Por José de Alencar (1874)
"Nunca ele será pai de uma geração forte e gloriosa, nem verá sua cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.
"Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão ainda maior do que o famoso guerreiro que todos admiram."
O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura, bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro.
Jurandir meteu a mão no vaso. O semblante sempre grave do guerreiro cobriu-se de um sorriso doce como da luz a alvorada; e seus olhos, mais contentes que dois saís, pousaram no rosto de Araci.
O camucim da constância continha um formigueiro de saúvas, que o pajé havia fechado ali na última lua.
Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam para dilacerar a primeira vítima que lhes caísse nas garras.
A dentada da saúva, que anda solta no campo, dói como uma brasa; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira.
Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro para espreitar-lhe o mínimo gesto de sofrimento.
Mas Jurandir sorria; e seus lábios ternos soltaram o canto do amor. De propósito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o gemido com o rumor do grito guerreiro. Assim cantou ele:
— A dor é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco da craúba, da qual o guerreiro fabrica o arco e o tacape.
"A juçara tem setas agudas mas Araci quando atravessa a floresta, colhe o coco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão.
"O ferrão da saúva dói mais do que o espinho da juçara; mas Jurandir acha o mel dos lábios de Araci mais doce do que o coco da palmeira.
"Quando Jurandir era jovem caçador, gostava de tirar a cutia da toca, embora o seu dente agudo lhe sarasse a carne.
"O ferrão da saúva não dói como o dente afiado; e Jurandir sabe que o pêlo dourado da cutia, não é tão macio como o colo de Araci.
"Jurandir despreza a dor. Seus olhos estão bebendo o sorriso da virgem, mais suave que o leite do sapoti. Sua mão está sentindo o roçar dos cabelos da virgem formosa."
Os anciões deram sinal para concluir a prova da constância; mas o guerreiro continuou o seu canto de amor.
— A cumari arde no lábio do guerreiro; mas torna mais gostosa a carne do veado assado no moquém.
"O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro d'alma.
"A saúva arde como a cumari e queima como o cauim; porém torna os beijos de Araci mais saboroso se o amor de Jurandir espuma como o vinho generoso. "Araci há de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe rasgar o seio.
"Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorriso de Araci lhe enche a alma de amor."
Foi preciso quebrar o camucim para que o guerreiro pudesse retirar a mão, de inflamada que ficara.
O grande pajé esfregou na pele vermelha o suco de uma erva dele conhecida; e logo desapareceu a inchação.
Faltava a última prova, chamada a prova da virgem.
As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do guerreiro, assim como a força de seu amor.
Nesta era que a virgem podia mostrar seu agrado pelo vencedor; ou livrar-se de um esposo, que não soubera ganhar-lhe o afeto.
Os cantores disseram
"Tupã deu asas à nambu para que ela escape às garras do carcará.
"Tupã deu ligeireza à virgem, para que ela fuja do guerreiro que não quer por esposo.
"Mas a nambu, quando ouve o canto do companheiro, espera que ele chegue para fabricar, seu ninho.
"A virgem, quando segue o guerreiro que ela prefere, pensa na cabana do esposo e corre devagar para chegar depressa."
Araci deixou a mãe, e avançou até o meio do campo.
O grande pajé colocou Jurandir na distância de uma muçurana, que cinge dez vezes a cintura do guerreiro.
Estrela do dia lançou para as espáduas as longas tranças negras que voaram ao sopro da brisa.
Arqueou os braços mimosos, vestidos com franjas de penas, como as asas brilhantes do arirama, e quando soou o sinal, desferiu a corrida.
Jurandir seguiu-a. Ele conhecia a velocidade do pé gentil de Araci, que zombava do salto do jaguar.
Nem que pudesse alcançá-la, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor, queria dever a esposa ao amor dela e não a seu esforço.
Disputaria Araci não só a todos os guerreiros das nações, como a todas as nações das florestas; só à vontade da própria virgem não a disputaria, pois a queria rendida e não vencida.
Mas sua glória mandava que ele, o chefe de uma grande nação, se mostrasse digno da formosa virgem, que o aceitasse por esposo.
Araci voava pela campina. Às vezes trançava a corrida como o colibri que adeja de flor em flor, outras vezes fugia mais rápida do que a seta emplumada de seu arco.
Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ela quisesse fugir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.
Jurandir abriu os braços e recebeu a esposa que se entregava a seu amor.
O guerreiro suspendeu a virgem formosa ao colo; e levou-a à cabana do amor que ele construíra à margem do rio.
As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana e matizavam o chão de flores.
(continua...)
ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.