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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— Isso é agora; mas depois que ficar homem...

— Ah! isso sim; depois que eu for homem, hei de fazer o que eu entender, e Deus nos há de ajudar, que acabados os meus estudos nunca mais nos havemos de separar, sou eu que to juro Margarida.

Depois os dois, continuando a passear pela vargem, a cada passo evocavam uma lembrança de seus brincos e travessuras infantis.

— Lembra-se do juramento que aqui me fez?... perguntou Margarida parando subitamente em certo lugar.

— Eu? qual... juramento?...

— Bem que se lembra; está se fazendo esquecido.

— Palavra, que não me lembro...

— Não creio... Pois não me jurou aqui que havia de ser eu a primeira pessoa que havia de confessar quando fosse padre?...

Padre!... a esta palavra fatal Eugênio sentiu um arrepio e estremeceu, quereria nunca mais ouvi-la em dias de sua vida, principalmente dos lábios de Margarida.

— Ora! ora! que lembrança essa agora!... replicou o moço com um sorriso desapontado e procurando disfarçar a sua perturbação — como é que eu hei de me lembrar mais dessas tolices de criança!

— Tolice! por quê?... pois não é tão bonito ser padre?...

— E é mesmo, e eu na verdade tinha muita vontade de o ser.

— Como é isso, Eugênio?... tinha? então já não tem mais?...

— A falar a verdade, Margarida... — respondeu Eugênio com hesitação — não sei o que te diga... hoje em dia não me acho com muito jeito para padre, não.

— Por quê?...

— Ora por quê?... por quê? pois você não adivinha?

— Nunca fui adivinhadeira...

— Pois está bem claro. Para ser padre é preciso que eu não olhe mais para você, que não te queira mais bem, e que nem me lembre de você... e isso é coisa que eu não posso, é teimar à toa, não posso fazer.

— E o mais é que é verdade, Eugênio; você tem razão. Eu também — para que hei de mentir?... —, eu também, cá comigo, não tinha lá grande vontade que você fosse padre, não; para sempre é uma coisa que mete respeito, e até faz medo. Oh! meu Deus! e como é que eu havia de me acostumar a ter respeito a você?... Para isso era preciso deixar de te querer bem, e isso eu não posso mesmo, e de mais a mais não quero ser mula-sem-cabeça, não... cruz! Deus me defenda!

— Ah! ah! ah! — como é isso, Margarida; mula-sem-cabeça?... exclamou o rapaz soltando uma risada.

— Você ri-se?... pois não sabe que toda a mulher que quer bem a um padre, vira mula-sem-cabeça?...

— E você ainda acredita nessas bruxarias?...

— Sim senhor!... minha mãe já viu, e diz que na vila há uma que ela conhece bem. Diz que é um bicho muito feio, do feitio de uma besta, que só tem três pés, dois atrás e um adiante, e não tem cabeça. Todas as noites de sexta-feira para sábado anda rondando os becos, correndo o seu fadário e assombrando a gente. Mamãe tem visto ela muitas vezes batendo a ferragem e abanando as orelhas pelos cemitérios.

— Ah! ah! ah! bravo! essa ainda é melhor! Continuou Eugênio sempre a galhofar. — Pois se ela não tem cabeça como pode ter orelhas?...

— Ora!... eu sei lá?... é que terá as orelhas no pescoço.

— Pois bem, Margarida; não tenha susto, só para que você não seja mulasem-cabeça, eu te protesto que não hei de ser padre: e não hei de, e não hei de:

está decidido!

— Mas seu pai e sua mãe, que querem por força...

— Meu pai e minha mãe, acho que não me hão de querer obrigar, se eu disser que não quero ser padre.

— Mas eles fazem tanto gosto nisso! coitados! hão de ficar tão aborrecidos, se você não quiser se ordenar.

— Paciência! eles se hão de consolar.

— Pois está dito — disse Margarida depois de um breve instante de silêncio e reflexão. — O nosso antigo juramento está desmanchado. Agora em lugar dele havemos de fazer outro...

— Qual é?...

— É que você sempre, sempre me há de querer bem...

— Isso nem precisa jurar...

— Ande lá!... e que acabados os seus estudos nunca mais há de se apartar de mim.

— Juro!... Juro por esta cruz! — disse com emoção o moço cruzando os dedos sobre a boca.

— E eu juro a mesma coisa — repetiu Margarida fazendo o mesmo sinal.

O anjo dos puros e santos amores sorriu-se àquelas juras, e depois de ter bafejado com os leques de suas asas de ouro e seda aquelas duas frontes juvenis e cândidas, remontou seu vôo para o empíreo, enquanto o austero e sombrio gênio da beatice, que procurava disputar-lhe o coração do mancebo, pesaroso, bateu as fuscas asas, e foi-se esconder entre as ruínas de algum mosteiro abandonado.

Naquele momento vinha chegando Umbelina; os dois jovens mudaram de conversa.

Já entre eles havia um segredo.

CAPÍTULO X

Assim passou-se mais de um mês, durante o qual a assiduidade de Eugênio em casa de Umbelina não se interrompeu. A antiga amizade se reatou, senão com a mesma familiaridade e abandono da quadra infantil, todavia com mais ardor, com mais energia e paixão.

(continua...)

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