Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
As composições do padre José Maurício eram clássicas, magistrais, e ainda hoje se admiram. O príncipe regente estimava muito o grande músico brasileiro. Em uma dessas festas grandiosas que então se celebravam na capela real, o Sr. D. João VI sentiu-se tão arrebatado, ouvindo executar a música de uma nova missa do padre José Maurício, que uma hora depois o mandou chamar ao paço, e aí, em plena corte, o encheu de louvores, e tirando da farda do conde de Vila Nova da Rainha o hábito de Cristo, com a sua própria mão colocou-a no peito do seu estimado e eminente mestre de capela.
A boa vontade e os sentimentos generosos do rei nem sempre eram imitados pela sua corte: o padre José Maurício teve nela desafeiçoados, especialmente depois que chegou de Lisboa o mestre Marcos Portugal, que se tornou bem depressa seu decidido rival. Os profissionais estão no caso de julgar qual dos dois tinha mais merecimento, e as boas e conscienciosas autoridades na matéria sempre ouvi darem preferência ao compositor brasileiro.
Em certa ocasião, o padre José Maurício e Marcos Portugal tiveram de medir artisticamente as suas forças.
Devia-se solenizar na fazenda de Santa Cruz a degolação de São João Batista. O rei quis música nova, e os seus dois mestres de capela foram chamados a satisfazê-lo.
Era uma luta artística que ia ter lugar, e em resultado Marcos Portugal empregou um mês para compor as matinas, ao tempo que e padre José Maurício compôs em quinze dias uma grande missa e credo que ainda hoje se executam com aplausos dos mais profundos entendedores.
Neukomm, o discípulo predileto de Haydn, o compositor daquele famoso concerto que foi executado por três mil artistas na inauguração da estátua de Gutenberg, Neukomm, que viera para o Rio de Janeiro com a colônia artística dirigida por Lebreton, dizia a quem o queria ouvir que o padre José Maurício era o primeiro improvisador de música que ele tinha conhecido, e a propósito, contava o seguinte fato.
Em uma das muitas reuniões que tinham lugar na casa do marquês de Santo Amaro, faziam-se provas de diversas músicas que Neukomm acabava de receber da Europa. O célebre Fascioti cantou uma barcarola que foi ardentemente aplaudida, e o padre José Maurício, que estava ao piano, começou em seguida a variar sobre o motivo, e de arte tal o fez que todos e ele próprio esqueceram-se do tempo que passava, e no meio de geral admiração deram por si ao toque da alvorada.
Esse mesmo Neukomm, ao receber a notícia da morte do padre José Maurício, exclamou chorando: “Ah! os brasileiros nunca souberam o valor do homem que possuíam!”
Prometi não divagar, e talvez pensem que tenho divagado:
protesto e juro que não. Tratando de descrever, devo dizer o que vejo, e ao estudar a capela imperial, não me é possível deixar de ver nos púlpitos e no coro os vultos venerandos desses homens ilustres que são glórias nacionais.
São Carlos, Sampaio, Mont’Alverne e José Maurício são monumentos.
Acabei de referir-me, ainda há pouco, às festas pomposas que se faziam na capela real no tempo da regência e do reinado do Sr. D. João. Com efeito, eram elas notáveis pelo brilhantismo e magnificência com que as mandava celebrar aquele príncipe eminentemente religioso.
Não tive, porém, ocasião de falar de uma solenidade piedosa que tinha em parte lugar na capelinha do Senhor dos Passos, que é, como disse, uma dependência da capela imperial.
Na segunda sexta-feira da quaresma costuma, como ainda hoje se observa, sair à rua, partindo da igreja da Misericórdia, a procissão do Senhor dos Passos; mas a sagrada imagem que principalmente se venera nessa procissão não é do templo donde sai naquele dia.
Na noite da véspera dessa sexta-feira, o Senhor dos Passos da capelinha de sua invocação era solenemente conduzido pelo rei e pela corte para a igreja da Misericórdia, e este ato de devoção continuou a ser praticado pelos augustos filho e neto do Sr. D. João VI.
Entretanto, cumpre não atribuir o começo deste devoto costume à época da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Muito antes de 1808, primeiro os governadores e depois os vice-reis, eram os que com os oficiais de maior patente levavam sobre seus ombros a imagem do Senhor dos Passos, na quinta-feira à noite, da capelinha do convento do Carmo para a igreja da Misericórdia.
Outrora, a procissão saída na sexta-feira, parava e fazia as orações dos sete passos diante de oratórios que havia nas esquinas de certas ruas, e de alguns dos quais ainda hoje restam vestígios. No fim da pro cissão, a imagem do Senhor recolhia-se, como atualmente se recolhe, à capela imperial.
Achareis que vos estou contando cousas que todos sabem. Ah!
lembrai-vos que os tempos que vão passando levam consigo, pouco a pouco, as
usanças, os costumes, as idéias e também algumas cerimônias religiosas dos
nossos antigos, e que, portanto, convém ir conservando a memória de todos esses
traços que caracterizam e nos mostram as feições do nosso passado.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.