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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Quando Luisinha, da areia do rio onde se sentara a descansar, se dispunha a levantar-se para tornar à casa, deu com os olhos em um homem que da borda do mato a observava em silêncio com tal interesse que parecia querer atraí-la a si com a vista.

Sem demora correu ela ao pote, mas já foi tarde. Formando um pulo do outro lado do rio onde estava, o desconhecido veio cair no mesmo instante entre ela e a vasilha, sem perder, no rápido vôo, uma só das armas com que se achava apercebido.

— Em vão, meu bem, pretendes fugir-me. Antes que o diabo esfregasse um olho, eis-me aqui ao pé de ti, disposto a não te deixar ir embora senão por minha livre vontade.

O sítio era inteiramente deserto, e as trevas da noite não tardavam a envolver de todo a natureza.

Luisinha, lançando os olhos pela margem afora, não viu viva alma. Teve então tamanho medo, que involuntariamente caiu sentada aos pés do terrível desconhecido. Lembrou-se de gritar por socorro, mas logo viu que seria inútil esta tentativa, visto que as suas vozes se perderiam no vasto ermo onde unicamente ecoava o coaxar dos sapos e das rãs, o silvo das cobras, o canto agoureiro dos bacuraus.

— Meu Deus ! — exclamou ela. — Não haverá um cristão que me valha nesta aflição ?

— Ninguém, ninguém te valerá, bonita rapariga — respondeu o desconhecido, levantando-a por um braço e como querendo arrastá-la na direção da língua de terreno por onde se podia ir, a pé enxuto, à margem fronteira.

— Mas, meu senhor — tornou Luisinha achando em si mesma coragem de que nunca se julgara capaz — , por tudo quanto é sagrado lhe peço que me deixe ir embora. É quase de noite, e, se me demorar mais tempo aqui, arrisco-me a encontrar algum malfeitor que me ofenda no caminho.

— Queres maior malfeitor do que eu ?

— Vosmecê não é um malfeitor. Vosmecê veio caçar por estas bandas, e, como me encontrou neste ermo, está-me metendo medo para divertir-se à minha custa. E creio até que havia de defender-me se alguém quisesse fazer-me mal.

— Certamente. Nenhum gavião seria capaz de tirar-me das unhas a minha formosa juruti. Ora, vem comigo; não tenhas medo. Atravessamos por este limpo, ganhamos a capoeira, subimos pela aba da serra e...

— Deus me livre ! — exclamou Luisinha assaltada por novos terrores.

— Olhe: se você não quiser vir por bem, vem por mal — disse o desconhecido.

— Por mal ? E onde está Deus ? — interrogou Luisinha, elevando todo o seu espírito aos pés daquele que está em toda parte para acudir aos atribulados que o invocam com sincera confiança. —Nem por mal nem por bem. Eu não vou com vosmecê ainda que me custe a própria vida. Eu sei que Deus me está ouvindo de dentro deste mato, de cima deste céu. Ele há de lembrar-se de mim.

Diante da firmeza na realidade admirável, com que a frágil moça respondeu à sua ameaça, o malfeitor sobresteve involuntariamente. Tornando logo em si, porém, continuou com certo disfarce de mau anúncio:

— Ora, menina, deixe-se de asneiras e vamos para diante enquanto o caso não fica mais sério. Se você é bonita, eu também não sou feio; assim, podemos ter filhos galantes como os têm os passarinhos no seio da solidão.

—Meu Deus, meu Deus, compadecei-vos de mim enquanto é tempo! — exclamou ela quase vencida de terror.

Então, à luz crepuscular que enchia a planície como uma neblina, lobrigou Luisinha um vulto que se dirigia para o lugar onde ela se achava com o malfeitor. Não foi preciso mais para que recrudescesse o seu valor que a ia desamparando.

— Cuidas que não vejo quem ali vem ? — perguntou o desconhecido, apontando o volto que, como vinha pelo rasto da moça, com pouco mais estaria com eles. — Eu podia agora mesmo meter-me contigo pelo mato adentro. Se tentasses gritar, tapava-te a boca, e ninguém saberia o teu fim. Mas quero ficar, para em vez de uma, levar em minha companhia duas mulheres para o mato, onde há grande necessidade desta fazenda.

— Estou aqui, minha mãe, estou aqui — gritou Luísa quase ébria de prazer pela sua salvação, que teve por indubitável desde que na mulher recém-aparecida reconheceu Florinda.

O malfeitor, porém, seguro de seu poder, nem se moveu, nem se alterou sequer; e para dar testemunho irrecusável de que não fazia caso do inesperado adjutório, chasqueou de Florinda, por se apresentar armada com um cacete e um facão.

Querendo Luisinha correr ao encontro da viúva que, tendo ouvido as palavras da rapariga, fora em seu socorro com gestos e meneios de louca, o desconhecido, cujos olhos cobriram de repente com uma expressão indescritível a pobre vítima, não lhe consentiu arredar o pé de junto de si.

— Não irás — disse rudemente, assentando a mão sobre o braço da moça com tanta força e violência, que a ela se afigurou que ele lhe tinha dado um golpe com o coice da arma.

Florinda passava por ser a mulher mais forte de toda aquela ribeira.

(continua...)

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