Por José de Alencar (1857)
HENRIQUETA - Além disso, não tinhas outra pessoa por quem mandar a carta, senão ele?
CARLOTINHA - Ele quem? O Azevedo?
HENRIQUETA - Sim; foi ele que ma entregou.
CARLOTINHA - Mas não é possível; eu a mandei por Pedro; e recomendei-lhe que não a mostrasse a ninguém, mesmo por causa da sobrescrita!...
HENRIQUETA - Não compreendo, então, como foi parar nas mãos desse homem. Tive um desgosto... e um medo!... Tu falavas de Eduardo!
CARLOTINHA - Espera, vou perguntar a Pedro que quer dizer isto! (Na porta) Pedro!...
HENRIQUETA - Deixa, não vale a pena.
CARLOTINHA - Não, é muito mal feito.
CENA V
Os mesmos e PEDRO
PEDRO - Nhanhã chamou?
CARLOTINHA - Quero saber como é que a carta que eu lhe dei para Henriqueta foi parar em mão do Sr. Azevedo.
PEDRO - Ele me encontrou na rua, e tomou para entregar.
CARLOTINHA - Não te disse que não queria que ninguém visse a sobrescrita?
PEDRO - Ele é noivo de sinhá Henriqueta: não faz mal.
HENRIQUETA - Está bom; não pensemos mais nisto.
CARLOTINHA - Não quero que outra vez suceda o mesmo. (A PEDRO) Entendeste?
PEDRO - Sim, nhanhã. Pedro sabe o que faz! (Batem palmas.)
CARLOTINHA - Que quer dizer?
CENA VI
HENRIQUETA, CARLOTINIIA, AZEVEDO, PEDRO, no fundo
HENRIQUETA, - Há de ser ele.
CARLOTINHA - Alfredo! Ah! Se fosse...
HENRIQUETA Queres apostar?
CARLOTINHA - Ora, é o Azevedo. Eu logo vi!
AZEVEDO - Como passou, D. Carlotinha? D. Henriqueta?
CARLOTINHA - O senhor parece que adivinha, Sr. Azevedo?
AZEVEDO - Por quê?! Por encontrá-la hoje tão bela? Está realmente éblouissante!
CARLOTINHA - Faça-se de esquerdo! A minha beleza serve de pretexto para elogiar a de Henriqueta!
AZEVEDO - A senhora quer dizer o contrário...
CARLOTINHA - Quer dizer que o senhor adivinhou quem estava aqui hoje.
AZEVEDO - Quem?... Não vejo ninguém.
CARLOTINHA - Nem a sua noiva? Era esta palavra que o senhor queria ouvir!
AZEVEDO - Sim, era esta palavra que eu desejava ouvir dos seus lábios.
CARLOTINHA (baixo, a HENRIQUETA) - Que fátuo! (Alto) Vem, Henriqueta; vamos chamar mamãe para falar ao Sr. Azevedo.
AZEVEDO - Então, deixa-me só?
HENRIQUETA - Oh! Um homem como o senhor pode ficar só? Paris inteiro lhe fará companhia!
CARLOTINHA - Suponha que está no Boulevard dos Italianos.
AZEVEDO - Não. Mas conversarei com esta flor; ela me dirá em perfumes, o que os lábios que a bafejaram recusaram dizer em palavras.
CARLOTINHA - Como está poético! Aquilo é contigo, Henriqueta.
HENRIQUETA - Comigo, não! É com quem lhe mandou a violeta! Vamos! Pois, Sr. Azevedo, nós o deixamos no seu colóquio amoroso.
CENA VII
AZEVEDO, PEDRO
AZEVEDO - Foge-me!...
PEDRO - Como vai paixão por nhanhã Carlotinha, Sr. Azevedo? Flor já está na dança!
AZEVEDO - Queria mesmo te falar a este respeito! Não entendo tua senhora. Tu dizes que ela gosta de mim et pourtant...
PEDRO - Parlez-vous français, monsieur?
AZEVEDO - Ela faz que não me compreende! Trata-me com indiferença.
PEDRO - Pudera não! O senhor vai se casar.
AZEVEDO - Ah! Tu pensas que é esta a razão!
PEDRO - Nhanhã mesmo me disse! Moça solteira não pode receber corte de homem que é noivo de outra mulher! É feio, e faz cócega dentro de coração; cócega que se chama ciúme!
AZEVEDO - Então é o meu casamento que impede!... E nem me lembrava de semelhante coisa! Com efeito, Henriqueta é sua amiga; ela julga talvez que a amo.
PEDRO - Mas isto não quer dizer nada. Ela gosta de V.Mce., gosta muito! Ontem, quando mandou essa violeta que o senhor tem na casaca, beijou primeiro.
AZEVEDO - E foi ela mesmo quem se lembrou de mandar-me?
PEDRO - Ela mesma, sem que eu pedisse nada!
AZEVEDO - Bem; eu sei o que me resta a fazer.
PEDRO - Já vai? Não espera por sinhá velha?
AZEVEDO - Não, eu já volto. E, preciso tomar uma resolução: il le faut!
PEDRO - Monsieur está pensando!
AZEVEDO - Diz a D. Carlotinha... Não, não lhe digas nada! Eu quero ser o primeiro a anunciarlhe.
CENA VIII
PEDRO, JORGE
PEDRO - Oh! Já voltou do colégio? Agora mesmo deu meio-dia.
JORGE - Tive licença para sair mais cedo.
PEDRO - Nhonhô já sabe novidade?
JORGE - Que novidade?
PEDRO - Novidade grande! Sr. moço Eduardo vai casar com nhanhã Henriqueta!
JORGE - Ah!... E o noivo dela?
PEDRO - Sr. Azevedo? Casa com nhanhã Carlotinha.
JORGE - Mana?... E Sr. Alfredo?
PEDRO - Fica logrado. Para rematar a festa, velho Vasconcelos casa com sinhá velha.
JORGE - É mentira!
PEDRO - Há de ver!
JORGE - Então tudo se casa?
PEDRO - Tudo, tudo. Nhonhô também carece ver uma meninazinha bonita... Mas V.Mce. ainda não sabe namorar!...
JORGE - Eu não!
PEDRO - Pois precisa aprender, que já está franguinho. Pedro ensina.
JORGE - E tu sabes?
PEDRO (rindo-se) - Ora!... Nhonhô pede dinheiro a mamãe e compra luneta.
JORGE - Para quê?
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.