Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
“Depois de uma breve demora, voltavam Suas Altezas, acompanhadas do cabido, clero, câmara e de toda a nobreza que dentro da catedral estava, e chegando todos ao adro, entre novas aclamações do povo, que esperava ansiosamente tornar a ver Suas Altezas, se meteu o príncipe regente, nosso senhor, com o sereníssimo Sr. príncipe da Beira, em um rico coche, e o mesmo fez toda a real família em outros coches que para esse fim estavam prevenidos, e, seguidos de guardas de cavalaria, se dirigiram para o paço pelas mesmas ruas por onde pouco antes haviam passado com tanto aplauso, indo os coches com muito vagar, pelo grande concurso de povo que nelas esperava a volta de Suas Altezas. E estando as tropas do mesmo modo postadas, por entre elas passaram os coches, e de novo fizeram as continências ao príncipe regente, nosso senhor, e à real família. Chegando Sua Alteza ao real palácio, foi ali recebido com salvas do parque de artilharia e descarga da tropa de linha, seguidas de muitos vivas dos soldados e do numeroso povo que ocupava todo o largo do Paço. Logo depois começaram a concorrer a fidalguia, o cabido, a câmara, os magistrados, os oficiais de superior patente e as pessoas mais distintas da cidade para terem a honra de cumprimentar ao príncipe regente, etc.”
Pára aqui a descrição da entrada da família real portuguesa na Cidade do Rio de Janeiro. Mas a dos festejos que houve por esse motivo continua longamente nas Memórias do Padre Luís Gonçalves, com toda a profusão de adjetivos, às vezes mal cabidos, e com a linguagem e idéias da época. Quem quiser apreciar tudo isso recorra à obra que indico. Para os meus companheiros de passeio é de sobra a maçada que já lhes dei, e que, no entanto, há de fazer saudades aos nossos velhos do tempo daquela transmigração real.
Os fluminenses, que então festejaram tanto a chegada da família real portuguesa, mal pensavam que estavam solenizando e aplaudindo um acontecimento precursor da gloriosa independência da pátria.
Mas o Te Deum Laudamus, cantado por tão justo motivo, foi a última solenidade grandiosa que o cabido celebrou na igreja do Rosário.
Três meses e alguns dias tinham apenas corrido, quando o príncipe regente, pelo alvará de 15 de junho de 1808, elevou à primazia de capela real a igreja de N. S. do Carmo, e a criou paróquia do seu real paço, ordenando outrossim que o cabido da catedral fosse logo, com a possível brevidade, transferido para ela. As disposições deste alvará, que em parte satisfaziam o cabido, porque o tiravam da igreja do Rosário, onde estava continuando a experimentar a má vontade e oposição da irmandade proprietária da casa, também em parte destruía todas as esperanças da conclusão das obras da Sé nova, porque dizia que “considerando as necessidades atuais e urgentes do Estado, a que cumpre acudir sem demora e que me não permitem continuar as obras da nova catedral, a que dera princípio meu augusto avô, o Sr. Rei D. João V, de gloriosa memória etc.”. Palavras estas que indicavam claramente como a Sé nova ficava adiada para as calendas gregas.
Todavia, estava o cabido tão desejoso de mudar de catedral, que logo na tarde do mesmo dia da data do alvará, depois de cantar vésperas solenes na antiga Sé, se transferiu para a capela real, onde, no dia seguinte, 16 de junho, celebrou a festa de Corpo de Deus, assistindo a ela o príncipe regente e a família real na respectiva tribuna.
Os ofícios dessa pomposa solenidade deram brado na cidade do Rio de Janeiro, cuja população admirou a procissão de Corpus Christi, não só pela riqueza e pompa com que saiu, como por ver pela primeira vez o príncipe regente com o príncipe da Beira e infantes sustentando as varas do pálio, e cercados do luzido cortejo de cavaleiros, comendadores e grã-cruzes das três ordens militares do reino de Portugal, ornados com seus respectivos mantos e insígnias.
Descansou, enfim, o cabido na capela real, que se tornara e é ainda hoje a catedral do Rio de Janeiro. E como em um dos meus primeiros passeios já descrevi e falei largamente dessa igreja, julgo-me dispensado de repetir o que já disse, e penso que é chegada a ocasião de, post tantos labores, fazer as minhas despedidas ao venerando cabido.
Não posso, porém, dar por acabado este passeio sem informar os meus bons companheiros do destino que teve a Sé nova, que nunca chegou a ser o que indicava o seu nome.
Pela carta de lei de 4 de dezembro de 1810, foi criada na cidade do Rio de Janeiro a Real Academia Militar, e designado para o estabelecimento de suas aulas o ainda não acabado edifício da Sé nova, onde se fizeram as acomodações necessárias nos consistórios e sacristia, que melhores proporções ofereciam, e concluídos se achavam.
Assim acabaram as famosas obras da Sé, que deixaram ao povo um anexim que é hoje o tormento das obras públicas, pela aplicação justíssima que dele lhe fazem.
A Real Academia Militar tornou-se depois da nossa independência em Escola Militar, e ficou sempre ocupando o mesmo edifício, que atualmente oferece as melhores condições e vastos cômodos para o mister a que foi por último destinado.
Nos trabalhos que em 1810 e 1811 foram sendo executados no
edifício para o estabelecimento da Real Academia Militar, aproveitaram-se as
madeiras que se tinham guardado, e tratando-se logo depois de edificar um bom
teatro na capital, e lançando-se os fundamentos dele no Campo dos Ciganos,
posteriormente chamado largo do Rocio, e enfim, praça da Constituição,
empregou-se nesta obra não só toda a pedra que era destinada para a conclusão
da igreja, mas ainda a das duas torres, que já estavam muito adiantadas, e que
se desmoronaram.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.