Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Serviram, pois, as pedras da mal afortunada Sé nova para os imensos alicerces e gigantescas paredes do teatro, e por isso mesmo, muitos velhos daquele tempo severos respeitadores de quanto se referia a coisas sagradas, agouraram mal do futuro daquele edifício profano, e como se o futuro quisesse justificar tais agouros, já três vezes foi esse teatro devorado pelas chamas. Mas nem mesmo com três incêndios se abalaram suas grossas paredes.
Eram e são as pedras da Sé nova, contra as quais nada tem podido o fogo destruidor.
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Passeio suplementa
I
NATURALMENTE os meus companheiros de passeio entenderam que, com o precedente, tinha terminado a série dos que eu destinei à Sé do Rio de Janeiro, e com efeito, entendendo assim, raciocinaram com todo o rigor da lógica. Mas a lógica hoje em dia não governa o mundo. Agora quem mais acerta é aquele que, estabelecidos certos princípios, conclui o que está em oposição aos princípios expostos.
Por conseqüência ainda não acabamos com os nossos passeios que têm por título a Sé do Rio de Janeiro. Como, porém, o absurdo é sempre repugnante, é de regra que se apele para o sofisma, que é o padrinho constante do absurdo e do abuso.
O sofisma vive sempre encapotado, e de ordinário encapota-se em nomes mais ou menos bonitos ou retumbantes.
Às vezes, uma reforma da Constituição chama-se interpretação. É o sofisma encapotado no nome interpretação.
E do mesmo modo e com uma capa semelhante, a cadeia chama-se custódia.
A prisão arbitrária, averiguação policial.
Um atentado contra a nação, salus populi.
O esbanjamento dos dinheiros públicos, despesas secretas.
Uma perpétua suspensão de garantias, polícia.
A ditadura nas finanças do Estado, crédito suplementar.
A compressão e o terror do povo, ordem.
A desordem no orçamento da receita e despesa do Estado, artigos aditivos do mesmo orçamento.
E assim por diante.
O sofisma está, portanto, na moda, e eu que resolvi apresentar-me hoje à moda, chamarei a este e a um próximo passeio – Passeios suplementares.
O meu último passeio era, pelo modo por que o concluí, o último que devia ter o título de Sé do Rio de Janeiro. Mas, obrigado por fatos recentes a voltar à igreja de S. Sebastião do Castelo ou à Sé velha, não quero dar o meu braço a torcer, e vou de novo passear à Sé velha, ajuntando a dois passeios que farei a ela o adjetivo – suplementares.
É um sofisma como outro qualquer.
Subamos, pois, de novo ao morro do Castelo. Subamos pela ladeira do sofisma. Muitos têm subido por ela a outras alturas. Vamos outra vez visitar a antiga igreja de S. Sebastião, e visto que aí encontramos hospedados os religiosos barbadinhos italianos, vou começar antes de tudo por dizer-vos quando e como foi a entrada desses religiosos no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro.
Eu principio.
Não sei por que o Rei D. João IV entendeu que não eram suficientes os padres jesuítas para desempenhar a tarefa das missões e conversão dos índios do Brasil. O certo é que, a instâncias dele e com faculdade da congregação Propaganda Fide, vieram de França para o nosso país alguns religiosos da ordem capucha encarregados daquele mister, e que dois dos que se destinaram para a capitania do Rio de Janeiro chegaram a esta cidade em 1659, segundo informa Monsenhor Pizarro, ou em 1650, pouco mais ou menos, como querem outros, e foram hospedados na casa contígua à capela da Senhora da Conceição, onde atualmente e desde muito residem os bispos diocesanos.
Consta de uma escritura celebrada na nota de 4 de janeiro de 1667, a 24 de janeiro de 1669, fl. 106 v., que o prelado administrador da diocese Manuel de Sousa e Almada doara essa capela da Senhora da Conceição, e a Câmara as terras respectivas, aos religiosos capuchinhos para sua habitação. Ignoro, porém, em que direito se fundaram o prelado e a Câmara para se fazerem doadores.
Maria Dantas fundou a capela de que se trata, à sua custa, em terras próprias, e parte do conselho, e por escritura de 6 de junho de 1655, doou tudo à religião do Carmo para se instituir ali um convento de religiosos recoletos da mesma ordem, com a condição de se lhe dar sepultura na capela-mor, a seus filhos, herdeiros e sucessores, e sob a pensão de cinqüenta missas anualmente por sua alma e pela de seu marido Miguel Carvalho de Souto, o que aceitou aquela religião. Mas nem se instituiu o convento, nem se sabe o motivo da provável desistência que depois faria a religião do Carmo de tal doação. O que é positivo é que a capela e as terras passaram para os capuchos franceses e em seguida entraram para os bens da mitra, ficando a defunta Maria Dantas sem as sepulturas da capela-mor para os seus herdeiros e descendentes, sem a pensão das cinqüenta missas por sua alma e pela de seu marido, e podendo lá da eternidade repetir com Virgílio o mil vezes verdadeiro sic vos nom vobis.
Mas o prelado Almada e a Câmara resolveram a questão. Em
falta de recoletos carmelitas passou a capela aos capuchos franceses, que tão
nas boas graças da corte se achavam que, pelo alvará de 11 de outubro de 1679,
foram declarados sob a proteção real.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.