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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Era, sem mais nem menos, uma apelação para o sufrágio universal, que tinha sido posto em prática pelo imperador Napoleão, em França, quando quis, em nome do povo, acabar com o sistema republicano nesse país, e a que D. Pedro I recorria no Brasil, procurando habilmente dar à Constituição que oferecia o apoio e a legitimidade da sacramental aceitação nacional, depois do gravíssimo e calamitoso erro político da dissolução da Constituinte. A diferença das intenções dos dois imperadores tornou-se mais saliente pelo resultado de ambas as apelações. O governo de Napoleão caiu, e a constituição do Brasil perdurou, embora o Brasil não perdoasse ao seu primeiro imperador o fato de se haver desquitado do elemento popular pela dissolução da assembléia constituinte.

É verdade que poucos relativamente foram os cidadãos que concorreram ao plebiscito para que os convocara o governo. Mas o princípio nem por isso se reputou anulado. A nação foi chamada a manifestar o seu voto sobre a constituição oferecida. A sua indisputável soberania foi por esse fato reconhecida. O voto do povo, podia, pois, ter-se manifestado contra essa Constituição, e se não se manifestou então, nem depois, nem em época em que o elemento popular foi o exclusivo dominador do país, segue-se incontestavelmente que a constituição política do Brasil teve e, tem, por seu principal fundamento o apoio e a legitimidade da sacramental aceitação nacional.

Pouco depois do ano de 1824, a Câmara Municipal passou a ocupar o seu paço construído no campo de Santana, posteriormente da Aclamação. O consistório da igreja do Rosário ficou por algum tempo vago. Mas foi em breve ocupado pela Imperial Academia de Medicina, que celebra nele as suas sessões ordinárias.

Sic transit gloria mundi!

O famoso consistório é hoje apenas o modesto asilo de uma instituição científica, e a igreja do Rosário um templo velho que nunca foi novo.

Dir-se-ia que o cabido deixou cair a sua maldição sobre a igreja dos pretinhos, como a chamava, e que o próprio S. Benedito retirou dela a sua proteção.

E, segundo dizem muitas velhas beatas, S. Benedito ficou há poucos anos mal com a cidade do Rio de Janeiro, e chamou sobre ela um terrível castigo.

Completarei o meu passeio de hoje com a história desse aleive que as tais beatas levantaram a S. Benedito.

Eis o caso.

S. Benedito entrava com o seu andor na procissão de Cinzas. Mas, em 1849, não sei por que, o excluíram dela.

Devia certamente haver motivo forte para essa exclusão. Porque não admito que também nas procissões e ofícios religiosos se misturem certas prevenções e privilégios aristocráticos que enchem o mundo de vento e bolhas de espuma.

Mas o certo é que S. Benedito foi excluído da procissão de Cinzas, e que, ofendido por isto, dizem as velhas beatas, resolveu punir a cidade do Rio de Janeiro, e fez imediatamente entrar no seio dela a tremenda peste da febre amarela, que a encheu de terror e de luto e povoou os seus cemitérios.

Creio firmemente que S. Benedito ressentiu-se muito menos da exclusão do seu andor na procissão de Cinzas do que da história que inventaram as suas devotas, atribuindo-lhe a introdução de uma peste na cidade do Rio de Janeiro.

Podia eu, porém, pregar dez anos neste sentido, que não conseguiria com toda a minha retórica convencer as velhas beatas do prejuízo que as leva a ofender o santo.

Tempo perdido!

Elas diriam e jurariam, como ainda hoje dizem e juram, que foi S. Benedito quem nos trouxe à cidade do Rio de Janeiro a febre amarela!

VII

Todos no Brasil têm ouvido e repetido um anexim que diz: “Velho como as obras da Sé.” Mostrarei o fundamento desse anexim, que é, por sinal, ainda muito novo, pois que foi inventado no presente século, ou, quando muito, no fim do século passado.

Em obediência às ordens do rei, por mais de uma vez reiteradas, para se fazer uma nova Sé no Rio de Janeiro, foi enfim escolhido e marcado no largo de S. Francisco de Paula o lugar onde se devia erigir o novo templo dedicado ao santo padroeiro da cidade e capitania.

O rei tinha mandado de Lisboa uma planta para o templo, executada pelo sargento-mor Carlos Manuel. Como, porém, exigisse esse plano despesas avultadíssimas para ser posto em obra, aprovou uma outra planta assaz nobre e soberba, que por sua ordem lhe mandou o governador Gomes Freire de Andrade, de acordo com o bispo.

A primeira pedra do edifício foi lançada no dia 20 de janeiro de 1749, como declara o termo de 21 de junho de 1750, lavrado no livro 2º do registro da secretaria do bispado à fl. 4, e transcrito no livro do tombo do cabido, fl. 144, não constando desse documento a inscrição que acompanhou essa primeira pedra, nem as cerimônias com que ela foi lançada.

(continua...)

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