Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
A obra adiantava-se com empenho e ardor, e, segundo informa monsenhor Bizarro, “a vinte côvados de altura, com pouca diferença, chegaram as paredes levantadas acima de grossíssimos alicerces. E quando o seu trabalho prosseguia com esperança de se concluir em tempo breve, tendo-se já empregado na obra 96:752$584, como importavam as verbas dos pagamentos feitos”, teve o governo de suspendê-lo, obrigado a aplicar as somas que eram destinadas para essa construção às despesas de demarcação dos limites do Brasil com as possessões espanholas na América meridional, conforme as disposições do Tratado de Madri de 1750.
No ano de 1752, interromperam-se, pois, os trabalhos da Sé nova, e interrompidos ficaram por quarenta e quatro anos.
As desinteligências do cabido com a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito incitaram os capitulares a tratar da continuação da obra, e, aprovado esse empenho pelo vice-rei conde de Resende e pelo bispo, recomeçaram os trabalhos no dia 29 de fevereiro de 1796.
Os capitulares concorreram para a obra com uma parte da côngrua dos seus benefícios, obtiveram alguns contos de réis em moeda, muitos materiais e outros subsídios de esmola dos moradores da cidade e dos distritos da capitania, e contavam que o bispo aplicasse ao mesmo piedoso fim aquelas esmolas destinadas por direito em benefício da fábrica da igreja catedral, e que o vice-rei cumprisse a promessa que fizera de mandar alguns condenados a galés prestar os seus serviços, fazendo diminuir assim as despesas com os serventes de obras. Enganaram-se, porém, com o bispo e o vice-rei, porque o primeiro apenas concedeu insignificantes auxílios, a muito suplicar do chantre José Pereira Duarte; e o segundo esqueceu as promessas que fizera, e ocupado em reparar e melhorar a Sé velha, ou igreja de S. Sebastião do Castelo, mostrava grandes desejos de fazer voltar para ela o cabido.
Está visto que, assim desamparados, não podiam os capitulares levar ao cabo o seu intento; e desanimando completamente, porque o rei, a quem dirigiram instantes rogos, não os pôde acudir com o necessário auxílio, em conseqüência da situação crítica em que se achava Portugal na Europa, abalada toda pelas bélicas proezas dos exércitos da França, não pensaram mais em continuar as obras da Sé nova, que efetivamente pararam no dia 27 de maio de 1797, ficando pronto o corpo da capela-mor até ao arco cruzeiro, e quase terminadas as casas laterais correspondentes.
Recolheram-se então, e ainda com a esperança de serem aplicadas em melhor tempo, grande cópia de madeira já lavrada e muita pedra, que, ver-se-á, não deviam servir para a Sé.
Razão teve, pois, o povo de inventar o seu anexim. Depois de quarenta anos do começo das obras da Sé, ainda esta não se chegara a concluir, e ainda se adiavam os trabalhos. Tinham principiado as obras no reinado de D. João V, e ia já adiantado o de D. Maria I, sem que elas chegassem ao seu termo!
Monsenhor Pizarro, lamentando a má fortuna da Sé nova, e querendo mostrar que, por descuido ou desamor, era o governo o culpado de tantas demoras e do abandono das obras, exclama em uma nota que se acha à pág. 58 do tomo 6º, das suas Memórias:
“Quando aos governadores do Rio de Janeiro agradou a execução de alguma obra pública, ou ela se originasse do gosto particular, da necessidade, ou da devoção, tudo se prontificou, e tudo se concluiu sem obstáculos. Omitindo fatos antigos, referirei apenas alguns dos mais chegados aos nossos dias. Verbi gratia. Empreendeu o conde de Bobadela levantar o convento de Santa Teresa e renovar o templo junto, de N. S. do Desterro. Ultimou o seu empenho. Lembrou-se o conde da Cunha de construir entre outras obras, as casas do trem e das armas. Executou o projeto. Intentou o marquês de Lavradio melhorar a cidade, fazendo-lhe muitos benefícios. Conseguiu efetuar as suas idéias. Traçou Luís de Vasconcelos e Sousa edificar o Passeio Público, o cais novo, e renovar a igreja de N. S. do Parto juntamente com o recolhimento anexo, etc. Não encontrou óbices. Deliberou o conde de Resende aterrar o campo de Santana, adiantar a obra do cais, e reedificar o templo antigo de S. Sebastião, etc. Tudo realizou. Só a desgraçada Sé nova, que a todos devia merecer muita atenção, por ser uma casa dedicada a Deus e ao seu culto, e por pertencer ao padroado real, não teve patronos autorizados que a concluíssem ao menos na parte mais necessária a se poder dignamente celebrar ali os ofícios divinos, e acomodar o corpo capitular, separando-o da comunicação com os pretinhos irmãos da confraria de N. S. do Rosário! Adoremos a Divina Providência!”
Realmente as queixas de monsenhor Bizarro tiveram justos fundamentos. Mas na história que vou contando neste passeio, o essencial é o conhecimento dos fatos, e o fato é que a Sé nova, começada com tanto ardor e entusiasmo, acabou por cair no mais triste abandono.
E como a Sé nova nunca pôde ser o que diz o seu nome, e já desapareceram quase todos os sinais das obras que chegaram a se executar, darei delas a idéia, embora incompleta, que única nos ficou perpetuada nas Memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos.
“A sua fachada era toda de cantaria e da mesma era o adro, que se elevava do chão uma braça, e cercava todo este edifício. Por um e outro lado era o templo separado das casas fronteiras por duas travessas que confinavam com o pequeno campo da Lampadosa.”
Eis aí tudo quanto achei escrito sobre a mal afortunada Sé
nova.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.