Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Se realmente as coisas se passaram assim, a irmandade não tem desculpa. Esse abuso, porém, não dá razão ao cabido contra os pretinhos, como os chama o monsenhor Pizarro, nessa prolongada luta que uns e outros sustentaram desde o ano de 1737 até 1808, em que finalmente passou a catedral para a igreja do convento dos carmelitas, que se elevou ao grau de capela real.
Reparo agora que cheguei ao ano da mudança da Sé da igreja do Rosário para a capela real sem ter feito a competente descrição daquela. Mas seria ainda tempo de corrigir esta omissão, se eu tivesse ou achasse que descrever na igreja do Rosário, que é um triste quadro de incúria e desmazelo.
Em falta de descrição, aí vai a pintura que há trinta e oito para quarenta anos fez dessa igreja o padre Luís Gonçalves dos Santos nas suas Memórias:
“Defronte da rua do Rosário está a igreja deste nome, que pertence a uma confraria de pretos, e esta é a que serviu de Sé Catedral do Rio de Janeiro, há sessenta anos pouco mais ou menos. O seu prospecto exterior é por todos os lados triste e miserável, pois nem rebocada está senão na frente, na qual tem uma boa portada de pedra de mármore, e o interior se assemelha mais a um grande armazém do que à casa de Deus, apesar de ter nove altares. Pois nem forrada e assoalhada é. E se os altares estão com alguma decência, é por acharem-se ali a sede episcopal, o cabido e algumas confrarias anexas à catedral. A capela-mor é nova, com forro de talha, mas não tem retábulo no altar-mor. Os pretos começaram um grande consistório, que tarde ou nunca concluíram. E os pardieiros que servem de sacristia e de guardar as alfaias da irmandade do Sacramento e outras, como tambem a casinha do cura, causam compaixão.”
Eis o que era a Igreja de N. S. do Rosário na época em que dali saiu o cabido e onde se conservou a matriz da freguesia, chamada da Sé, até junho de 1820, em que se transferiu o Santíssimo Sacramento para a nova paróquia defronte do tesouro nacional.
Pensavam alguns que a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito deixava a sua igreja em tanto abandono pela má vontade e aborrecido constrangimento com que era obrigada a hospedar o cabido. Mas o cabido mudou-se e as coisas foram a pior.
Compreendei ou imaginai uma igreja em estado cem vezes mais lastimável do que esse de que nos deixou tão triste quadro o padre Luís Gonçalves, e ainda assim mal podereis fazer idéia do que é atualmente a igreja do Rosário.
As paredes, que há quarenta anos não estavam rebocadas, receberam, não sei quando, uma ligeira mão de cal, que resumiu todos os melhoramentos daquela casa de Deus. O interior da igreja, que tão pobre se mostrava, caiu da pobreza na miséria e é hoje um painel de ruínas, sempre em esperanças de uma regeneração que nunca chega. Os pardieiros de que fala o padre Luís Gonçalves causam repugnância pelo seu aspecto vergonhoso. Só o consistório é que, sem ter passado por mudanças notáveis, nem adquirir sensível embelezamento, conserva-se ao menos tão bom como era, e se mostra mais recentemente caiado.
É provável que, em honra da Imperial Academia de Medicina, que ali se hospeda, dessem ao consistório essa e algumas condições higiênicas que se acham em decidida oposição com as condições pestíferas que perto se observam.
As ruas que cercam a igreja do Rosário completam o tristíssimo painel que estou apresentando. Ao lado direito, o largo da Sé, povoado de barracas e de tabuleiros de negras mercadoras de verduras, oferece todos os dias espetáculos desagradáveis pela desenvoltura das quitandeiras, e recebe o som, felizmente confuso, de vozes e de gritos, de gargalhadas e de injúrias que ofendem os ouvidos não habituados aos dialetos da indecência e da desmoralização. Em frente, onde vem terminar a rua do Rosário e se interrompe a rua da Vala, e ao lado esquerdo pela travessa do Rosário, postam-se às vezes negros barbeiros volantes e aplicadores de ventosas de chifre, que exercem os seus misteres no meio da rua, aproveitando fregueses da sua igualha. Ao fundo no beco do Rosário, descansam carros velhos e lavam-se carros novos.
As paredes da igreja, no exterior, conservam-se constantemente úmidas até uma certa altura, tendo no chão contíguo um depósito de lama em diversos pontos, e exalando um mau cheiro de amoníaco que indica bem a causa de semelhante imundície.
Se a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito é responsável e merece ser censurada pelo estado miserável em que se acha a sua igreja, não menos ou ainda muito mais acre censura deve cair sobre a Câmara Municipal da corte, que permite cenas indignas de um país civilizado em torno daquela igreja, e deixa que junto das paredes desta se improvisem lugares de despejo.
É mais do que ridículo, é desagradável o ver-se em uma
capital como a nossa um preto sentado em um banquinho no meio da rua, com a
cara entregue às mãos de outro que a ensaboa e barbeia como se estivesse na sua
loja, e logo adiante um outro, com a boca na ponta de uma ventosa de chifre, a
chupar o sangue de um padecente que se entrega a essa operação, tendo por leito
a calçada da rua; e pior que tudo é cada canto da igreja transformado em
latrina.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.