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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Eugênia leu a carta, e não quis almoçar. A tristeza estendia sobre o seu rosto a sombra que a acompanha, destruidora de todo o viço e brilho com que a tranqüilidade, que é quase felicidade, esmalta os semblantes, ainda os menos frescos.

Bezerra não faltou ao prazo dado.

Às quatro horas, sentaram-se ele e Martins ao pé do salgueiro.

— Minha cunhada recusa voltar à vida conjugal, disse Martins, sem mais preâmbulos.

— O senhor tem fundamento para dizer-me isto? — perguntou Bezerra.

— Ela escreveu-me.

— Eu não podia esperar que ela estivesse em outro ânimo; mas nesta importante questão, Sr. Martins, o que deve merece maior peso não é a fantasia de minha mulher, são certos interesses, que não podem ficar expostos a graves prejuízos. Eu desejo, antes de tudo, saber qual é a sua opinião sobre este assunto.

— Não tenho ainda juízo formado a semelhante respeito. Meu desejo é o mais natural possível; é, por isso, trivial. Eu quisera que cessasse todo o motivo de repugnância, que traz o senhor e minha cunhada separados; quisera que voltassem a viver como cônjuges de condição distinta. Mas sua mulher insiste em não querer tornar à sua companhia, e dá razões em que assenta a recusa. Foi antes sua vítima do que sua mulher; antes escrava do que vítima, o que quer dizer que foi vítima duas vezes.

— Não foi tanto assim;

— Ela o diz; eu de nada sei, a não ser o que ela conta.

— O que ela sofreu muitas pessoas que moravam no Pará poderão atestar em qualquer tempo que seja preciso.

Estas palavras foram ditas por Eugênia, que viera tomar parte na conferência.

Em seu rosto, ordinariamente banhado em franca expressão de jovialidade, não se via impressa somente a tristeza que de manhã trazia, mas também certos tons de desgosto, que eqüivaliam às primeiras manifestações do ódio incipiente. Que coração, por grande que seja, não será capaz de acender-se em paixões hostis diante do sacrifício de um dos seus primeiros afetos?

Bezerra não se demorou em confutar aquele pensamento.

— Há muitos difamadores e intrigantes por toda a parte. Eu não nego o que na família de minha mulher ninguém ignora; Não fui mau nos primeiros tempos depois do meu casamento; o que tive foi pouco juízo. Maurícia era por esse tempo muito moça, e não tinha mais juízo do que eu.

— Minha irmã - acudiu Eugênia, atalhando a proposição de Bezerra - sempre foi muito ajuizada.

— Em minha companhia - prosseguiu Bezerra - deu provas de caprichosa e tenaz. Contrariou por diversas vezes minhas determinações; alimentou, em lugar de apagar, o incêndio que as minhas pequeninas loucuras acenderam entre nós. Mas depois e uma separação de três anos, depois do que eu e ela temos sofrido, depois de sua resignação e do meu arrependimento, que razão poderá justificar a sua tenacidade em permanecer fora da única companhia digna da mulher casada - a do seu marido?

— Quem é que pode assegurar que a antiga desarmonia não se renove?

— Estou pobre, e já passei da metade da vida. Sinto em mim moderadas, senão extintas, todas as paixões que me exaltavam a imaginação, e me incitavam outro do que fui. Demais, tenho uma filha moça, e o dever de tratar do seu futuro.

A vida, que passara nos últimos tempos, cheia de peripécias, variada em episódios, atravessada de dificuldades, curtida de desgostos, desenvolvera em Bezerra o espírito, apurara as suas faculdades, e do que era uma habilidade comum fizera quase um talento.

Bezerra não se apartou mais da conferência. Aduziu várias e abundantes considerações para provar a alta conveniência que o termo do escândalo devia trazer. Falou com tanta fecúndia que chegou a comover Eugênia, e a abalar a opinião que tinha dele Martins. Foi fatal aquela tarde para Maurícia. No mesmo dia recebeu ela esta carta que Martins ditara e Eugênia escrevera.

Minha irmã do coração

Acaba de sair daqui teu marido, que jantou conosco.

Depois do jantar, sentou-se com Martins junto do salgueiro, e começou a contar a sua história.

Quanto tem sofrido aquele pobre homem! Não o avalias.

Não nos ocultou a menor circunstância da sua vida... As faltas, os erros, as culpas tudo nos referiu, pedindo perdões. Coitado! É digno de compaixão.

Eu, que estava muito prevenida contra ele, e que entrei na conversação, sem que ele o esperasse, inteiramente resolvida a combater tudo o que ele dissesse, não pude deixar de mudar de opinião quando lhe ouvi a relação dos seus infortúnios.

Não te agastes comigo, minha querida irmã, pelo que vou dizer.

A minha opinião é que teu marido tem padecido muito mais que tu, Tem padecido doenças, desamparos, desprezos, e até prisões; e, pelo que diz, está inteiramente arrependido dos males que te deu a sofrer, e deliberado a não ter dora em diante senão extremos de amor para ti e tua filha.

Não sou suspeita neste assunto. Bem sabes quanto eu detestava o homem que foi a causa dos maiores desgostos que temos curtido na família, depois da morte de nossos pais.

Mas ele mostrou-se tão contrito, que só merece que o acolhas de novo ao teu coração.

Por que não hás de viver com o teu marido, quando é ele que te procura?

Eu sei que tu estás muito bem aí; que na casa onde estás todos te estimam; mas lá diz o ditado — Casa alheia, brasa no seio.

Tem paciência, Maurícia. Sou mais velha do que tu, posso aconselhar-te.

(continua...)

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