Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
O Sr. Claudino imagina-se jogando o Zansquenet tres noites por semana, e parando contos de reis em todas as damas ; e outras tres noites vê-se cercado de jovens espirituosas que o admirão, que o festejão, que o amão, e que o fazem atraiçoar a sua velha.
E quem paga tudo isto... as glorias do capitalista — a independencia do estadista — as orgias do dissoluto... é a fortuna de trezentos contos de reis de D. Violante.
Ah !... se as velhas tivessem juizo!...
A meditação dos três sublimes calculistas tinha durado meia hora.
Hão-de talvez pensar que foi pouco tempo para tão longas reflexões.
Ora !... em menos de meia hora também um deputado ou um senador escreve em cima da coxa uma emenda ou um artigo additivo, que põe em desordem a administração publica, ou em largo tributo o suor do povo.
Defronte dos tres calculistas, D. Violante cuidadosae attentaos observava, provocando a cada momento a vaidosa sobrinha, que nem sequer tolerava a idéa de uma lucta seria com sua velha tia.
Pobre moça! acreditava mais no seu espelho do que no cofre de ouro de D. Violante.
_ Menina! disse a velha; quem já teria ido dizer aos teus tres pretendentes que eu sou solteira e possuo trezentos contos de reis?...
— Porque, minha tia ?
— Ora porque!... não vês como elles me estão devorando com os olhos ?...
— Estão admirando a sua touca, minha tia, respondeu a moça sorrindo.
— A touca, e também os oculos, embora ; mas qualquer dos três morre já de amores por mim.
Clemência olhou para Violante, e vendo a seriedade com que ellafallava, não poude conter uma risada.
— Ah! tu zombas de mim, infeliz vaidosa? pois bem : eu queria poupar-te ainda esta noite ; uma vez porém que me desafias, juro-te que te has de retirar do baile com o desespero no coração.
— Que vai então fazer ?...
— O que tu fazes ; corresponder aos requebros e cumprimentos dos teus tres namorados.
— Minha tia... veja o que faz... não se exponha ao ridiculo...
— Que ridiculo! a riqueza é uma cousa muito seria, minha sobrinha, e ninguém, ri de um cofre de ouro, ainda mesmo que elle faça caretas.
— Já vio algum cofre fazer caretas ?...
— Tola, o cofre de ouro sou eu ; e quem te vai roubar os tres namorados não é a velha, é o seu dinheiro.
— Minha tia faz umaidéa dos homens...
— Amais justa que é possível : o mundo ou a sociedade, Clemência, transformou-se em um immenso mercado, onde tudo se compra e principalmente maridos.
— Ah! meu Deus !
— É verdade : não dansas hoje com aquelles senhores?...
— Danso : a terceira quadrilha com aquelle que está calçando as luvas...
Era o Sr. Antônio.
— A quarta com o que está roendo as unhas...
Era Claudiano...
— E a quinta com aquelle que está com as mãos sobre a barriga.
Era o Dr. Ambrosio : o futuro estadista, o homem de bossa politica, que já então afagava a barriga!!!
A velha começou a cumprir a sua palavra e com horriveis tregeitos e mal arrajados sorrisos foi pagando os olhares enternecidos, que sobre ella dardejava cada um dos tres apaixonados de Clemência.
A terceira quadrilha ia principiar.
O Sr. Antônio veio offerecer o braço a Clemencia, e aproveitou a occasião para dirigir um eloqüente cumprimento á velha, que lh'o pagou com uma phrase animadora.
Antônio e Clemência collocárão se na quadrilha perto de D. Violante, que ficara sentada : Antônio voltando-se um pouco podia vêl-a e até fallar-lhe : esqueceu-se pois das contradansas e do seu formoso par...
Clemência a principio divertio-se com a contemplação em que estava o seu cavalheiro ; em breve porém acabou por irritar-se.
O Sr. Antônio perdia pelo menos dous compassos em cada contradansa ; uma vez offereceu a mão a D. Violante em vez de offerecel-a a Clemência, e outra atirou desastradamente com o leque da linda moça no meio da sala.
Clemência, acabada a quadrilha, sentou-se visivelmente incommodada.
— Que tens, menina ?... perguntou-lhe a tia.
— Eu, nada... mas aquella homem é mais grosseiro do que eu podia suppôr...
— Qual grosseiro ! é a paixão que já lhe faz andar a cabeça á roda,..
— Paixão por quem, minha tia !
— Pelo meu dinheiro, está visto : olha, a tua rival não sou eu, nem a minha touca; é a minha fortuna.
Clemência voltou o rosto.
Na quarta quadrilha a formosa moça foi ao menos mais feliz : Claudiano, apezar de lançar de vez em quando amorosas vistas para Violante, portou-se como um cavalheiro delicado e cheio de cortezia : também, acabada a quadrilha, Clemência pagou-lhe com, usura concedendo-lhe um longo passeio.
No entanto, a cadeira cm que se sentava Clemência, foi por momentos occupada pelo Dr. Ambrosio.
— V. Ex. não dansa? perguntou elle á velha.
E, o que é mais, perguntou sem rir.
— Oh! não zombe de mim; respondeu ella, quem se animaria a dansar com uma velha ?...
— Velha!... exclamou o doutor; V. Ex. calumnia os seus trinta a trinta e cinco annos.
— Tenho sessenta e um, meu senhor.
— Sessenta e um! é incrivel!... mas também Ninon de Lenclos era moça aos oitenta annos, e creio que ainda dansava n'essa idade.
— Ora...
— Conceda-me V. Ex. a honra de uma quadrilha...
— Senhor!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.