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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

“Um numeroso e luzido cortejo das mais distintas pessoas civis e militares, que não se achavam em atual serviço, ou não tinham lugares determinados, vinha adiante, vestido de corte e com muito asseio e riqueza, e promiscuamente os religiosos de S. Bento, do Carmo e de S. Francisco, alguns Barbadinhos, seminaristas de S. José, de S. Joaquim e da Lapa, e também os magistrados, sem distinção de lugar. Seguia-se o estandarte da câmara, que era levado por um cidadão, o qual trajava vestido de seda preta, capa da mesma, colete e meias de seda branca, chapéu meio abado com plumas brancas e presilhas de pedras preciosas, e cuja capa era ornada com bandas de seda ricamente bordada. Formavam em seguimento do estandarte os cidadãos, vestidos com o mesmo traje, duas compridas alas por um e outro lado. Vinha depois a cruz do cabido entre dois ciriais, e logo todo o clero da cidade também em duas alas e todos de sobrepelizes muito ricas e engomadas, e finalmente o cabido com pluviais. Então vinha o pálio e debaixo dele o príncipe regente, nosso senhor, com a sua real família...

“...Rodeavam a Sua Alteza real os grandes do reino, oficiais mores da sua real casa, camaristas e nobreza, e era seguido de um numeroso cortejo de eclesiásticos, militares, oficiais de marinha portuguesa e britânica, como também de outras muitas pessoas, que de Lisboa tinham vindo em sua companhia.

“O regimento de artilharia estava postado com o parque no largo fronteiro à casa da ópera, e era comandado pelo coronel José de Oliveira Barbosa. Seguiam-se em diferentes lugares, pela frente do cais, os três regimentos de linha. Os quatro regimentos de milícias bordavam as ruas desde o cais até a catedral...

“Todo o caminho por onde havia de passar o príncipe regente estava coberto de fina e branca areia, e juncado de folhas, ervas odoríferas e flores. As portas das casas se ornaram de cortinados de damasco carmezim. E das janelas pendiam ricas e vistosas tapeçarias de lindas e variadas cores, umas de damasco, outras de cetim, e outras de seda ainda mais preciosas. E toda esta brilhante armação era realçada pelo grande número de senhoras, que, vestidas e toucadas com o maior asseio e riqueza, aformoseavam e faziam mais brilhante o pomposo aparato da magnífica e triunfal entrada de Sua Alteza real. Na Rua do Rosário se via, ereto na porta de um leal vassalo, um grande coreto, onde em melodiosas vozes, tanto instrumentais como vocais, cantavam os músicos hinos de júbilo em louvor de Sua Alteza real.

“À medida que este augusto senhor ia passando pela frente de cada um dos regimentos, levantavam os seus comandantes a voz, dando por três vezes os vivas a Sua Alteza, a que os soldados e o imenso povo que cobriam as ruas, ocupavam as portas e janelas e mesmo estavam sobre os telhados, respondiam com o maior entusiasmo e contentamento... “... Uma perene chuva de mimosas e suaves flores caía sobre Suas Altezas. Sendo lançadas pelas mãos da inocência e da formosura, excitavam as mais afetuosas sensações...

“Chegou finalmente o solene acompanhamento à catedral, cujo adro e lugares circunvizinhos se viam cobertos de povo infinito, cujas vozes que altamente saudavam a Sua Alteza com incessantes vivas, misturadas com harmoniosos repiques de sinos da catedral, de S. Francisco de Paula, e do Senhor Bom Jesus, e de outras igrejas mais distantes, se não aumentavam, certamente reviviam os mesmos transportes de prazer que sentimos por todo o caminho. O templo se achava decentemente ornado e esclarecido com profusão de luzes. Uma grande orquestra rompeu em melodiosos cânticos, logo que entrou Sua Alteza Real com a sua augusta família, e ao som dos instrumentos e vozes que ressoavam pelo santuário, caminhou o príncipe regente, nosso senhor, com muito vagar e custo, por causa do imenso concurso que dentro da igreja se achava, até ao altar do Santíssimo Sacramento, e ali saindo debaixo do pálio, juntamente com as mais pessoas reais, se prostou com a real consorte e os augustos filhos e filhas ante o trono da Majestade Divina. Entretanto, cantavam os músicos o hino Te Deum Laudamus, e concluído o verso Te ergo etc., se levantou Sua Alteza com a real família e se dirigiu para o altar-mor, igualmente debaixo do pálio, onde pondo-se Suas Altezas outra vez de joelhos sobre almofadas, que também naquele lugar estavam colocadas, renderam suas homenagens à Santíssima Virgem Senhora e ao glorioso martir S. Sebastião, padroeiro da cidade. Concluído o hino de graças e cantadas as antífonas Sub tuum proesidium, O beate Sebastiane, entoou o reverendíssimo chantre o verso Domine, salvum fac principem, etc., e cantou as orações respectivas a este ato, como prescreve o cerimonial. Concluída esta sagrada cerimônia, levantaram-se Suas Altezas, e benignamente deram a mão a beijar a todos quantos se aproximavam às suas reais pessoas, sem preferência nem exclusão de alguém.

(continua...)

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