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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Estavam as coisas neste estado. A Sé nova a tornar-se antiga antes de chegar ao fim das suas obras, e o cabido a brigar com a irmandade do Rosário na igreja deste nome, quando, em 1808, chegou a família real portuguesa ao Rio de Janeiro.

A chegada da família real influiu muito nos destinos da Sé. Mas, tende paciência, meus bons companheiros de passeio. Eu não sei se terei ocasião de tratar em algum outro passeio daquele importantíssimo acontecimento, e portanto, não quero perder o ensejo, e aí vai a descrição do desembarque da real família portuguesa, a quem agora acompanharemos até à igreja do Rosário, ainda então catedral do Rio de Janeiro.

Fala por mim o padre Luís Gonçalves dos Santos, que foi testemunha do grandioso espetáculo.

“Finalmente amanheceu o suspirado dia 8 de março tão claro e formoso como o antecedente; e estando as coisas dispostas para a recepção de Suas Altezas, pelas quatro horas da mais bela e serena tarde, por entre repetidas e alegres salvas das naus portuguesas e inglesas e por entre vivas que os respectivos marinheiros postos em parada sobre as vergas, davam em altos gritos, desceu o príncipe regente, nosso senhor, da nau Príncipe Real, que o conduzira, e se meteu no bergantim com a sereníssima senhora princesa do Brasil e com os sereníssimos senhores príncipe da Beira, infantes e infantas. E acompanhado de toda a corte com que saíra de Lisboa, e de outras personagens distintas que de terra o foram buscar a bordo, ou que das naus desembarcaram (o que tudo fazia uma comitiva muito numerosa e brilhante de escaleres, lanchas e outras embarcações menores), se dirigiu para a cidade em direitura do lugar do desembarque. Todo o numeroso povo que bordava o cais e as praias vizinhas estava como estático, com os olhos fixos no real bergantim, e no maior silêncio. Mas logo que o mesmo real bergantim passava pela frente da fortaleza da ilha das Cobras e que esta começou a salvar com a sua artilharia a Sua Alteza real, no que foi imitada pelas demais fortalezas, imediatamente rompeu o povo que estava sobre o monte do Castelo em altos vivas, acompanhados dos repiques dos sinos do colégio e de muitos fogos do ar que dali se soltaram. Entretanto, chegou o real bergantim à rampa do cais, e logo que o príncipe regente, nosso senhor, pôs o pé em terra, ah! como poderei descrever o que tive a fortuna de testemunhar neste ditoso momento? Centenas de fogos subiram ao mesmo tempo ao ar. Rompeu imediatamente um clamor de vivas sobre vivas. Os alegres repiques de sinos e os sons dos tambores e dos instrumentos músicos misturados com o estrondo das salvas, estrépito dos foguetes e aplausos do povo, faziam uma estrondosa confusão, tão magnífica, majestosa e arrebatadora, que parecia coisa sobrenatural e maravilhosa. No meio desta assombrosa confusão de tantos e tão multiplicados sons diferentes desembarcaram todas as pessoas reais, e juntamente com o príncipe regente, nosso senhor, se prostraram diante de um rico altar, que na parte superior da rampa estava ereto, em torno do qual se achava o cabido da catedral paramentado de pluviais de seda e de ouro branco, e ali osculou S. A. real a Santa Cruz nas mãos do Revmº chantre Filipe Pinto da Cunha e Sousa, e o mesmo fizeram todas as pessoas reais. Mas, antes desta ação, o Revmº chantre havia feito a aspersão da água benta e dado as purificações ao príncipe regente, nosso senhor, e à real família. Levantando-se Sua Alteza o príncipe regente com a sereníssima srª princesa e sua augusta família, se recolheram debaixo de um precioso pálio de seda de ouro encarnada, cujas varas eram sustentadas pelo juiz de fora, presidente do senado da Câmara, Agostinho Petra de Bittencourt, pelos vereadores Manuel José da Costa, Francisco Xavier Pires, Manuel Pinheiro Guimarães, procurador José Luís Álvares, escrivão Antônio Martins Brito, e cidadãos Anacleto Elas da Fonseca e Amaro Velho da Silva, os quais, ambos, havendo sido vereadores, foram convidados para esta ação, que tanto honrou a todos.

“Então começou a caminhar a procissão do modo seguinte:

(continua...)

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