Por Bernardo Guimarães (1872)
– Sim, senhor Roberto; atalhou Eduardo acudindo ao embaraço do pobre rapaz e adivinhando-lhe o pensamento. Juro-lhe pelas cinzas de meu pai, que sinto pela sra.d. Paulina muita afeição, mas que esta afeição em nada se parece com amor; e juro-lhe também, que nunca em dias de minha vida porei o menor embaraço, nem servirei de estorvo por qualquer modo que seja ao seu amor, e ao seu futuro casamento com ela. Bem sabe que sou paulista, e quando um paulista jura... nem é preciso jurar; basta dar sua palavra, nem que lhe cortem a cabeça, é capaz de faltar a ela.
– Muito bem!... viva isso, meu amigo!... assim é que eu gosto de homem. Toque aqui, havemos de ser sempre amigos... E adeus! não quero aborrecê-lo mais. Boas-noites.
Já era noite fechada. Eduardo recolheu-se a seu quarto cada vez mais firme na resolução de retirar-se o mais breve que lhe fosse possível daquela casa, onde o acaso o havia conduzido para ser sem o querer a chave do enlace de um drama, cujo desfecho poderia ser fatal.
Quanto a Roberto, esse respirava enfim desafogado, com o espírito livre do pesadelo que o perseguia, isto é ciente de que um homem como era o senhor Eduardo, de tanto mérito e galhardia, longe de ser seu rival morria de amores por outra.
Portanto apenas dele se despediu andou por todos os cantos da casa em que podia penetrar, à cata da prima a fim de expandir um pouco com ela o contentamento de que se achava possuído. Debalde: a pobrezinha tinha-se encerrado em seu quarto e nessa noite ninguém mais lhe viu o rosto. E o simples do primo não compreendia, que aquilo mesmo que tanto prazer lhe causava, levara angústia mortal ao coração de sua prima.
Daí a dois dias Eduardo despedia-se da casa do sr. Joaquim Ribeiro, depois de se trocarem de parte a parte os mais vivos protestos de eterno reconhecimento e amizade, e depois de ter Eduardo renovado em particular a Roberto o juramento de nunca ter pretendido e nem pretender para o futuro ao amor, nem à mão da senhora d. Paulina.
Ao apertar na despedida a mão desta, sentiu que estava gelada, e que a agitava um tremor convulso, que ela procurou disfarçar retirando-a prontamente. Eduardo, como fica dito, sentia por ela a mais viva e terna simpatia; compungiu-se dentro da alma, e não pôde conter as lágrimas que lhe rolavam pelas faces. Paulina as viu e não pôde chorar, porque a angústia lhe havia secado a fonte das lágrimas.
Da janela de seu quarto ela viu Eduardo sumir-se além das últimas colinas. Nesse momento os ouvidos lhe zuniram, e seus olhos se escureceram.
Pareceu-lhe que o túmulo a devorava em vida, e que sua alma se afogava nas trevas da noite eterna.
Capítulo VII
O casamento
Era uma bonita e radiante tarde de sábado.
A Vila Franca do Imperador, linda e risonha povoação da província de S. Paulo, – como que se espanejava alegre e faceira em cima de sua colina aos últimos raios do sol de dezembro.
Era véspera do dia de descanso para os que verdadeiramente trabalham, de prazer para os patuscos e folgazões, missa e rezas para os padres e devotos.
Na verdade descansa-se, reza-se e diverte-se muito em todos os domingos. Mas as tardes e noites de sábado sabem muito mais do que as de domingo. Naquelas espera-se pela festa, o que dizem ser o melhor dela; nesta acaba-se com ela, o que não deixa de ser triste.
Ninguém deita-se da cama mais aborrecido em uma noite de domingo do que o estudante, o lente, o empregado público, o jornaleiro, enfim do que todo mundo – católico, bem entendido, – à exceção do soldado, do escravo e outros miseráveis, para os quais não há domingo nem dia santo, e do imperador, do duque, do frade e outros, para os quais todo o dia é dia santo.
Eis a razão por que se escolhem de ordinário as tardes e as noites de sábado para os casamentos, batizados, bailes, concertos, espetáculos, enfim para tudo quanto é regozijo.
No largo da matriz da Franca havia mais um motivo para a efervescência da alegria e do prazer.
Celebrava-se nesse dia com muita pompa e arrojo o casamento de uma moça pertencente a uma das mais ricas e distintas famílias da Franca. Os sinos repicavam alegre e incessantemente entre as mãos de encarniçados rapazes; uma imensidade de foguetes e girândolas estouravam nos ares, e toldavam a atmosfera com uma abóbada de fogo e fumo. À porta da igreja restrugia uma numerosa banda de música. Na igreja, pelo adro, pelas ruas não se via senão gente alegre, alardeando asseados e garridos trajes domingueiros, pois em toda a vila não ficou uma pessoa, que pusesse gravata ao pescoço, que não fosse convidada. Parecia aquele noivado uma festa pública, e fazia recordar as bodas de Gamacho.
A moça era formosa por sua rara beleza, e fora o alvo cobiçado e disputado por muitos e guapos pretendentes de fora e do lugar. Era filha do major José Ferreira, um dos mais abastados fazendeiros de toda a comarca e chamava-se Lucinda.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.