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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

primeiro morador deste lugar. Seu padre Antônio já me fez esta justiça. Ainda ontem ele virou-se para mim, quando fui á vê-lo, em sua casa nova, e me disse que eu que tenho olho para conhecer lugar de boa moradia.

Por muito tempo levaram os moradores velhos a praticar neste sentido do novo morador. Da casa passaram ao homem físico, e do homem físico ao homem moral. Nada disseram dele na ausência que não pudesse ser dito na presença. Ainda hoje a maledicência não é qualidade característica do povo; naqueles tempos ainda o era menos.

O que Francisco disse do padre, foi que sua palidez e sua magreza indicavam que ele perdia noites de sono no serviço de Deus; Marcelina acrescentou que seus olhos pardos e como quebrados, seus sorrisos tristes, suas palavras simples revelavam consciência limpa, desprezo pelo mundo e bondade de coração. Francisco ajuntou que já uma vez em Olinda tinha visto um frade com o qual muito se parecia o padre Antônio, por sua estatura média, a cabeça grande, a testa larga, o rosto comprido, as faces descarnadas. Enfim Marcelina, recordando-se de uma novena na igreja do Senhor-dos-martirios, disse que a voz fraca e branda do sacerdote que fez ai uma pratica ao povo, era a mesma do padre Antônio.

Nem o marido nem a mulher andavam longe da verdade. O padre Antônio tinha sido frade, e foi provavelmente no tempo em que ainda o era, que se encontrou com ele o matuto. Um ano depois de secularizado, de passagem para Paraíba, aposentou-se no convento do Carmo em Goiana, aonde o foi convidar para dirigir a novena dos Martírios um negociante que o conhecia quando ele pertencia á recoleta do Recife. É natural que ai o tivesse ouvido Marcelina.

Eles não estavam também longe da verdade no tocante ao moral do padre Antônio. Grande era a sua humildade, publica a sua piedade, notória a sua benevolência, de que todos davam noticia no Recife, em Olinda, e na Paraíba, donde viera para Goiana, fazia poucos meses. Com serem frades, gente de seu natural maldizente – estes sim – os do Carmo de Goiana que o conheciam, nada contavam dele que o desabonasse. Só um deles – vejam o que são frades – explicava a secularização do padre Antônio dizendo que, realizando-a, não o fizera ele com outro fim que o de desimpossibilitar-se para herdar muitos mil cruzados de uma tia solteirona que lhe votava grande afeição. O certo é que a tia morreu, e o padre foi o único herdeiro da fortuna deixada.

O que o padre Antônio era, quais os seus sentimentos e dotes naturais, sua piedade, seu intimo ver-se-há melhor pela presente narrativa.

Lourenço sentiu inclinarem-se para o sacerdote os seus afetos, e teve por ele instintivo respeito. Por sua vez, o padre Antônio, que parecia saber já a historia do rapaz, não perdia ocasião de o encaminhar para a honestidade e a virtude com a satisfação que enche o coração do varão reto quando se lhe depara a quem beneficiar.

Lourenço parecia tão mudado, seus sentimentos eram tão diferentes dos que trouxera da povoação para a estrada, que dificilmente o padre Antônio acreditou tivessem sido praticadas pelo rapaz as feias ações atribuídas ao menino.

- Como é possível que a gente se transforme de semelhante modo? Dizia ele uma vez a Francisco. Ainda se tivesse recebido depois desses desatinos saudável educação...

- Pois é o que digo a seu padre – respondeu o matuto. Lourenço parecia ter o inimigo no couro. Eu nunca vi menino tão endiabrado. Agora, quanto a ensino, o que ele recebeu foi o que lhe deu minha companheira; e parece que não foi mau, porque o rapaz já está outro.

- Bom ensino foi o que lhe deu tua mulher, Francisco. As mulheres são muito próprias para isso. Quando elas querem, ninguém tem melhores meios de endireitar as voltas de uma índole torta e defeituosa.

- Dai a pouco, o padre, como se tivera um pensamento súbito, uma resolução heróica, acrescentou:

- Quero prestar a vocês um serviço, que não é preciso me agradeçam, visto que tenho o dever de proceder assim. Quero completar a obra que levaram tão adiante. Vou ensinar a Lourenço as primeiras letras. Lourenço, que já está bom, ficará melhor. Que dizes?

- Ho, seu padre! retorquiu o matuto, cujo semblante pareceu iluminar-se do reflexo de prazer que lhe vinha do intrínseco da alma. Não tenho expressões para agradecer a vosmecê tamanho beneficio. Quem me dera ver meu filho lendo carta-de-nomes. Eu já me contentava com isso só, porque quem lê carta-de-nomes, pode chegar a ler um livro e escrever umas regras no papel. Deixa o rapaz, por minha conta, Francisco. Hei de ensinar-lhe a ler e a escrever. Não é preciso que te mostres desde já tão agradecido por um serviço que ainda não fiz, e que, se grande valor deve ter para quem o recebe, nada custa a quem o faz; antes é seu dever presta-lo. Vai para tua casa e dize lá á tua mulher que todos os dias logo cedo – comecemos segunda-feira – mande cá o rapaz a passar comigo algumas horas. Não é preciso mais. - Seu padre...seu padre... Deus é que lhe há de pagar esta obra de caridade.

(continua...)

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