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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Domina este planalto vasta extensão de terras, como que convidava o Coronel a que ali acampasse; mas ainda desta vez fizeram os refugiados preponderar a sua opinião que era a seguinte: sem mais detença, nos dirigíssemos exatamente para o centro do estabelecimento, onde, mais facilmente, poderia o gado ser rodeado e cercado. A vista disto resolveu-se que a marcha prosseguiria, indo-se, sem que dai proviesse nenhum dos resultados acenados, acampar a meia légua dali, num terreno triangular de marga nitrosa, entre dois regatos que confluem antes de se lançar no Apa-Mi; e onde os rebanhos, atraídos pelas propriedades salinas do solo, costumam geralmente concentrar-se na estação das grandes cheias: lugar denominado Invernada da Laguna.

Mostrou-nos o primeiro relance de olhos que, tanto ali como em qualquer parte, o inimigo nos cerceava sobretudo os viveres. Ao colocarmos guardas avançadas pudemos, a certa distância, divisar um acampamento paraguaio dispondo de grande boiada e cavalhada tangida para o Sul, enquanto a sua vanguarda nos vigiava os movimentos. Que podíamos fazer sem cavalaria?

No entanto os dias 2 e 3 se empregaram em diversas tentativas para a obtenção de gado ou pelo menos para surpreender algumas sentinelas de quem se pudesse obter informações sobre o estado do interior da República. Malogrou-senos, contudo, o duplo intuito. Quanto à grande boiada que avistáramos, desaparecera. Fizemos ainda algumas avançadas em busca dos animais tresmalhados em tais pastagens. Ainda nos falhou este expediente precário. No dia da chegada, tivera o 21.° batalhão a sorte de apanhar apenas umas cinqüenta cabeças, malgrado os esforços dos cavaleiros inimigos, que nada pouparam para lhas retomar. Nenhuma outra batida pelos arredores teve resultados; muito embora para tal serviço partissem os demais corpos, uns após outros. O que deste trabalho penoso lucramos foi que levando nossos soldados sempre vantagens nas escaramuças parciais que dai provieram, completou-se-lhes a educação militar no fogo, sem demasiados sacrifícios. Não só ganharam confiança em si como nos chefes.

A 4 vimos chegar ao acampamento um mascate italiano, Miguel Arcanjo Saraco, que de Nioac viera, seguindo-nos as pegadas, com duas carretas de provisões, recurso para nós insuficiente. Passara o Apa, atravessando as três e meia léguas que nos separavam, acompanhado de um único camarada que o ajudava a conduzir os veículos. O maior terror o perseguira durante todo o trajeto; mas a ele contrapusera o inato pendor para o cômico. Por uma fantasia armada para se incutir coragem, rodeara-se, contava-nos, de imaginários batalhões a quem, de tempo em tempo, dava ordens em voz alta, simulando manobras. Entre outras cenas deste gênero relatava que às dez horas de uma noite trevosa, ao transpor o Apa-Mi mandara, com todo o fôlego dos pulmões, cruzar baionetas, à vista de um capão de mato que lhe inspirava receios.

No meio da alegria da chegada, e das emoções de toda a natureza, não esqueceu, contudo, a noticia positiva, afirmava, da aproximação de longa fila de comboios a que se adiantara, e rodava pela estrada de Nioac ao Apa, apesar de todos os perigos de uma linha de perto de trinta léguas a percorrer em completo descampado. Seja-nos relevada esta diversão cômica no momento de encetarmos a narração de cenas sempre dolorosas. Traria esta mesma noite sério motivo de inquietação. Verificara-se a ausência de um soldado do batalhão de voluntários. Este miserável, de índole viciosa e semi-imbecil, havendo roubado a um dos camaradas, furtara-se ao castigo desertando. E sobejas razões tínhamos de recear que o comandante paraguaio por ele viesse a ter informações, as mais completas, sobre a nossa falta de viveres e a necessidade em que já nos achávamos de bater em retirada.

E efetivamente tivera o Coronel de dar neste sentido ordens impostas pela necessidade. Não sabemos se ainda tentava engodar a si próprio como procurava fazê-lo em relação a nós outros, ao qualificar o movimento retrógrado de contramarcha sobre a fronteira do Apa, para ali ocuparmos forte base antes de prosseguir na invasão do Paraguai. Não houve, porém, quem se iludisse. Principiava a retirada.

Pretendeu pelo menos disfarçá-la com algum brilhante feito d'armas, pois punha empenho em demonstrar aos inimigos, aos do Brasil e aos pessoais, que se retrocedíamos não era porque a tanto estivéssemos forçados pela superioridade do adversário. Conhecendo a excelente disposição de nossa gente, resolveu apossarse do acampamento paraguaio; e para a execução deste assalto designou o 21.° de linha e o corpo desmontado de caçadores. Fixara-se a manhã de 5 para esta ação; no entanto só se realizou um pouco mais tarde.

(continua...)

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