Por Visconde de Taunay (1872)
—Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira, esfregando as mãos de contente.
Prometia-lhe na verdade a companhia boas ocasiões de dar largas à
volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Corte do Rio de Janeiro e, pelo que parecia, tagarela de grande força.
—Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.
E abriu a porta para se retirar.
—Ui! exclamou ele olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia-noite... Com a breca, o Cruzeiro está virando de uma vez. . .
Cirino, que tornara a deitar-se, com presteza calçou as botas e tomou uns papeizinhos que de antemão preparara e pusera a um canto da mesa.
—Não faz mal, disse, já estou com tudo pronto e em tempo havemos de dar o remédio. Vá o senhor deitar um pouco de café num pires e acorde sua filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.
Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cirino, deu volta à casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.
Ficaram, pois, o alemão e seu criado em completa escuridão; ambos, porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras tendo por travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no meio do aposento.
—O Mochu, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já ferrado? —Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?
—Pergunto se já pegou no sono?
—Pois, Juque, se eu falo, como é que posso estar dormindo?
—Então não quer petiscar?
—Comer, não é?
—Esta visto.
—Oh! Se tivesse!... Pensava agora nisso...
—Pois eu estou manducando... Quer um bocadinho?
—Que é que você me da?
—Rapadura com farinha de milho... Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...
—Então, Juque, passe-me um pouco.
Levantou-se o ofertante com toda a boa vontade e às apalpadelas começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.
Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança mais que sóbria, que foi devorada com satisfação pelo bom do saxônio.
CAPÍTULO IX
O MEDICAMENTO
Não tendes que labutar com doente muito grave, e eis o serviço que de vós esporo...
(Hoffmann, A Porta Entaipada).
Quem me poderá dizer por que me parece tão duro o leito?.. Por que passei esta noite que se me figurou tão longa, sem gozar um momento de sossego?... Surge a verdade: em meu seio penetraram as agudas setas do amor.
(Ovídio, Elegia n).
Quando Cirino entrou no quarto de Inocência, já estava ela acordada. Sentara-se o pai à cabeceira da cama, a cujos pés se acocorara Tico, o anuo, sobre uma grande pele de onça.
—Então, perguntou o médico tomando o pulso à mimosa doente, como se sente?
—Melhor, respondeu ela.
—Suou bastante?
—Ensopei três camisas.
—Muito bem... Agora a senhora esta com a pele fresquinha que mete gosto. Isto de sezões, não e nada, se a gente acode a tempo e o sangue não tem maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o demo com elas pode. Que é do café? pediu ele em seguida a Pereira.
—Já vem já... Homem, vou eu mesmo buscá-lo, lá à cozinha. A Maria Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para
Levantando-se então da cadeira, indicou-a a Cirino, a quem fez sentar antes de sair.
Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse de chapa a luz colocada numa prateleira da parede, pôs-se a contemplá-la com enleio e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe deitava olhares inquietos e algo sombrios.
Pousara Inocência a cabeça no travesseiro e, para ocultar a perturbação de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo menos tinha as grandes pálpebras cerradas e o rosto sereno; mas arfava-lhe apressado o peito e, de vez em quando, fugaz rubor lhe tingia as faces descoradas.
Pereira tardava; e Cirino com os olhos fixos, a fisionomia meditativa e um pouco de palidez, que denunciava a intima comoção, não se fartava de admirar a beleza da gentil doente.
Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou com o do mancebo, olhar rápido, instantâneo, mas que lhe repercutiu direito ao coração e lhe fez estremecer o corpo todo.
Sem saber por que, batia-lhe o queixo e um arrepio de frio lhe circulava nas velas.
—Sente mais febre? perguntou Cirino muito baixinho.
—Não sei, foi a resposta, e resposta demorada. —Deixe-me ver o seu pulso.
E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a, apesar dos ligeiros esforços que para a retrair, empregou ela por vezes.
Nisto, entrou Pereira. Inocência fechou com presteza os olhos e Cirino voltou-se rapidamente, levando um dedo aos lábios para recomendar silêncio.
—Está dormindo, avisou com voz sumida.
—Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a cafeteira, de maneiras que precisei fazer outra porção. Demorei muito? —Não, respondeu Cirino com toda a sinceridade.
—Mas agora, observou Pereira, é mister acordar a pequerrucha. —Não há outro remédio.
Chegou-se o pai à cama e, com todo o carinho, chamou: Nocência! Nocência!
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.