os cometedores desbaratados para suas terras sem conseguirem victoria, nem triunfarem de seus inimigos, como pretendiam; e isto assim por não terem armas defensivas nem outros apercebimentos necessários para se interterem nos cercos, e fortificarem contra seus inimigos, como tão bem prosseguirem muitos agouros, e qualquer cousa que se lhes antolha ser bastante para a retira-los de seu intento e tão inconstantes e pusilânimes são nesta parte, que muitas vezes com partirem de suas terras mui determinados, e desejosos de exercitarem sua crueldade, se acontece encontrar uma certa ave, ou qualquer outra cousa semelhante, que eles tenham por ruim prognostico, não vão mais por diante com sua determinação, e dali consultam tornar-se outra vez, sem haver algum da companhia que seja contra este parecer. Assim que com qualquer abusão destas, a todo o tempo se abalam mui facilmente, ainda que estejam mui perto de alcançar victoria, porque já aconteceu terem uma aldêa quase rendida e por um papagaio que havia nela falar umas certas palavras que lhe eles tinham ensinado, levantaram o cerco, e fugiram sem esperarem o bom sucesso que o tempo lhes prometia, crendo sem duvida, que se assim o não fizeram morrerão todos a mãos de seus inimigos. Mas afora desta pusilanimidade a que estão sujeitos, são mui atrevidos, como digo, e tão confiados em sua valentia, que não ha forças de contrários tão poderosas que os assombrem, nem que os façam desviar de suas barbaras e vingativas tenções. A este propósito contarei alguns casos notáveis que aconteceram entre eles, deixando outros muitos á parte, de que eu poderá fazer um grande volume se minha tenção fora escreve-los em particular como cada um dos seguintes.
(continua...)
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Lisboa: Oficina de António Gonçalves, 1576. Disponível em domínio público em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17411. Acesso em: 26 nov. 2025.