Por Bernardo Guimarães (1872)
Leonel, assim se chamava o recém- chegado, tornou-se logo extremamente popular. Além de seu agradável exterior e da afabilidade de suas maneiras, era dotado de prendas e qualidades que o tornavam apreciado e desejado em todas as companhias, tocava admiravelmente violão e cantava com muita graça as modinhas e lundus da sua terra. Além de tudo era sumamente liberal, e tratava-se com luxo que, relativamente ao lugar, podia-se chamar suntuoso.
Não tardou muito que o Leonel fosse também apresentado em casa do Major. Como sabemos, este costumava dar em sua casa algumas partidas ou pequenos saraus para dar alguma diversão à melancólica disposição do espírito de sua filha. Com o aparecimento de Leonel, essas partidas, que já iam esmorecendo pelo nenhum resultado que produziam no espírito de Lúcia, recomeçaram com nova animação. O Major era calculista, e preparava as cartas para um grande jogo. Contava que a bela figura, as delicadas maneiras do jovem baiano não deixariam de produzir impressão no coração de sua filha, e a curariam para sempre de sua antiga e louca paixão. Por outro lado estava convencido, e não sem razão, que ninguém que tivesse coração de moço, podia chegar-se a Lúcia sem sentir a irresistível influência de seus lindos olhos; a experiência de todos os dias o estava confirmando. Leonel, que por sua conversação viva e alegre, por suas prendas e belas maneiras era a alma daquelas pequenas reuniões, não tardou com efeito em sentir o mágico influxo do brilho daqueles grandes olhos aveludados, daquele meigo e melancólico sorrir. Concebeu logo por ela uma paixão ardente que não podia mais dissimular.
Cerca de quinze dias depois que Leonel aparecera pela primeira vez em casa do Major, os dois, debruçados a uma janela em casa deste, travaram entre si a meia voz a seguinte conversação:
-senhor Major, não devo ocultar- vos por mais tempo que concebi por sua filha o mais ardente e extremoso amor, se é que já o não tem adivinhado. Seria para mim a suprema felicidade, se eu pudesse ganhar também o coração dela, como ela soube conquistar o meu. Desejaria saber se o senhor acolhe bem este meu sentimento, que lhe afianço é puro e sincero, para saber se devo ou não continuar minhas visitas à sua casa.
- Eu sempre o receberei com os braços abertos- retorquiu o Major com vivacidade- e de todo o coração folgo que minha filha inspirasse esses sentimentos a um moço tão distinto e de tão belas qualidades. Mas ela? . . . sabe se lhe corresponde? o senhor não lhe fez ainda declaração alguma? . . .
- Ela. . . é sempre afável e boa para comigo; mas acho- a sempre tão fria, tão reservada, que não sei o que deva pensar.
- Não lhe dê isso cuidado, senhor Leonel, é efeito do acanhamento; foi criada na roça, e ainda não sabe desenvolver- 0se em uma conversação. Mas não desanime por isso; quando se familiarizar mais um pouco com o senhor, há de perder esse acanhamento, eu lhe afianço. Dá-me muito gosto em continuar a freqüentar esta sua casa, e posso assegurarlhe que Lúcia será sua. . .
- Assegura? mas, meu Deus! por que modo? se quer prevalecer-se da autoridade paterna para impor uma aliança, que talvez lhe desagrada, oh! nisso nunca consentirei.
- Eu, senhor Leonel, impor? . . . nunca! Prezo muito a minha filha para obriga-la a casar com quem quer que seja, contra sua vontade, mas não creio possível que ela rejeite. . .
nesse momento tocou a música, e uma menina, chegando-se aos conversadores, chamou- os para dançarem ou verem dançar. . .
- Vá dançar com ela, disse o Major; ânimo e perseverança! sem isso nada se arranja neste mundo.
VI - A RECUSA
No dia seguinte ao desta conversa, o Major foi bem cedo ter ao quarto de sua filha.
- Então, minha Lúcia- foi logo dizendo sem mais preâmbulo- que tal parece esse belo moço baiano, que ultimamente tem freqüentado a nossa casa? . . .
- Que tal me parece? . . . - disse Lúcia com embaraço-tão cedo, uma tal pergunta? - acrescentou sorrindo. - Palavra, que não sei lhe responder, meu pai.
- Deixa-te de visagens; responde-me. Que tal te parece o senhor Leonel? . . .
- O que parecem todos, um moço bem parecido, de muito boas maneiras, e que talvez seja muito boa pessoa.
-talvez, não; é mesmo um excelente moço e, além de tudo, muito rico.
-mas, a que vem tudo isso, meu pai?
- A que vem? ainda me perguntas? pois sabe que esse excelente moço, esse belo e rico baiano, foi a tua boa fortuna que o trouxe aqui para teu marido.
- Já esperava por isso-murmurou Lúcia dentro d’alma; é mais um pretendente! Que praga que nunca se extingue! Para meu marido! - exclamou ela- ah! meu pai, por piedade, não me fale nisso.
- Sim, para teu marido- replicou o Major com enfado- rejeitarás ainda este?
-meu pai não lhe tenho dito tantas vezes que não quero, que não devo me casar por ora?
-mas com este, minha filha! . . . olha bem o que fazes. rejeita-lo é dar um coice na fortuna.
- E aceitar este ou outro qualquer, meu pai, é cravar-me um punhal no coração. Tenho pressentimentos de que, se me casar, serei muito desgraçada.
- Criança! . . . deixa-te dessas loucas apreensões; essa repugnância há de passar com o tempo.
- Nunca, meu pai, nunca passará.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.