Por José de Alencar (1860)
Araújo – Têm o mérito da impudência!
Carolina – Temos o mérito da franqueza. Que importa que esses senhores que passam por sisudos e graves nos condenem e nos chamem perdidas?... O que são eles?... Uns profanam a sua inteligência, vendem a sua probidade, e fazem um mercado mais vil e mais infame do que o nosso, porque não tem nem o amor nem a necessidade por desculpa; porque calculam friamente. Outros são nossos cúmplices, e vão, com os lábios ainda úmidos dos nossos beijos, manchar a fronte casta de sua filha, e as carícias de sua esposa. Oh! Não falemos em sociedade, nem em virtude!... Todos valemos o mesmo! Todos somos feitos de lama e amassados com o mesmo sangue e as mesmas lágrimas!
Meneses – Não te iludas, Carolina! Esse turbilhão que se agita nas grandes cidades; que enche o baile, o teatro, os espetáculos; que só trata do seu prazer, ou do seu interesse; não é a sociedade. É o povo, é a praça pública. A verdadeira sociedade, da qual devemos aspirar a estima, é a união das família honestas. Aí se respeita a virtude e não se profana o sentimento; aí não se conhecem outros títulos que não sejam a amizade e a simpatia. Corteja-se na rua um indivíduo de honra duvidosa; tolera-se numa sala; mas fecha-se-lhe o interior da casa.
Carolina – Quanta palavra inútil!...
Meneses – Não são para ti, bem sei; mas saem-me sem querer e, felizmente, aqui está um amigo que me escuta com prazer.
Araújo – Realmente precisava ouvir-te para não duvidar de mim, e de todos esses objetos que estou habituado a respeitar.
Helena – Falemos de coisas mais alegres.
Meneses – Não lhe agrada a conversa neste tom? (Batem palmas)
Helena – Não entendo disso; é bom para a Carolina que vive a ler.
Meneses – Ah! Lê romances naturalmente? Carolina – Que lhe importa?
CENA II
(Os mesmos e Pinheiro)
Helena (na porta) – Não lhe pode falar! Não teime!
Carolina – Quem é?
Helena – O Pinheiro.
Carolina – Que vem ele fazer cá? Dize-lhe que não estou em casa.
Araújo – Bate-lhe na cara com esta mesma porta que ele fechava outrora com sua chave de ouro.
Meneses ( a Araújo ) – Não te disse que ainda tinhas que ver?
Pinheiro (à Helena) – Deixa-me! Hei de falar a Carolina. (Entra)
Helena – Onde viu o senhor entrar assim na casa dos outros?
Pinheiro – São os maus hábitos que ficam a quem já foi dono. Meus senhores!...
Meneses – Sr. Pinheiro! (Estendendo-lhe a mão)
Pinheiro (recusando, confuso) – Tem passado... bem...
Meneses – Pode apertá-la; nunca a estendi aos favores do homem rico; ofereço-a ao homem pobre que sabe suportar dignamente a sua desgraça.
Pinheiro (apertando a mão) – Se todos tivessem esta linguagem...
Araújo – Ele não teria merecimento, Sr. Pinheiro.
Pinheiro – Os senhores permitem que eu diga algumas palavras em particular à Carolina?
Meneses – Sem dúvida! Esperamos naquela saleta. Anda, Helena; vem divertir-nos contando os teus arrufos com o Vieirinha.
Helena (à Carolina) – Não sofras maçada. Carolina – Deixa.CENA III
(Pinheiro e Carolina)
Pinheiro – Vejo que a minha presença lhe aborrece, Carolina. Só um motivo forte me obrigaria a importuná-la.
Carolina – Previno-lhe que vou sair; portanto não se demore.
Pinheiro – Houve tempo em que nesta mesma sala, neste mesmo lugar, a mesma voz se queixava quando eu não podia me demorar.
Carolina – Deixemos o passado em paz.
Pinheiro – Não se recorda.
Carolina – As mulheres só começam a recordar depois dos quarenta anos; antes gozam.
Pinheiro – Pois bem! Que esqueça o amor, compreendo; mas há certas coisas que lembram sempre.
Carolina – Não sei quais sejam.
Pinheiro – Os benefícios.
Carolina – Deixam de ser quando se lançam em rosto.
Pinheiro – Não foi essa minha intenção, Carolina; desculpe. O meu espírito se azeda com estas reminiscências. antes que a ofenda de novo, não vou dizer o que lhe quero pedir.
Carolina – Ah! Vem pedir?
Pinheiro – Admira-se!
Carolina – Como nunca pedi, estranho sempre que me pedem.
Pinheiro – Talvez algum dia seja obrigada!...
Carolina – Deixamos o passado para tratar do futuro? Pois olhe, se um pertence às mulheres velhas, o outro é o consolo das pobres meninas de dezoito anos, que vivem a sonhar.
Pinheiro – Deste modo não me deixa dizer...
Carolina – Que lhe impede?
Pinheiro – Suas palavras de sarcasmo.
Carolina – Estou hoje contrariada.
Pinheiro – Por que motivo?
Carolina – Não sei.
Pinheiro – É a minha presença?... Tem razão; estou lhe roubando o seu tempo; outrora podia comprá-lo; hoje estou pobre; gastei toda a minha fortuna. Não me queixo, nem a acuso. Sofreria resignado essa perda se ela fosse apenas uma perda de dinheiro, e não acarretasse a desgraça de outra pessoa.
Carolina – Que
tenho eu com isto?
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.