Por José de Alencar (1870)
Cada filho é, pois, uma nova mocidade para a mulher. A mãe só envelhece, como a árvore, quando lhe estanca no seio a seiva, que devia despontar em renovos e viços. Que importam as rugas do córtice e as carcomas do tronco?
A flor é a eterna juventude; e o filho é flor.
Que lindo poldrinho o da Morena! Uma pelúcia de cor alazã, macia como a felpa de um cetim, vestia-lhe o corpo airoso e gentil. Tinha ainda certa desproporção das formas, que em sendo belas, como as dele, aumentam a graça da meninice.
Afastara-se Manuel para descansar o corpo sobre a grama. Enquanto festejava a baia seu poldrinho, sem nunca se fartar de o ver e possuir, dormiu o gaúcho um sono breve, mas profundo e reparador. Era tarde caída quando despertou.
Voltava a tordilha, guiando as selvagens coudelarias, que vinham felicitar a exilada pela sua boa volta aos cerros nativos. Os relinchos de prazer, as alegres cabriolas, não tinham que invejar ao mais terno agasalho da família que revê a irmã perdida. Se diferença houve foi a favor dos agrestes filhos dos pampas. Nenhum se lembrou que era mais uma fome para a comunhão. O cavalo é sóbrio e generoso.
Erguendo-se o gaúcho, dispararam os magoes, e sumiram-se por detrás de um cerro. A baia, porém, foi ter com as irmãs e conseguiu que tornassem. Outra vez apareceu o bando, mas parou em distância ao sinal do chefe, soberbo alazão, cuja estampa magnífica desenhava-se em miniatura no lindo poldrinho recém-nascido. O altivo sultão do selvagem harém avançou cheio de confiança.
Tinha a Morena contado o que por ela fizera seu benfeitor?
O pai do magote e o gaúcho saudaram-se como dois reis do deserto. Não houve entre eles afagos, nem familiaridades; mas uma demonstração grave de mútuo respeito e confiança.
Quanto, porém, às companheiras da baia, essas apenas viram o alazão aproximar-se do gaúcho, fizeram-lhe uma festa como não se imagina. Manuel recebeu-as a todas com a efusão e prazer que sentia por essa raça predileta. A umas alisava o colo, a outras penteava as clinas, ou amimava-lhes a garupa. E todas se espreguiçavam de prazer e trocavam sinais de grande afeição, como se fossem amigos de muito tempo.
Nunca Manuel sentira tamanho prazer. Achar-se no meio daqueles filhos livres do deserto: admirar de uma vez tão grande número de lindos e altivos corcéis; deleitar-se na contemplação das estampas mais elegantes e garbosas; admirar a casta em sua pureza, e nos mais belos tipos, enobrecidos pela independência e liberdade; há gozo que se compare a este para um peão?
O avaro, nadando em ouro, não teria as inefáveis emoções de Manuel naquele momento, ao meio dos magotes que o festejavam, escaramuçando em torno. Também ele era filho do deserto, e desejaria fazer parte daquela família livre, se outros cuidados não o chamassem além.
Cuidou enfim o gaúcho da partida. Cumprira o dever de... Ia dizer de humanidade e talvez não errasse; tão inteligente e elevado era o sentir dessa alma pelo brioso animal, que ele prezava como o companheiro e amigo do homem! Para ele, que devassava e entendia os arcanos da organização generosa, o cavalo se elevava ao nível da criatura racional. Tinha mais inteligência que muitas estátuas ermas de espírito; tinha mais coração que tantos bípedes implumes e acardíacos.
Não direi contudo dever de humanidade, mas de fraternidade, o era decerto; posso afirmá-lo. Manuel considerava-se verdadeiro irmão do bruto generoso, bravo, cheio de brio e abnegação, que lhe dedicava sua existência e partilhava com ele trabalhos e perigos.
Teria a si em conta de um egoísta e cobarde se não seguisse os impulsos de seu coração restituindo um ao outro aquela mãe órfã ao filho desamparado. Agora que estava, uma tranqüila e contente, o outro salvo e reanimado, e completa pela mútua adesão aquela dupla existência, podia-se ir sossegado; e o devia quanto antes, que um dever imperioso o reclamava em outro lugar.
Esse dever, sim, era humano; era a vingança do filho contra o assassino que lhe roubara o pai.
Segurou Manuel com o fragmento do laço do caçador uma égua rosilha, que já não tinha poldrinho a amamentar. Nenhuma resistência fez o animal; todos se haviam rendido à influência misteriosa do gaúcho; e todos desejavam tanto mostrar-lhe seu afeto, que houve quase querelas e arrufos de ciúmes pela preferência dada à rosilha.
Quem mais se agitou com esta escolha foi a Morena. Embebida até então com poldrinho, toda ela era pouca para a satisfação e alegria daquela restituição. Multiplicava-se; havia tantas mães nela quantos sentidos; uma nos olhos, que embebiam o filho; uma nos ouvidos, que o escutavam; uma na língua, que o lambia; uma nas ávidas narinas que o farejavam; uma no tato com que o conchegava.
Mas onde estava ela sobretudo era naquele sexto sentido, exclusivamente materno, que reside nas tetas lácteas, o sentido da sucção, pelo qual a mãe sente que se derrama no corpo do filho, e se transporta gota a gota para aquele outro eu.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.